Diário de uma viagem de mergulho a Pohnpei, Micronésia

Mapa de Pohnpei, tirado daqui.

Em janeiro, quando viajamos para Pohnpei, na Micronésia, nosso objetivo principal de viagem era passar a maior parte do tempo possível embaixo d’água – entenda-se, mergulhar e snorkelar até dizer chega. Imaginávamos que, sendo o país uma ilha no Pacífico, não teríamos muitas dificuldades para atingir tal meta.

Pois estávamos MUITO enganados.

Pohnpei só possui uma operadora mezzo-formal-mezzo-oficial de mergulho, a que fica dentro do único resort da ilha, o The Village (um ecoresort bem bacaninha, por sinal). A operadora, por óbvia falta de concorrência, cobra absurdos 200 dólares por saída de mergulho com 2 tanques, preço pra lá de salgado.

O litoral de Pohnpei é todo assim, vegetação densa.

Pior: o estado tem 8 atóis, 25 ilhas maiores com recifes de corais e mais um monte de ilhotas deliciosas, mas… quase não tem praia de areia (!!!). Pohnpei é cercada por manguezal ou rochedos inacessíveis, o que inviabiliza portanto boa parte das intenções de se fazer mergulhos à partir da costa. Todos os bons pontos de mergulho estão na região da barreira de corais, que fica afastada da costa e necessariamente requer barco para acesso –  em Pohnpei sem barco você não mergulha nem surfa. Com tanta dificuldade, um aventureiro mais acomodado provavelmente desencanaria das atividades aquáticas e entraria no ritmo “fazemos-limonadas-desses-limões”. Relaxaria embaixo do pé de banana karat e curtiria outros mistérios locais.

Mas não nós.

Felizmente, fomos para visitar amigos, com contatos locais que puderam facilitar a empreitada de mergulho. Mesmo assim, nos 2 primeiros dias do fim de semana, saímos de barco com nossos amigos apenas para snorkelar – nada de tanque e apetrechos de autônomo, que não cabiam no barquinho. E segue abaixo as aventuras e desventuras de uma viagem de mergulho a Pohnpei, Micronésia.

 

Sábado, reconhecimento da área

Ficamos hospedados no município de U, então nada mais fácil que começar o reconhecimento sub da ilha por locais ali perto. Era sábado de sol lindo e o primeiro ponto da rota foi o Manta Road, num canto do Mwand Pass, que diversas arraias jamantas frequentam. O canal é cercado de recifes de corais pristinos dos dois lados. A corrente pode ser bem forte, mas a emoção de ver a manta ali, nadando tranquila e sorridente, fazendo suas piruetas… não tem preço. As mantas não ficam lá o ano todo, há um período (se não me engano entre abril-maio) em que elas se agregam em maior número. Mas mesmo em janeiro, pudemos ver uma delas por lá. O mais interessante: cerca de 30% das jamantas que visitam o Manta Road são pretas (dado de origem duvidosa, achei nesse site aqui).

Depois de mais de uma hora tendo o primeiro petisco do que seria a vida sub de Pohnpei – recifes de corais super-saudáveis, pouquíssimos sinais de depredação, diversidade exuberante – fizemos nossa parada de almoço na ilha de Mwand. A ilha é desabitada e possui apenas um píer, que serve de apoio (!!!) para quem passa (!!!!!!!!) pela região. Como a gente, por exemplo, que “precisava” de uma sombra para comer. 🙂

Almoçamos patês e sanduíches ao som das ondinhas quebrando no píer, com o visual aí embaixo de pano de fundo…

Magic spot.

Depois partimos – com uma parada desastrosa e providencial no meio da laguna – para Nan Madol, o sítio arqueológico de uma civilização antiga desaparecida que deixou mistérios e perguntas sem resposta. Nan Madol é conhecida como a “Veneza do Pacífico”, então nada melhor que um barquinho para passear pelos canais da cidade em ruínas. Claro, aproveitamos a maré alta para nadar um pouco por ali.

 

Domingo, micronesian reef and mangue beat

Mais uma passada “básica” pela manhã no Manta Road. Como não havia mantas por lá, decidimos ir para o canal principal do Mwand Pass para snorkelar. Mal caímos na água e um tubarão-zebra nos aguardava, todo calmo deitado no fundo. Eu confesso que fiquei impressionada com a saúde do recife de coral ali; inúmeras espécies de peixes, corais, anêmonas, ascídias… entrou fácil pro top 3 melhores snorkels da minha vida.

Coral do Mwand Pass.

