Sexta Sub: a ostra e o vento

por: Lucia Malla Cinema, Mallices, Música, Sexta Sub

“Se o mar tem o coral

A estrela, o caramujo

Um galeão no lodo

Jogada num quintal

Enxuta, a concha guarda o mar

No seu estojo”

(“A Ostra e o Vento”)
A Ostra e o Vento

Este é talvez um dos versos que mais me tocam na minha música favorita do Chico Buarque, “A Ostra e o Vento”. Que é também o nome do filme para o qual a música foi composta. Um filme que quase ninguém gostou à época que foi lançado em 97, e que passou desapercebido pela maioria. Mas pelo qual me apaixonei profundamente desde que o vi pela 1ª vez. Ainda suspiro lembrando algumas cenas. Principalmente, a trilha sonora de Wagner Tiso. De um lirismo belíssimo, o filme conta portanto a história de uma adolescente que mora numa ilha isolada e que se apaixona… pelo vento. Um roteiro de poesia entranhada.

A Ostra e o Vento – Resenha

A menina é interpretada pela Leandra Leal de forma magistral. Há uma inocência de descoberta adolescente conflitante no olhar da atriz durante as cenas em que conversa e dança e namora o vento que são incríveis. Aliás, já diziam ali que Leandra Leal vinha pra brilhar (foi o primeiro filme da sua carreira). Não deve ter sido fácil se preparar pra contracenar com um “personagem” tão abstrato, e ela por fim o faz de maneira angelical. É de arrepiar.

E por que me lembrei deste filme?

Porque estou num momento-ostra. Preocupada apenas em produzir uma pérola chamada tese de doutorado, fechada em mim mesma, lapidando e concentrando. Como no filme, requer interpretação acurada da protagonista. Enquanto escrevo, um oceano de idéias me arrebata em ondas de ânimo, reflexão e experimentalismo – turbilhão incessante. Um mar de dados lapidados dentro de uma ostra encadernada, eis enfim a tese. E que uma hora será finalmente aberta, carregada pela maré até a praia, onde a ciência, vento arrebatador, poderoso e pra lá de apaixonante, finalmente a acolherá – e a espalhará.

“Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento
Vento”

Tudo de (m)ar sempre.

P.S.

  • Os versos destacados são parte da letra de “A Ostra e o Vento”, do Chico. Para quem quiser suspirar ouvindo a música, eis uma versão ao vivo. [Link com som.]
  • Para outras resenhas de filmes publicadas aqui no blog, clique aqui. E para ler outros posts da Sexta Sub, consulte a lista completa neste link.


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