Sexta Sub: mergulho no Cenote Dos Ojos, México

por: Lucia Malla América Latina, Esportes, Geociências, Mergulho, México, Sexta Sub

Uma das minhas grandes ansiedades quando André e eu viajamos pro México em 2010 dizia respeito ao mergulho nos cenotes, tão famosos na região da Península de Yucatán. Principalmente o mergulho no Cenote Dos Ojos, que estava pertinho de onde íamos. A raiz da minha  ansiedade derivava do fato de que o cenote é um tipo de caverna… E eu não sou muito fã de mergulhos em caverna.

Cenote Dos Ojos - mergulho

Uma Malla no cenote Dos Ojos.

O que são os cenotes?

Os cenotes são formações geológicas, derivadas da corrosão do terreno próximo ao mar ou a um lençol freático, e consequente desabamento do “teto” com inundação, seja de água salgada ou doce. Este desabamento forma inúmeras entradas conectando sistemas de cavernas subterrâneos, com respiradouros naturais. São estes respiradouros que os mexicanos chamam de cenotes.

Já a situação da água dentro das cavernas do cenote é um tanto quanto curiosa. A água salgada, advinda do encontro do cenote com o oceano ou algum aquífero salgado profundo, tem maior densidade, portanto “afunda”. A água doce, percolada da chuva, é mais leve, e consequentemente encontrada mais próxima à superfície. Na interface das duas, a gente percebe com facilidade a formação das haloclinas (e às vezes termoclinas). Um barato!

Como é o mergulho no Cenote Dos Ojos

Cenote Dos Ojos - entrada

Entrada do cenote Dos Ojos com a piscina cristalina.

O Cenote Dos Ojos fica perto de Tulum. Contratamos o mergulho na operadora Maya Diving, que fica dentro do resort Dreams of Tulum. O divemaster era um senhor com centenas de mergulhos naquele cenote específico – ou seja, mais confortável, impossível. O que foi um fator fundamental para que minha apreensão aos poucos se dissipasse.

A chegada ao Dos Ojos foi tranquila, e o mergulho em si é mais tranquilo ainda. A saída pro mergulho é super-simples, de uma escada construída num dos 2 respiradouros principais do cenote. Como não há onda, você cai na água sem maiores preocupações. O formato do Dos Ojos é meio de ferradura, e os 2 cenotes estão nas extremidades formando piscinas naturais geologicamente bizarras. O Dos Ojos faz parte de um sistema maior de cenotes, que cobre uma área de aproximadamente 80 km – ou seja, é enorme, portanto impossível de ver por completo em um mergulho recreacional.

Por indicação do divemaster, fizemos a chamada Barbie Line. Basicamente a linha cobre metade da “ferradura” do cenote, e você faz um mini-loop neste lado da ferradura. O mergulho é tranquilíssimo, desde que você sempre siga a corda de orientação que está no fundo. Segue-se a linha em fila indiana, para evitar danos nos pedaços do trajeto em que as torres de estalagmites e/ou estalactites estão muito próximas umas das outras – e esta sim, foi minha maior ansiedade durante o mergulho, a preocupação em evitar dar uma pernada sem querer e destruir com o pé-de-pato uma beleza natural que levou milhares de anos para ser formada. Acho que nunca nadei tão… contida. 😀

Aparentemente não há corrente alguma. Entretanto, testes com corantes já mostraram que há uma corrente mínima muuuuito vagarosa fluindo em direção a Xel-Ha. A água é de uma clareza assustadora, com visibilidade fenomenal. A diversidade de peixes é baixa, poucas espécies, mas não menos interessantes. E há uma pequena, mas perceptível maré, como em qualquer sistema oceânico.

A paisagem submersa, pérola espeleológica

Todas essas características, entretanto, não impressionam mais que a paisagem submersa em si. Afinal, o que vemos são verdadeiros salões espeleológicos, formados por milhares de anos de deposição de calcário. O mergulho é raso – você não passa de 12 metros de profundidade. Então o ar do tanque dura mais tempo, permitindo um período maior de apreciação da geologia fantástica do cenote.

Como há os respiradouros durante praticamente todo o mergulho no Dos Ojos, você de vez em quando vê a vegetação e até o sol (e um ou outro par de pernas na superfície…) – ou seja, é um pseudo-mergulho de caverna, porque você não está totalmente enclausurado em momento algum muito menos no breu total. Mas a surrealidade das estalactites e estalagmites submersas te lembra a todo momento que aquele é um sistema de cavernas subterrâneas, e é esse jogo de interfaces, da água doce com salgada, e da caverna com a superfície, que torna este mergulho uma curiosidade das mais instigantes que já visitei.

Tudo de bom sempre.

Mergulho no Cenote Dos Ojos

P.S.

  • O Cenote Dos Ojos foi palco da filmagem de algumas cenas do filme B-zíssimo (para não dizer Z-total-trash…) “A Caverna”.
  • Os mais viciados em adrenalina fazem a festa nessa região de Tulum. Há outros cenotes pela região onde o mergulho pode ser bem mais radical. No próprio Dos Ojos, é possível encarar mergulhos ainda mais técnicos, entrando pelo outro lado, e visitando um dos imensos salões submersos que estão fechados aos que mergulham apenas recreacionalmente. Sempre lembrando, entretanto, que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém…
  • A civilização maia dependia imensamente dos cenotes como fonte de água fresca. Os cenotes eram também pontos de rituais religiosos, inclusive sacrifícios humanos – há uma série de relatos de mergulhos com “mortos” por aí. Os registros arqueológicos já encontrados nos cenotes são uma riqueza à parte da região. Pros apaixonados por ruínas ou mergulhos arqueológicos, a Rota dos Cenotes é um prato cheíssimo.
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