Não dava vontade de sair da água quentinha, cheia de vida e colorido. Era tanta curiosidade pra ver em um pequeno espaço de coral! Meus amigos também são biólogos, então contaram já no barco diversas histórias sobre a conservação dos corais ali, os meandros políticos, etc. Muito interessante.

No mangue, os apogonídeos – entenda-se, peixe-cardeal.

Almoçamos de novo na mesma Mwand Island – pra quê mexer em time que está ganhando, não é mesmo? – e de tarde, nos aventuramos por dentro de um manguezal da costa. André foi snorkelar e fotografar os apogonídeos do mangue. Eu e minha amiga ficamos só na água cheia de algas, enjoying life e vendo uns peixes-palhaços perdidos ali pelo manguezal. No dia anterior eu já havia observado que o mangue ali tinha algumas características de vegetação bem peculiares, diferentes dos mangues que a gente vê no Brasil, por exemplo. Perguntei a ela se sabia algo sobre aquele mangue, e ela disse que não só não sabia, como não há ninguém no momento na ilha estudando-o. (Olha a oportunidade botânica e ecológica!)

 

2a feira, mergulhos finalmente!

Nossos amigos nos colocaram em contato com Kevin, um senhor da Flórida que mora em Pohnpei há mais de 15 anos e que faz uma operação de mergulho mega-improvisada, nada-divulgada, a preço semi-camarada. Kevin tem um ajudante, o Mike, e fomos de manhã ao seu encontro num banco de areia que faz as vezes de píer improvisado. Saímos em direção ao lado oeste da ilha. A regra do mergulho em Pohnpei dita que você quer sempre cair na água na maré cheia, quando ela está entrando na laguna e trazendo água limpa do mar. Na maré vazante, a água que sai carrega sedimentos dos mangues, e a visibilidade embaixo d’água fica bastante prejudicada.

Nosso primeiro mergulho foi no Dawahk Pass. O cenário sub do Dawahk é bem interessante, com 2 paredões de coral e uma “ponte” no meio – esta ponte é frequentada por cardumes de barracudas e alguns tubarões-de-recife.

Depois do almoço de sanduíche, fomos para o sul, em direção ao próximo canal, o Poahloang Pass. Ali, há no fundo um paredão de corais enorme que termina numa área de “quina” que me lembrou muito o Blue Corner de Palau: você praticamente fica assistindo uma “tela azul gigante”, onde os peixes passam às centenas e onde a diversidade de anêmonas, peixes e ascídias é assustadora. E, como no Blue Corner, um peixe-napoleão apareceu – mas esse estava bem assustado e em poucos segundo desapareceu para as profundezas.

 

Terça-feira, dia de descanso

Em viagens de vários dias, as pessoas normais em geral adicionam um dia de descanso. Nós também somos assim, só que nosso descanso é de outro jeito: embaixo d’água. Ou seja, não muda muito pra um dia normal. 😛

O “quintal”. Repare na cobertura coralina…

De manhã cedinho, fomos na casa do Kevin buscar 2 tanques de ar e pesos de chumbo pro mergulho do dia. De posse dos tanques, resolvemos dar uma espiada no Nett Point, que supostamente poderia ser um bom point de mergulho dado que é um dos poucos pontos do litoral de Pohnpei com acesso fácil à água. Infelizmente, o local estava perto das obras de dragagem pra construção da extensão da pista do aeroporto, de modo que desistimos do mergulho ali. Voltamos então para U (jamais me acostumarei a escrever o nome de uma província que é apenas uma vogal…) e resolvemos explorar subaquaticamente o quintal da casa de nossos amigos, onde estávamos hospedados. Esse point-bizarrice foi pro meu logbook, claro. 😀

Fauna do quintal.

Foi um mergulho super-hiper-ultra-mega-light. Esperamos a maré começar a encher para cair na água – já era quase meio dia. Puxamos todo o equipamento até a pontinha do canal, onde era mais eficiente submergir. O fundo era bem cheio de sedimentos, vindos da constante movimentação de maré mais provavelmente restos da construção das poucas casas e píers que ali existem. Por causa da proximidade da costa, esperávamos visibilidade péssima, mas não estava tão ruim assim. E o mais incrível: havia toda uma fauna de invertebrados muito bacana a ser vislumbrada. Inacreditável. O mergulho foi um dos mais longos da minha vida, o tanque de ar não acabava nunca, porque não fomos muito fundo e não havia corrente praticamente nenhuma para roubar força física. Uma paz só.

