Filosofia de bar

por: Lucia Malla Cotidiano, Mallices, Minas Gerais, Tecnologia

Na época da faculdade em Viçosa, eu morava na rua do bar mais “badalado” da cidade. O bar para onde todos os estudantes iam depois de suas horas de estudo – e no meio delas muitas vezes também. Era o famoso Bar Leão, um pé-sujo de preços baratos, que é o que mais importa aos que têm coração e orçamento de estudante.

Fato é que, por morar ali pertinho, eu frequentava bastante o Leão, mas não só nos dias em que ele lotava e a gente queria ver-e-ser-visto. Nos dias não-lotados, eu ia com alguns amigos de curso para lá – acreditem – para estudar. Sentava na “minha” mesa (que o garçon de décadas Kikito já sabia qual era) e passava o tempo em discussões intermináveis de biologia e todo tipo de filosofia de bar possível e imaginável.

Depois que fechávamos os livros e dávamos o expediente de “estudo” por terminado, em geral pedíamos um pedaço de torta de frango, que fazia as vezes de janta, e uma rodada de cerveja. Era nessa hora que então olhávamos para a rua, quase sempre vazia àquela hora e dia. Do outro lado da esquina, esta pixação, marco das divagações sobre o nada e tudo ao mesmo tempo nas montanhas mineiras.

A internet não existia – estávamos maravilhados então com o bitnet, prévia ingênua da rede maravilhosa que dominaria o futuro. Mas a frase já era um convite para que nos desligássemos um pouco da realidade tecnológica, um convite à apreciação do mundo natural offline.

Nunca soube quem era o tal do “Americano”, mas seja quem for, era um romântico de vanguarda. O que ele diria dos tempos ágeis de facebook?

Os bares da vida mudaram, mas a frase – boa filosofia de bar – virou saudade de um período repleto de amigos e momentos; virou também prelúdio de uma necessidade cada vez mais pungente de ouvir ao vivo a voz que vem do coração, com a roupa encharcada e a alma repleta de chão.

Tudo de amigos sempre.



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