Discordar é viver

por: Lucia Malla Antigos, Blog, Blogosfera & mídia social

A Patricia (que não tem blog*) deixou um comentário interessante no post em que divago sobre a profissionalização dos blogs de viagem. Coloco aqui para a reflexão geral (sem uma conclusão, o papo é aberto) de quem passar por essas bandas mallas:

“Cara Malla, posso ser do contra?!. Eu acho que os blogueiros, exceto você, com essa ânsia de profissionalismo perderam personalidade, feeling, estilo, aquele toque pessoal. Um pouco como pousada e resort. Virou resort. Hoje prefiro ler Trip Advisor à um blog de viagem conhecido e citado na reportagem, blog que lia todos os dias e era referência para minhas viagens. E não só ele, 90% dos citados são “resorts”, plastificados, perderam o toque pessoal. Nós, viajantes que não gostamos de escrever, mas viajamos sempre, usávamos estes blogs como referência. Hoje não encontro nestes blogs a informação que busco e muitas vezes, leio o óbvio. Prefiro ler review de Hotéis e passar noites procurando novas referências. Infelizmente.”

Patricia, antes de mais nada, muito obrigada pelo comentário, do fundo do coração. Se eu não curtisse discordâncias bacanas bem explicadas, eu não seria cientista. 🙂

Discordo um pouco de você, como o texto onde você deixou o comentário já mostra. Acho que a profissionalização é uma possibilidade interessante, inevitável muitas vezes, e dá pra misturá-la com conteúdo sem perder a ternura, sem deixar o engajamento e a pessoalidade de lado. Alguns blogs fazem isso magistralmente, e ainda curto muito a leitura deles.

Mas também acho que você toca num ponto que venho refletindo nas minhas (infelizmente poucas) horas vagas. Nessa perda do toque pessoal que a profissionalização em geral pode acarretar a um blog de viagem. Nesse engessamento, que foi exatamente a preocupação que expressei em minha última resposta para a repórter do Globo. Porque parece que esse é o resultado mais comum, já que basta adotar as fórmulas que dão sucesso no blog do vizinho pra você também ter seu sucesso.

(Big news flash: o vizinho é uma pessoa, com gostos e desgostos únicos. Você é outra pessoa, com gostos e desgostos também únicos. Talvez convergentes em algo, mas mais provavelmente diferentes. E mesmo que você copie o vizinho, não será a mesma coisa. O leitor reconhece isso, porque passa pelas entrelinhas de um texto.)

Eu acho que você definiu de uma maneira direta e interessante essa dicotomia: blogs-pousadas e blogs-resort. Em todos os âmbitos que se possa imaginar dessa metáfora, eu acho que ela é muito pertinente.

Assim como num vilarejo à beira-mar que inicialmente só tem pousadinhas da dona Maria, assim já foi a blogosfera, essa praia quase virgem. À medida que o vilarejo de pescadores foi se desenvolvendo, um resort apareceu e fez sucesso, e logo outros vêm na cola, para aproveitar a onda de bons negócios. E aos poucos, se não se toma cuidado, as pousadinhas podem ficar pra escanteio – porque afinal é tão mais simples e confortável ficar num resort, sem contar as promoções… Mas também podem se unir e se firmarem como uma opção mais pessoal e aconchegante ao resort – para um outro público, talvez; pros que curtem uma broa de milho com chazinho e dois dedos de prosa.

É aí que eu divirjo divago: acho é que há espaço – e público – para ambos os tipos de estadia blogosférica. Gosto, aliás, que as duas existam, porque se aprende muito com as duas – são experiências diferentes, e há ocasiões diversas nas viagens da vida em que você prefere um ou outro. Por exemplo, resorts podem ser ótimos para viagens de negócio, pousadas para aventuras mais descompromissadas. Há vantagens e desvantagens em ambos, e decide-se o que é mais válido como experiência naquela circunstância específica.

Então, para mim, há uma questão filosófica-prática, entranhada no futuro dos blogs de viagem, para quem os escreve e na interação com os amigos que os lêem. Uma questão que pode ser metaforizada assim:

Em qual vilarejo Blogosférico queremos passar as férias, Porto Seguro ou Caraíva?

Fica aberta a conversa.

Tudo de reflexão sempre.

(E Patricia, mais uma vez obrigada, por instigar a discussão. 🙂  )

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*Adicionei esta explicação hoje (25/março/2012) depois que muitas pessoas confundiram seu comentário com a Patricia do Turomaquia. Uma pessoa é uma, a outra é outra, não confundamos.

 



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