 

4a feira, mergulho e surfe no Palikir

O clima entre Kevin e Mike, o ajudante, não estava muito amigável. Por conta disso, no barco havia uma certa “tensão” no ar. Bom, para mim o mar é o que importa, e depois de discussão cheia de rodeios, decidimos voltar ao Dawahk Pass, dessa vez fazendo o outro lado do canal. Infelizmente, entretanto, quando caímos na água a corrente estava o inverso do que Mike previu, e a visibilidade ficou bem ruim. Mas, mesmo assim, ainda vi um cardume de tubarões-galha-branca. Aaaaaa!

Por conta das condições de mergulho, Kevin comentou que aquele tinha sido um dos piores mergulhos de sua vida em Pohnpei. Mesmo com tanto tubarão assim. Fiquei imaginando o melhor então… 😀

O segundo mergulho do dia foi no Palikir Pass, point famosésimo de surfe. Quando chegamos no Palikir, vários barcos se amontoavam. Motivo óbvio: as ondas estavam quebrando lindamente. Tubos perfeitos, mar azulzinho, sol tinindo, tudo conspirava pro surfe – não pro mergulho. Mas nós estávamos com tanques, e queríamos conhecer o fundo do canal. Mais uma vez, a maré estava vazante, e a visibilidade saiu “prejudicada” – em termos micronésios, visibilidade “ruim” gera fotos assim, entenda-se. E muita diversão, porque afinal, se não podemos ver o macro, vamos conversar com o mundo micro. 😀

Saiba mais sobre uma atração histórica em Pohnpei.

Conheça outra atração mundial de Pohnpei, as ruínas de Nan Madol.

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5a-feira, dia de surfe

contei antes. 😀

 

6a-feira, mergulho na frente do Nan Madol

Apesar de estarmos em geral tranquilos e satisfeitos com nossas aventuras de viagem, nossos amigos estavam preocupados porque ainda não havíamos mergulhado “direito” – sério, o conceito de “direito” para quem tem a um quintal de distância um recife de coral saudável (e mergulhável!) é realmente distorcido. Enfim, fato é que meu amigo organizou para nós irmos mergulhar “VIP style” do outro lado da ilha, onde ele trabalha. (O trabalho dele, aliás, é papo certo para outro post.)

De manhã cedo, partimos para Madolenihmw, a província a sudoeste da ilha, onde ficam as ruínas de Nan Madol. Chegamos cedo no local combinado, e fomos recebidos por grupo de mergulhadores profissionais locais que nos levaria para mergulhar naquele dia, liderados por Mackenzie. Como eles eram profissionais, estavam a caminho do trabalho; nosso equipamento era um nada perto da quantidade de tanques e afins que eles carregavam. Apelidei um dos mergulhadores de Hulk, dada a facilidade com que ele carregava 2 tanques cheios de ar + colete + chumbos da gente.

A pedra diferente de todas as outras no meio do mar, um dos mistérios do Nan Madol.

Mackenzie e Hulk caíram na água no local em que precisavam fazer seus trabalhos. Nós, a passeio, fomos levados pelo barqueiro até a ponta de Na Island, a ilha que fica exatamente em frente ao Nan Madol. Interessantemente, uma rocha de Nan Madol foi posta ali, sabe-se lá como e por quem,  e está alinhada com a estrutura principal de Nan madol, apesar do canal no meio cortando. Como um farol a sinalizar o local correto de entrada na laguna. Ou seria o início de um sea wall? Mais um mistério…

O mergulho em Na Pass foi o melhor da viagem toda. Inacreditável a visibilidade da água, a calma do mar, a quantidade de vida e a saúde dos corais. Como estávamos só nós 2 embaixo d’água, resolvemos fazer meio que um drift light pelo paredão, parando em cada invertebrado colorido para apreciá-lo e fotografá-lo. Mais uma vez, um peixe-napoleão apareceu – dessa vez, ficou um pouco mais com a gente antes de desaparecer. André não parava de clicar, e eu não parava de admirar tudo ao redor. A visão daquele recife que parecia totalmente intocado, único, deixado viver, me emocionou muito. Essa era a Micronésia que eu sonhava ver.

Ficamos a maior parte do tempo a 15m de profundidade, então o ar rendeu muito. Depois que voltamos ao barco, fomos buscar os outros 2 mergulhadores, que ainda estavam embaixo d’água. Quer dizer, eu achei que íamos buscá-los. Mas o barco parou numa praia deserta de areia branca (finalmente!) em Na Island e o barqueiro falou que era “hora do almoço”. Não tínhamos mais tanques de mergulho, mas o local era tão convidativo a um snorkel, que não resistimos: voltamos para a água.

Na Ilha.

A paisagem sub aqui era um pouco diferente, super-interessante. Ao invés de grandes corais, bastante capim marinho (sea grass). Alguns cabeços de corais solitários. E o mais fofo: o local era um berçário dos peixes do recife. Todos os peixes que vimos mergulhando estavam ali, em versão mini. Uma fofura demais!

