Sexta Sub: tubarão de Galápagos extinto

por: Lucia Malla ASPSP, Ciência, Ecologia & meio ambiente, Sexta Sub, Tubarões

Não é nem um pouco otimista a notícia que soube num email soterrado no meu inbox há mais de um mês: o tubarão-de-Galápagos (Carcharhinus galapagensis), espécie que predominantemente habita ilhas oceânicas, se extinguiu no Arquipélago de São Pedro e São Paulo (ASPSP), no litoral brasileiro.

Extinto. Foi-se. Acabou. Fim.

A conclusão foi publicada no Biological Conservation pelos biólogos Osmar Luiz e Alasdair Edwards, e mostra o declínio dramático da população de tubarões desde que a pesca intensiva começou na região. A princípio, os autores consideraram que todos os tubarões de recife estariam extintos no local. Mas uma análise mais detalhada do registro histórico (ecologia histórica) revelou que uma das espécies do gênero Carcharhinus, a falciformis, ainda pode ser vista por ali, não como residente, mas por conta de migração. (Outros gêneros de tubarão também passam por ali, mas não residem.)

Ninguém menos que Darwin foi um dos primeiros a relatar a presença de muitos tubarões no ASPSP, em seu A viagem do Beagle, em fevereiro de 1832. O navio passou pelos rochedos e Darwin comentou em seu diário:

“The smallest rock in the tropical seas, by giving a foundation, for the growth of innumerable kinds of sea-weed and compound animals, supports likewise a large number of fish. The sharks and the seamen in the boats maintained a constant struggle, who should secure the greater share of the prey caught by the lines.”

Extinções acontecem, são parte da biologia natural, mas esta é definitivamente parte da malfadada 6a extinção que estamos presenciando. Causada pela pesca excessiva, ou seja, a causa somos nós, nossa atividade humana. Os autores do artigo sugerem que a maioria dos tubarões é pescada por acidente, devido à intensa pesca de atum na região. Pode ser. Mas também não se pode negar a presença de uma fatia de pesca por barbatanas dos poucos tubarões que restam.

No artigo que os pesquisadores publicaram mostram que o primeiro relato da presença de tubarões no ASPSP foi de 1799, no relato de viagem do Perseverance:

“Sharks were numerous about the ship, and our people, in attempting to take them, lost a number of hooks and lines, and broke several pair of grains [pronged harpoons].”

A partir da década de 60, os relatos históricos começam a sublinhar o fato de não haver mais tantos tubarões na região. Numa expedição em 1979, ainda se reporta a presença da espécie ao redor das ilhas. A última avistagem oficial de 1993, da expedição Segredos Submersos:

“All dives we made were magnificent, but the lack of sharks was noticeable.”

 

O artigo dos biólogos Osmar Luiz e A. Edwards é bacana de se ler. Recomendo.

André esteve 2 vezes no ASPSP, em 2007 e 2008. Nas duas, não viu tubarão-de-recife algum. Os únicos tubarões vivos que fotografou foram um tubarão-baleia e uma dupla de tubarões-martelo. O que, para um local tão remoto, cheio de peixes recifais e área de proteção ambiental, é muito pouco. 

Mas aí vem o pes[quis/c]ador numa reportagem da Folha e diz que “ah, mas eu vi 3 indivíduos recentemente” – e ele diz isso se defendendo das acusações, já que possui um conflito de interesse enorme com uma grande empresa pesqueira que pesca ativamente na região. Além do mais, 3 indivíduos numa população que era de muitos mais, é praticamente extinto, porque a população provavelmente não consegue ser revertida a níveis mínimos. Ou seja.

[UPDATE: Na reportagem d’O Eco, escrita por Celso Calheiros com ajuda direta do Osmar Luiz, se relata que o pesquisador que viu os 3 indivíduos coletou-os dos pescadores e depositou as maxilas dos exemplares no Museu Oceanográfico da Universidade Vale do Itajai, e publicou esse fato num artigo (embora o link pro artigo não funcione, encontrei menção dele numa discussão online). Portanto, há um relato científico da presença desses 3 tubarões recentemente. (Podiam fazer um exame de DNA destas maxilas para confirmar a espécie…) Entretanto, ainda mantenho o ponto: 3 indivíduos é praticamente extinção. Na reportagem linkada acima, há uma argumentação/contra-argumentação bacana entre Osmar e uma pesquisadora do laboratório de Ecologia Marinha da UFRPE. A pesquisadora sustenta que o tubarão-de-Galápagos ali é sazonal, por isso a dificuldade em vê-lo – no que eu considero um argumento fraco, já que como Osmar frisa no artigo, em todos os outros pontos do planeta, esta espécie se caracteriza por ser bastante ligada aos recifes onde vive, não sazonal nem migratória. Aqui no Havaí mesmo ela está o ano inteiro lá no North Shore.]

A extinção do tubarão de Galápagos no ASPSP é uma extinção local, de uma população. Mas não deixa de gerar pausa para reflexão. A espécie ainda sobrevive em outros pontos do planeta – eu já tive o enorme prazer de mergulhar com eles aqui no Havaí, e quando soube da notícia, me deu vontade de ir imediatamente visitá-los de novo, e dar um abraço de gigante em todos eles, por ainda existirem. :))))

A foto aí de cima é de um desses mergulhos.

Mas fica a pergunta… com a atual pressão pesqueira mundial, existirão até quando?

Tudo de tubarões sempre.

[UPDATE: Esse post foi modificado do originalmente publicado, para incluir mais detalhes. LEIAM também a reportagem d’O Eco. Além de muito mais explicativa que este post, com colaboração direta do autor do artigo na Biological Conservation, algumas das fotos são… do André! 🙂

As fotos, no entanto, são bem fortes, chocantes de se ver pelo massacre que revela nos barcos pesqueiros da região. Triste. 🙁 ]



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