Um passeio pelo Korean Folk Village

por: Lucia Malla Ásia, Coréia do Sul, Cotidiano, Viagens

Um dos passeios de fim de semana mais interessantes que fizemos no período em que morávamos na Coréia do Sul foi ao Korean Folk Village, um parque-museu a céu aberto que reconstitui a vida na península coreana na época da dinastia Joseon (ou Chosun, do séc. XIV a XIX).

O parque fica em Suwon e era relativamente perto de nossa casa, bastava da estação de metrô de Suwon pegar um ônibus. Suwon está na linha azul escura do metrô de Seul.

Fomos visitá-lo uma única vez, num domingo de inverno rigoroso em 2005. O frio era daqueles que você sente no osso, mas mesmo assim sabíamos que valeria a pena o esforço.

O Korean Folk Village tenta reproduzir como era o cotidiano da vida das pessoas na Coréia os séculos passados, e para tal empreitada, foram reconstruídas com extremo rigor técnico as modalidades de casas que existiam pela península, com as peculiaridades e diferenças de construção de acordo com a região do país.

Não é casa coreana de verdade se não tiver pimenta pendurada. 🙂

Em geral, as “casas” são na verdade diversas construções separadas, cada uma com uma função: cozinha, banheiro, quarto, área de alimentação, etc. conectadas por um pátio central.

Além das dezenas de casas, há ainda templos, exemplos de prédios governamentais, e até um campo de arroz recriado, para formar uma pequena cidade tradicional.

O destaque engenheirístico em minha opinião é o super-inteligente sistema de aquecimento dos coreanos, o ondol. Basicamente, madeira era queimada no andar subterrâneo da construção e aquecia o chão no andar superior onde as pessoas viviam – a fumaça saía por uma chaminé. Esse sistema explica porque na Coréia as pessoas adoram sentar no chão e muitas ainda dormem no chão: porque é ali que aquecimento é mais eficiente. O ondol se modernizou muito, não tem mais madeira queimando direto, mas ainda é o sistema padrão de aquecimento das construções coreanas, agora abastecido a gás. E é uma delícia no inverno deitar no chão quentinho da casa…

O ondol no andar subterrâneo, ainda com as cinzas do fogo que aquece o andar de cima, isolado por uma camada de pedra ou argila.

Além do cuidado arquitetônico, no Korean Folk Village há uma atenção especial aos costumes sociais e do cotidiano. Os objetos e artefatos do período Joseon estão lá, do jeitinho que eles eram supostamente usados.

Na cozinha da Coréia antiga. Os vasos enormes são para conserva de alimentos – em geral kimchi.

Para facilitar o entendimento de como era a vida naquele período ao visitante, há diversos funcionários que circulam pelo parque vestidos em roupas tradicionais e fazendo artesanato, cerâmica, cozinhando, ou exercendo alguma outra atividade, algumas típicas da época, outras nem tanto – como a senhora da foto, que usa uma vassoura antiga pra varrer o quintal. Fazem inclusive o tradicional kimchi.

Senhora coreana (“ajumá“) em traje típico.

Os tradicionais potes onde o kimchi fermenta inverno adentro. Todos aí estão cheios de kimchi.

Em certas horas do dia, há apresentações de alguns grupos tradicionais, que ensinam danças típicas, manejo com cavalos, e até a simulação de um casamento à moda antiga. Quando fomos, infelizmente, tudo era em coreano sem tradução, poucas coisas em inglês. Mas mesmo sem entender os meandros, só de ver a emoção e dedicação deles em representar o período histórico da melhor maneira possível já vale. É um barato.

Como era um dia de inverno, o rio que corta o parque estava congelado.

As crianças e as crionças se divertiam correndo sobre o gelo do rio, algumas com patins, outras com pedaços de papelão ou madeira que faziam às vezes de carrinho. Mas o frio parecia o menor dos empecilhos para elas, uma fofura. (Não digo o mesmo de mim, que andava feito pingüim pelo parque, toda encasacada e coberta, só com os olhos de fora.)

Aliás, muito bacana que o parque tem muito espaço para as crianças, numa tentativa de que elas interajam e ajudem na preservação da memória para as futuras gerações. Bacana.

Monjolo congelado.

Além dos ambientes com casas, ainda há um museu e uma lojinha (claro…) que vende memorabilia do período Chosun. Muito bacana.

O Korean Folk Village é uma das atrações turísticas mais prestigiadas da Coréia – de acordo com o site do parque, recebe 1.8 milhão de visitantes por ano. Depois que a gente o visitou, dá pra entender por quê: é realmente educativo, ao trazer a perspectiva da rotina antepassada. De um bucolismo delicioso.

Tem gente que acha que esse tipo de parque histórico é muito artificial, mas eu acho que tem um valor educacional muito grande, não só pros coreanos em si. Por exemplo, eu como ocidental, e até então pouquíssimo conhecedora da sociedade e história coreana, visitar o Korean Folk Village valeu muito pra aprender pelo menos o básico, ter um impacto inicial de estranhamento, contemplação e reflexão. E é isso que faz uma viagem ser mais gostosa, né?

Tudo de bom sempre.

Não é todo dia que a gente anda sobre um rio…



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