Nesse meio-tempo, os mergulhadores emergiram da água e vieram nadando até a praia. Levamos almoço (sobra da janta do dia anterior) e piquenicamos num tronco de coqueiro na praia, enquanto conversávamos calorosamente com Mackenzie, um pohnpeiano muito bacana e inteligente, que só se alimenta de comida saudável “para não ficar diabético“, foi o que ele nos disse. Admirável.

O barqueiro que nos acompanhou.

Depois do almoço, enquanto os mergulhadores voltavam pro segundo mergulho deles e o barqueiro cochilava, André e eu caímos novamente naquela praia só nossa, para snorkelar mais e mais. Porque não dava vontade de sair daquela água nunca. Morninha, mansa, visibilidade a perder de vista e cheia de vida… precisa de mais?

Depois que os mergulhadores acabaram com o trabalho deles, voltamos pro píer – dessa vez por um caminho lindíssimo pelo meio da laguna, beirando o mangue e cortando caminho por uma “ponte” de galhos e raízes. Um dia perfeito, de placidez e desligamento do mundo ao redor, quando tudo que importa na vida é o movimento da maré. Ai ai…

 

Sábado e domingo, na ilha de 10 dólares

Fizemos a excursão a Black Coral Island, outro paraíso ilhéu, que também já contei aqui. 🙂

 

Finalmentes…

Apesar de (quase) nenhuma estrutura oficial para mergulhos, na base do improviso e da amizade conseguimos aproveitar bastante o mundo sub micronésio nas nossas férias.

Aos que desejam se aventurar por lá, minha dica é: aproveite o isolamento de Pohnpei para se isolar dos problemas também. Seja desencanado. A ilha não tem muito conforto nem todo tipo de comida, muito menos vida noturna. Para mim, isso não é problema, porque meu negócio é água. Mas antes de embarcar para lá, exercite abrir sua mente para inevitáveis imprevistos mil. Não é uma viagem que dá pra ser planejada nos mínimos detalhes, então não se estresse. Chegando em Pohnpei, desacelere, porque o ritmo de vida é outro. Compartilhe sorrisos, ouça mais os passarinhos e a conversa dos locais, tome um banho de chuva (chove todo dia lá, pelo menos 15 minutinhos) e muitos banhos de mar, deixe seus neurônios descansarem e seu coração bater mais devagar.

Kaselehlie!

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*Para viajar mais sobre Pohnpei…

– Para chegar em Pohnpei, há duas maneiras: de barco ou avião. De avião, é o Island Hopper da Continental (agora United…) que faz Honolulu-Guam parando em diversas ilhas do Pacífico norte. Há também um vôo direto de Guam para Pohnpei. A ilha recebe pouquíssimo turismo por ano, portanto não espere nenhuma estrutura para tal.

– A melhor opção de hospedagem é o ecoresort The Village, que é construído no meio de uma floresta com vista pro mar e não custa caro – o problema é pagar pra chegar lá e o custo-ilha… O The Village tem o melhor restaurante de Pohnpei, o Tatooed Irishman, onde fomos algumas vezes tomar café da manhã e jantar, a um preço bem camarada (levando em consideração a distância que estávamos de quase tudo no resto do mundo). [ATUALIZAÇÃO 2015 – O Tattooed Irishman e o The Village fecharam.]

Ensopado de frutos do mar,  servido na concha. #momentodestemperada

– Agora, se você quer economizar bastante na hospedagem, há alguns pequenos hotéis na cidade, bem estilo beira-de-estrada, tipo o South Park Hotel. O mais arrumadinho deles é o Joy Hotel, que fica bem no centro da capital Kolonia. O almoço no Joy é um capítulo à parte, com os sashimis mais baratos e frescos que você vai encontrar no planeta (o atum é local, sai do mar e vai pra mesa do restaurante). No dia em que fomos almoçar lá, um dos “chefes tribais” de um dos atóis da região estava presente. Achei o máximo. 😛

Uma curiosidade e uma coincidência. A curiosidade: a ilha que é reportada por Oliver Sacks no seu livro “The Island of the Colorblind” (“A Ilha dos Daltônicos”, em português) chama-se Pingelap, e é parte do estado de Pohnpei. A coincidência: no livro há um trecho em que Oliver Sacks descreve um jantar em casa de amigos em Pohnpei. Pois a casa onde este jantar aconteceu é a casa onde nos hospedamos. Os amigos do Sacks são outros, claro, mas não deixou de ser uma delícia pensar que por ali, há muitos anos, passou um autor que eu tanto admiro. 🙂



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