Mesotelioma na Capadócia

por: Lucia Malla Ásia, Biomédicas, Ciência, Geociências, Política, Turquia
Capadócia

Casas na Capadócia, Turquia.

Como já disse antes, às sextas-feiras tenho 2 rituais: publicar a Sexta Sub (meu relax bloguístico da semana) e ir correndo ver a Charada da 6a do Riq. De vez em quando, a charada de lá me inspira a escrever algo. É o caso deste post.

A charada em questão mostrava uma foto da Capadócia, na Turquia. Uma vez, conversando com a Carla Tolosa em São Paulo, ela me contou do quanto o terreno da Capadócia era o que mais a atraía à região – ela, geóloga, dizia que aquele era um lugar único pra se visitar porque o solo era todo especial, etc. Um barato a viagem na maionese dela.

Mas, quando ela me falou isso eu não quis contar pra ela o que a Capadócia me lembrava. Porque era uma visão tão oposta e tão “triste” que eu preferi ouvir tudo que ela sabia sobre o solo da Capadócia e ficar na minha. Porque a Capadócia me lembrava mesotelioma, um tipo agressivo de câncer da membrana do pulmão, coração e/ou da cavidade abdominal, que mata em menos de 1 ano após descoberto na maioria dos casos. (É o mesmo câncer que meu ídolo Stephen Jay Gould teve, e que o fez escrever esse texto brilhante e inesquecível sobre estatísticas de câncer.)

Exatamente por conta do solo, que na Capadócia é rico em erionita, uma fibra rochosa branca e macia “parente” do famigerado asbestos (também chamado amianto, em português). O solo, que torna a região tão linda e atraente a uma geóloga, seria o que atraía também à região pesquisadores em oncologia, já que o mineral mata em níveis epidêmicos a população dos vilarejos de Karain, Tuzkoy e Sarihidir. Que contraste.

Classicamente, o mesotelioma se desenvolve pela exposição ao asbestos. Esse material era muito usado na fabricação de isolamento térmico das construções nos locais temperados. Desde a década de 70, seu uso foi proibido na maior parte dos países, exatamente por causar problemas graves no trato respiratório. E na Capadócia, os índices de mesotelioma eram inacreditavelmente altos, por causa do material usado para se construir as casinhas tão encantadoras.

Ou assim se pensava.

Até que um oncologista que hoje está aqui na Universidade do Hawaii, Dr. Carbone, foi convidado por uma equipe de médicos do país a visitar a Turquia e meio que por serendipidade, terminou auxiliando na pesquisa e ajudando a entender melhor a razão do mesotelioma ali. Mal sabia ele o quanto seria descoberto ao longo dos anos em que se empenhou no trabalho, e o quanto conseguiria social e politicamente. O resumo do trabalho, publicado em 2007 na Nature Reviews of Cancer [artigo todo infelizmente só para assinantes], conta uma história tocante e bela que alia ciência e política de forma a mudar uma sociedade positivamente.

Os 3 vilarejos da Capadócia citados acima onde a epidemia de mesotelioma se desenvolvia são regiões ricas em erionita, usada para construir moradias, e constantemente encobertos pelo pó branco que a simples escavação do solo da região gera. Logo se criou uma relação causal entre a fibra mineral e o câncer.

Vista do vilarejo de Karain, Capadócia.

Existiam ainda por cima as “casas da morte” nos 3 vilarejos. As pessoas que moravam nestas casas ficavam estigmatizadas, e não conseguiam estabelecer relações comerciais nem sociais com os vilarejos vizinhos, que ficavam com medo de “pegar” a doença. As pessoas das “casas da morte” terminavam migrando para outras regiões para evitar o preconceito, começar do zero. O vilarejo de Karain, por exemplo, de 600 habitantes hoje possui 150.

Entretanto, o pesquisador logo notou que casas vizinhas, feitas do mesmo material, muitas vezes não tinham sequer um caso de mesotelioma. Percebeu também que outras áreas da Capadócia ricas em erionita, como o vilarejo de Karlik, não tinham índices tão aviltantes de mesotelioma – pelo contrário, os números eram os mesmos da incidência mundial. A relação causal começava a ficar abalada entre ambiente e câncer.

Carbone e sua equipe começaram a investigar então por quê algumas casas pareciam mais “marcadas” que outras para ter câncer. A equipe coletou amostras de sangue, montou um complexo mapa genealógico, e mostrou que havia um fundo genético na forma como o mesotelioma aparecia – era um componente hereditário que certas famílias da região tinham. Como os vilarejos eram muito isolados e havia ali muitos casamentos entre parentes, tal componente genético se reforçava na população. Então teriam as casas branquinhas e lindas sido inocentadas?

Nem tanto. Os pesquisadores mostraram também que pessoas das “famílias de mesotelioma”, quando se mudavam para cidades onde não havia exposição à erionita (como em outras partes da Turquia), não desenvolviam a doença. Ou seja, mesmo com o componente genético no seu DNA, a pessoa depende de conviver com o material para desenvolver o mesotelioma. Um caso clássico de interação genética + ambiente.

A ciência trouxe à tona entendimento via dados, mas as pessoas continuavam estigmatizadas – a educação da sociedade é um processo lento, lembrem-se. De posse dos dados de anos de pesquisa, mostrando a relação genética + exposição à erionita como causa do mesotelioma, os pesquisadores se reuniram com o ministro da Saúde da Turquia, que prometeu a construção de uma nova vila feita de casas de cimento e tijolo tradicional a cerca de 1 km da região original. A vila foi construída e os habitantes hoje, mesmo que detentores do gene do mesotelioma, diminuíram consideravelmente a exposição à erionita – o que lhes garante probabilisticamente muito menor incidência de câncer que no passado.

Uma bela história de como a ciência pode ser usada como instrumento poderoso na melhoria das condições social, de saúde e vida de uma população humana.

Tudo de bom sempre.

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– É um link repetido do texto, mas se você tiver acesso via uma biblioteca ao pdf da Nature Reviews Cancer, leia o artigo original inteiro. É um caso raro de ciência contada de maneira humana, subjetiva e sincera. Emocionante do início ao fim. Recomendadíssimo.

– As fotos deste post foram retiradas do artigo original da Nature Reviews Cancer e estão sendo utilizadas dentro dos termos de uso da revista para sites não-comerciais.

– A Capadócia está definitivamente na minha lista de lugares que quero muito conhecer. Mas confesso que, geologia por geologia, os terraços naturais de Pamukkale, na província de Denizli, ainda são mais meu desejo de viagem turco que a Capadócia… Olha a paisagem que lindeza!

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UPDATE 29-agosto-11: Coincidência total, mas ontem saiu no jornal aqui (e desde domingo na Nature Genetics) que a mesma equipe de pesquisadores aqui do Hawaii descobriu um dos genes ligados ao mesotelioma – e a diversos outros cânceres. Muito bacana!!!



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