“Blogs são conversações”*

por: Lucia Malla Antigos, Blog, Blogosfera & mídia social

A frase do título é batida, e foi cunhada no jurássico da blogosfera, quando iríamos mudar o mundo um post de cada vez. Apesar da utopia que emana, considero a frase ainda forte, pela concisão fundamental do ato de blogar que descreve. Um blog é essencialmente uma conversa em diferentes níveis: entre leitor e blogueiro via post, entre leitor e outros leitores na caixa de comentários, entre blogueiro e outros blogueiros via links amigos. Estes níveis de conversa são parte da fisiologia de um blog, do cerne de sua existência saudável.

Entretanto, venho percebendo ultimamente uma tendência cada vez maior ao falar sozinho. Parece que os blogs não conversam mais, pelo menos não da forma como antes se conversava. E quando falam, em geral são aos gritos. Afinal, só assim pra ser ouvido com tanto ruído de fundo pela rede, não é mesmo?

A percepção do falar sozinho me pegou quando comecei a navegar por blogs nunca dantes navegados. Blogs que não linkam em seus posts para nenhum outro blog, nem realçam o conteúdo do vizinho. As pessoas conversam consigo mesmas, e esquecem dos dois dedos de prosa a mais que diferenciam um post de uma reportagem de jornal. Muita informação interessante pode sair de uma conversa entre blogs, e principalmente diversidade de experiências e opiniões. Entretanto, para tal, é preciso que a conversa se restabeleça, que o blogueiro queira e saiba que está dialogando – e a forma como isso é tradicionalmente reconhecido é pelo link. Só que a cultura do link amigo foi, a meu ver, aos poucos se tornando escassa, quase extinta.

Obviamente a blogosfera mudou, e esse desaparecimento reflete essa mudança. Uma mudança que veio aos poucos, paradoxalmente à medida que os blogs se expandiam e conquistavam horizontes cada vez mais ensolarados. Só que quando fomos nos aproximando destes horizontes, começamos a nos afastar das nossas praias originais, e assim ficou cada vez mais difícil a conversa com os que ficaram pela areia. Por isso os gritos. Porque nossos blogs viraram ilhas afastadas, no oceano das redes sociais. Claro, as redes sociais permitiram mais expansividade de navegação, mas ao mesmo tempo incentivaram o afastamento. Porque fizeram o conteúdo ser um pontinho do horizonte, não mais o mar.

E é aí que me pego refletindo. Estamos levando o conteúdo  e a conversa para as redes sociais (onde você e o conteúdo são o produto, lembrando bem), centralizando em poucos condomínios fechados, que requerem login e senha, quando deveríamos estar trazendo as redes sociais para o conteúdo, mantendo a conversa descentralizada, mais orgânica, flexível e fácil de acessar e compartilhar. Principalmente, mantendo o processo de disseminação independente. Eu acho que a beleza da internet do futuro vai estar nessa reversão da centralização para a descentralização do conteúdo, sem perder a festa particular das redes sociais.

No momento, entretanto, estamos acomodados, conversando no elevador do prédio, restrita aos nossos “chegados”. Aos poucos, a gente deveria deixar o papo pular o muro e voltar pra rua, para ser discutido em cada esquina da rede de maneira mais ampla e desburocratizada, aberta a quem quiser participar.

Fica a reflexão.

Tudo de bom sempre.

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*Alguém sabe/se lembra quem foi o autor desta frase-conceito?

** Esse post é um spin-off/continuação do post que escrevi pro site da ABBV esta semana, e foi inspirado/instigado por uma conversa com o Doni, que também virou post no blog dele.

*** Não custa relinkar o Manifesto Verbeat, “Pela Liberdade e Democratização da Comunicação”. Escrito há muitos anos, mas ainda muito atual.



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