Sexta Sub: a saga de um tubarão-baleia

por: Lucia Malla Animais, Aquários & Zoos, EUA, Sexta Sub, Tubarões

Quarta-feira à tarde, assisti a uma palestra contando as aventuras e desventuras dos tubarões-baleia do Aquário da Georgia, em Atlanta. Quem apresentou o seminário foi Bruce Carlson, zoólogo atual chefe científico do Aquário – e ex-diretor do Aquário de Waikiki, onde trabalhou por 27 anos (!!!!). Como o seminário foi no Instituto de Biologia Marinha, a audiência era 100% formada por biólogos, incluindo alguns tubarólogos de renome mundial, então o foco foi muito voltado para as questões envolvidas em manter um tubarão-baleia, animal que chega a 10m de comprimento, em um tanque. E é esse foco que contarei aqui, já que nunca estive nesse Aquário – e  minha vontade de visitá-lo aumentou exponencialmente depois da palestra.

A conversa foi interessantíssima. Primeiro, Bruce contou como surgiu a idéia de se construir um Aquário na Georgia. O dono do Home Depot, Bernie Marcus, é um bilionário e grande filantropista da região, e queria deixar um benefício bacana para a comunidade da cidade. Depois de muita discussão, decidiu-se construir um Aquário. O bilionário escreveu um cheque de 300 milhões de dólares, e tudo que pediu foi um Aquário de destaque pronto em 3 anos. Uma comissão de 4 pessoas, entre elas Bruce, se organizou para planejar o Aquário do zero. Desde design a espécies que teriam, absolutamente tudo teve que ser pensado a toque de caixa. A Coca-Cola, que tem sede em Atlanta, doou o terreno, que ficava numa área até então detonada da cidade de Atlanta. Com o terreno escolhido, começaram a construir os alicerces – sem um projeto final completamente decidido ainda. Foi realmente um projeto loucura total: construindo e elaborando o design ao mesmo tempo.

Logo surgiu a idéia de ter um tubarão-baleia como atração principal. O animal é grande, diferente, de movimentos vagarosos e delicados, com um carisma acima de suspeita – ou seja, perfeito para atrair visitantes. No Aquário de Okinawa, no Japão, já existiam tubarões-baleias em cativeiro, então a equipe sabia que era possível. Diversas viagens pro Japão para aprenderem as necessidades de um animal desses em cativeiro. A primeira coisa que o japonês disse para Bruce foi: “Se o animal ficar mais de um mês sem comer, é porque ele não quer ficar ali, não adianta insistir. Nós em Okinawa devolvemos pro mar quando percebemos isso.” O Aquário de Okinawa fica na beira da praia, então devolver o bicho pro mar não é logisticamente tão complicado. Bruce sabia entretanto que, sendo Atlanta uma cidade do interior, essa não era uma opção que ele teria.

Hora de almoço.

A primeira preocupação, portanto, era com a saúde de um animal desse porte. O tamanho do tanque era fundamental para que o mínimo de stress possível fosse sentido por ele, portanto mais parecido com o ambiente dele possível o tanque tinha que ser. Para atender a essa necessidade, o projeto começou a se agigantar: o tanque principal passou a ser do tamanho de um campo de futebol, curvo, com pelo menos 10m de profundidade, para que o animal pudesse nadar com folga, e principalmente ser alimentado na superfície sem encostar a nadadeira caudal no fundo. A água do mar foi feita com Instant Ocean, e ainda hoje tem sua temperatura, pH e salinidade monitorada 24h em mais de 1000 pontos espalhados pelo Aquário. (Os responsáveis por esse controle têm como acessar e ajustar parâmetros pelo celular. Viva a tecnologia.)

A segunda preocupação era o óbvio: como conseguir um tubarão-baleia. Bruce comentou na palestra que foram incontáveis discussões éticas, ecológicas e arquitetônicas, até decidirem por pegar um animal “resgatado” – parte bem interessante da história, já que o “resgate” na verdade foi para que o animal não virasse sopa. Em 2005, Bruce e seu time voaram para Taiwan, país onde a pesca do tubarão-baleia era constante, com a bizarra tarefa de comprarem um tubarão-baleia. O bicho tinha que ter de 3-4 metros para ser menos complicado para ser transportado – o conceito de complicado aqui tem uma dimensão muito mais avantajada, obviamente Aportaram em Hualien, cidade com uma costa de penhascos espetaculares e com uma tradição forte na pesca de tubarões-baleia.

