A era contemporânea dos (re)descobrimentos

por: Lucia Malla Antigos, Brasil, Montanhismo, Rússia, Surfe, Viagens

Durante a história, houve diversos momentos em que as pessoas se jogaram na estrada ou no mar, em busca do desconhecido de descobrimentos. Grandes navegações, a conquista dos polos e das montanhas mais altas do mundo se encaixam perfeitamente neste quesito. O desconhecido, o lugar onde nenhum outro ser humano pisou, testando os limites de nossas capacidades fisiológicas, são desafios que ainda atiçam paixões aventurescas no coração de muitos. E raras delas foram sabidas em tempo real, no momento em que eram feitas – levava-se meses para uma carta contando o feito chegar ao reconhecimento público da época.

Só que o mundo mudou muito desde que Cristóvão Colombo chegou às Américas ou Sir Edmund Hillary pisou no cume do Everest. Hoje em dia, praticamente todos os cantos do planeta estão mapeados, e é cada vez mais difícil encontrar regiões inóspitas que nunca foram exploradas, visitadas ou instagrameadas por seres humanos.

Então que o caráter geral dessas novas expedições do nosso século mudou também. Nada mais é 100% desconhecido, mas ainda pode ser re-explorado de uma maneira criativa, única. Não basta pôr o pé em um lugar; munidos de acesso à rede e celulares que tiram fotos, filmam e tudo-o-mais, as pessoas compartilham o não-tão exótico com sua visão própria do lugar. E transformam a perspectiva dos que acompanham sobre um lugar já não tão desconhecido. É a era das novas expedições interativas, para se re-avaliar limites. Sentada no computador, com uma janela virtual aberta para o mundo, qualquer pessoa pode acompanhar. E sonhar com a sua maneira própria de fazer tal aventura.

E eu que adoro embarcar no sonho aventuresco das pessoas, tenho me deliciado do conforto da minha casa com algumas expedições maravilhosas que surgiram recentemente.

[Foto do Instagram do Chris Burkard (@chrisburkard), mostrando a costa do Kamchatka.]

A primeira delas foi para meu destino mais-sonhado do momento, a Península do Kamchatka, no extremo leste da Rússia, dos locais mais remotos e de difícil acesso do planeta. Ponto com diversos vulcões ativos – patrimônio natural da UNESCO, by the way – , uma paisagem lunar nevada linda, fauna e flora inacreditáveis (mas já com alguns sinais de alerta), uma costa enorme a ser explorada. E o foi, de uma maneira pra lá de divertida por Foster Huntington, Keith Malloy, Trevor Gordon, Chris Burkard, Cyrus Sutton e Dane Gudauskas. Eles foram ao Kamchatka surfar ondas nunca dantes dropadas.

Acampados, contaram muito via Instagram, blog e twitter, sob a tag #kamshaka. O vídeo da preparação já foi uma delícia:

[Preparing To Surf In Russia from Ben Weiland, from the Artic Surf Blog.]

Acompanhar esta surf trip me deu mais vontade ainda de conhecer e cair no mar do Kamchatka. Apesar do frio. Olha essa costa e diz se não dá vontade de ir ontem!

Outra expedição que me impressionou ultimamente foi feita pelo Jodrian: a subida do Kilimanjaro. Todo mundo vai dizer: “ah, mas que batido, qualquer um que queira faz isso hoje em dia!” Sim, o Kilimanjaro realmente está muito mais ao alcance da humanidade que sonhe com tal aventura que no passado. Mas, ainda assim, a experiência pessoal de cada um é o que faz a diferença na subida de qualquer montanha. Confesso que já li diversos relatos de subida ao Kilimanjaro que não me empolgaram em nada. Mas, o que o Jodrian vem publicando em seu blog bateu em mim de uma forma diferente: deu vontade de estar lá, caminhando e subindo e presenciando cada detalhe da paisagem junto. Muito bacana, do planejamento ao cume.

E mais uma expedição que vai possivelmente me empolgar pelos próximos meses é a “Brazil 9000“. Aaron Chervenak e Gareth Jones, com uma equipe que também conta com Huw Jones, Eric Yu, Tom Allen e John Summerton, vão cobrir o  Brasil do Monte Caburaí ao Chuí – e eles explicam que, antigamente, achava-se que o Oiapoque era o ponto mais ao extremo norte do país, mas que, depois de revisões de geógrafos, descobriu-se que o Monte Caburaí, em Roraima, é na realidade o ponto mais ao norte.

[Mapa retirado do site da expedição Brazil 9000.]

Mas se fosse uma simples “caminhada” por essa extensão de país não seria tão diferente. Então eles resolveram que vão remar de Caburaí até Belém; depois andar até o Rio de Janeiro; e por fim, bicicletar até o Chuí, no RS. Ou seja, tudo na base da energia humana, nada de carros ou aviões para auxiliar no transporte. A estimativa é que a aventura dure 15 meses, e começou há poucas semanas.

Claro, eles estão narrando tudo via twitter (@SkeetoLounge), facebook (facebook.com/skeetolounge) e posts no blog da expedição. Essa “redescoberta” do nosso país tem pinta de ser das mais divertidas já presenciadas. Let’s go!

A todas estas expedições contemporâneas, que reinventam o ato de viajar e cujos integrantes se tornam os novos redescobridores, tudo de melhor sempre.



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