Os taiwaneses encurralavam os tubarões-baleia em redes gigantes, visíveis pelo Google Earth (Bruce mostrou uma foto de satélite da região naquela época), e depois só coletavam os animais e levavam pro mercado para corte e processamento. Dois desses animais, ambos machos, foram pescados e transferidos para um cercado de 30 metros de diâmetro no meio do mar – eram os exemplares pro Aquário. Depois de ensinados a comer da “mão” das pessoas (o que levou mais de um mês), os tubarões-baleia estavam aptos a serem transportados. Estavam com ~4m de tamanho.

E aí vem a terceira e grande preocupação: como levar um tubarão-baleia de Taiwan até Atlanta, sem matá-lo, claro. Nunca ninguém tinha feito isso antes, e a logística foi um pesadelo dos mais cabeludos. Mais uma vez, o bilionário do Home Depot mexeu seus pauzinhos e a UPS doou 3 jumbos 747 para o transporte. Os animais foram levantados da água por um guindaste e colocados dentro de tanques de transporte – que tinham corrente para simular uma nadada no mar e oxigenação constante. A maratona começara: do mar para o porto de Hualien; de caminhão até o aeroporto; de avião cargueiro da UPS só com os animais dentro até Atlanta, via Anchorage (para pôr combustível), no Alasca; do aeroporto em Atlanta até o Aquário de caminhão; outro guindaste para colocar os dois tubarões no tanque. Preço da brincadeira: quase 200 mil dólares.

Desde que chegaram ao Aquário, os tubarões-baleia viraram atração instantânea. De animal que quase ninguém conhecia nos EUA, muito menos tenha visto de perto ou nadado, passou a animal-símbolo. O Aquário da Georgia teve 3 milhões de visitantes no primeiro ano de funcionamento, e desde então 11 milhões de pessoas passaram pelo tanque principal, admirando principalmente os reis da casa, os tubarões-baleia. O valor educativo desses animais ali é incomensurável. O Aquário realiza inúmeros projetos com crianças. Se hipotetizarmos que das crianças que passam por ali, 1% delas se inspirará a cuidar e estudar animais marinhos, ou algo relacionado a eles com o intuito de preservação – e estou sendo bem pessimista com esse 1% – já há um saldo positivo de pessoas comprometidas para um futuro melhor, quem sabe. Apesar desse cálculo ser esperançoso, confesso que o momento mais emocionante da palestra foi quando Bruce contou como as crianças autistas se comportam ao ver o tubarão-baleia ali, mostrando fotos. Me segurei muito pra manter o profissionalismo e não chorar no meio dos colegas de profissão.

Em 2006, duas fêmeas se juntaram aos dois machos no Aquário. Infelizmente no ano seguinte os dois machos morreram de peritonite em decorrência de uma infestação de sanguessugas no tanque, que os levou a não se alimentar e enfraquecer. Os animais foram necropsiados e estudados. O artigo que descreve e analisa linda e minuciosamente pela primeira vez o aparelho filtrador do tubarão-baleia foi possível graças a esses dois tubarões.

Além deste trabalho, o dinheiro gerado pela bilheteria do Aquário proporciona financiamento para projetos de pesquisa científica marinha, principalmente na área de Holbox, no México. É ali que está a maior agregação de tubarões-baleia do mundo, e o responsável pelo estudo que quantificou tal população é o biólogo blogueiro Dr. Allistair Dove (@para_sight) do super-über-awesome Deep Sea News. Os tubarões-baleia se juntam em Holbox para se alimentar de mini-atuns, e essa descoberta puxou outra descoberta: que aquela região era um berçário de atuns. Entretanto, por conta do turismo intenso que o tubarão-baleia trouxe à região de Cancún, e pela riqueza de espécies que se alimentam ali na corrente emergente, há um desejo imenso da parte dos pesquisadores em transformar a área de Holbox em patrimônio natural da humanidade. Torço para que consigam.

Ao fim da palestra de Bruce, as perguntas giraram em torno da biologia do animal, características genéticas, etc. Algumas críticas metodológicas. Como a platéia era de biólogos marinhos que entendem profundamente o caos oceânico que o mundo se encontra, a sensação era de que todos apreciaram a trabalheira que o Aquário teve para trazer um animal desse porte ao conhecimento de milhões, uma tentativa educativa das mais extremas e interessantes – principalmente se pensarmos que o animal ia virar sopa. No geral, uma sensação também de tranquilidade pairava no ar. Só de ver inúmeras fotos de tubarões-baleia, a galera já saiu mais leve, sorridente. O final feliz de uma longa saga de vida.

Tudo de tubarão sempre.

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Para viajar mais: 

– Todas as fotos deste post foram tiradas no México, em 2010. E estão compiladas nesta galeria da ArteSub.

– Os tubarões-baleia precisam ser alimentados manualmente no Aquário porque se jogar o krill para eles comerem na água sem direcionar para eles, os outros peixes do tanque comem tudo primeiro, e os tubarões-baleia terminam a ver navios. E com fome.

– Dá pra nadar no tanque com os tubarões-baleias no Aquário da Georgia. #euquero

– O post que eu mais curto na blogosfera brasileira sobre a visita ao Aquário da Georgia é da dupla dinâmica MauOscar, que fizeram uma visita guiada de babar no backstage do Aquário e depois me enviaram pelo correio um ímã de geladeira fofíssíssimo de tubarão-baleia que está em destaque na nossa cozinha (obrigada, demais, queridos!). Depois de lê-los – e agora depois desta palestra – já começo a mirabolar formas de fazer uma parada de um dia em Atlanta em alguma viagem futura, só pra conhecer o Aquário que, além de ausência grave no meu currículo aquarístico, deve ser simplesmente fenomenal.

Este artigo traz duas argumentações (uma a favor, outra contra) sobre ter um tubarão-baleia em Aquário. E esse outro fala das coisas boas, ruins e piores ainda do ecoturismo com tubarões-baleias. Cada um faz sua escolha. 

– Dados de localização via satélite dos tubarões-baleia marcados no México mostraram que estes animais são capazes de mergulhar até 1400 metros de profundidade em menos de 40 minutos – e voltarem dessa profundeza em 34 minutos. Uma fisiologia simplesmente fenomenal, à espera de ser melhor compreendida.

– Em 2005, André e eu estivemos em Taiwan, e fomos a Suao, um pouco ao norte de Hualien, para registrar a pesca exacerbada dos tubarões no país. A foto acima mostra uma senhora cortando carne de tubarão-baleia, que eles chamam de “tofu shark” por conta da aparência super-branca e da consistência de tofu. Eu contei aqui no blog esta viagem-denúncia que fizemos. Meu discurso  abrandou bastante, quiçá mudou e ficou mais crítico em alguns aspectos, sinal de muitos calos nos pés. Mas ainda assim, foi importante para mim à época compartilhar e espalhar em português essa saga.

– O mais interessante é que naquele post de 2005, comentei no rodapé:

No aeroporto em Taipei, quando estava de saída indo para Hong Kong, fui abordada por uma mocinha do órgão de turismo com um questionário enorme sobre “aspectos da minha estadia em Taiwan”. Perguntas convencionais: onde você se hospedou, quais atrações visitou, o que mais gostou, etc. Ao final, ela disse que havia um espaço para um recado a ser deixado no questionário. Não pensei duas vezes e disse: “Stop killing the sharks.” E a mocinha, com cara de espantada com a resposta mais que inesperada: “Oh, do we kill many sharks?” E eu respondi: “A lot!” Pelo menos, deixei o meu recado.”

Sei que é uma viagem pretenciosíssima minha, mas quero acreditar que ajudei nanometricamente a causa e que as autoridades ouviram minha reclamação. Porque desde então, relatos da mídia (e de amigos biólogos) confirmam que Taiwan tem sido um país de destaque nos projetos de conservação dos tubarões-baleia, e que sua pesca, que antes contava com uma cota anual, está desde 2007 proibida. Um brinde aos tubarões, por favor. 🙂

– Nós nadamos com o tubarão-baleia em 2010, no México. Foi inesquecível, das experiências mais impressionantes da minha vida. 



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