As lagostas de Rockport

por: Lucia Malla América do Norte, Animais, Comes & bebes, Economia, EUA

A foto acima engana muito bem. O mar de cor quase caribenha, uma paisagem de verão… tudo leva a crer que estamos bem perto dos trópicos, não? Ledo engano. Esta é a praia principal de Rockport, no estado de Massachusetts, EUA, uma área beeeem subtropical. A cidade fica no extremo norte do estado, na pontinha do Cape Ann, e é um destes vilarejos que eu, friorenta que sou, definitivamente não visitaria no inverno – o mar congela, para começo de história.

Felizmente, entretanto, visitamos Rockport no alto verão, quando a temperatura é agradabilíssima e a paisagem marinha fica ainda mais idílica, em composição perfeita dos barquinhos no porto da cidade.

É também no verão que a cidade recebe a maior quantidade de visitantes, e a maioria vai atrás de uma única iguaria: lagosta – mais precisamente da espécie Homarus americanus. A cidade é das maiores produtoras de lagosta da costa leste americana, e esta consolidada indústria gira em torno de 54 milhões de dólares por ano para o estado, sendo o mais importante item de pesca da economia de Massachusetts. (Não é muito comparado ao que o estado do Maine, maior produtor americano, lucra.) No passado, diversos itens da indústria de pesca local simplesmente desapareceram pelo exagero da coleta insustentável e sem regulamentação. Portanto, os pescadores e a comunidade aprenderam que, se querem manter a economia da lagosta girando, precisam cuidar primordialmente… da lagosta. O resultado é que a pesca da lagosta hoje é uma atividade econômica rigidamente regulamentada e fiscalizada.

(Parênteses: Claro, regulamentação e fiscalização alguma da pesca em Massachusetts funcionam para impedir os problemas que as mudanças climáticas e o aumento da acidificação dos oceanos já estão trazendo pro animal: aumento de infecções bacterianas que comprometem a carapaça da lagosta, com consequente diminuição da quantidade coletada em áreas mais ao sul do estado e migração do animal para águas mais frias, onde a temperatura é adequada para sua reprodução. Isso vem gerando uma situação interessante do ponto de vista econômico: colapso da indústria da lagosta na região do Cape Cod, ao sul, onde a lagosta está desaparecendo; e aumento da produtividade nas áreas mais ao norte, incluindo Rockport e a costa do Maine. Por conta desse fenômeno, o preço da lagosta tem ironicamente barateado no estado, fruto do excesso aportado no mercado por esse boom populacional na região mais ao norte. Fim do parênteses.)

Lagostas de Rockport

Independente da sustentabilidade (ou não) da pesca da lagosta em Rockport, fato é que ela é a atração número 1 da cidade. E em Rockport, a biboca número 1 para se comer lagosta fresca é o Roy Moore, uma portinha simples na rua principal do píer. Facílima de achar: basta ver a placa da lagosta vermelha.

Não espere sofisticação: aqui a lagosta é o foco. De um lado, um tanque enorme onde as mesmas são mantidas vivas; atrás do balcão, um moço e uma panela enorme de água fervendo. That’s it. Você escolhe sua lagosta, o moço transfere a lagosta do tanque para a panela, e a serve minutos depois com manteiga e/ou limão – batatas fritas ou pão para quem quiser. Nos fundos da biboca, com vista para o píer (e para algumas armadilhas de lagosta), ficam as mesas dos clientes.

Mas nem só de lagosta vive Rockport. A cidade é uma pequena pérola da região costeira da Nova Inglaterra. As casas todas em estilo típico da região, com jardins e canteiros super-bem-cuidados, em ruas agradabilíssimas de andar. Há pouco mais de 40km de Boston, Rockport é o passeio ideal de um dia.

O píer é a atração principal. Além das vendas de lagosta, há um monte de lojinhas de souvenirs e outras tranqueiras turísticas fofas, todas arquitetonicamente no estilo local. O píer termina num enorme celeiro vermelho, tão típico da região – se você assistiu Perfect Storm ou Tubarão, com certeza viu um destes na tela.

Lagostas de Rockport

Confesso que, nos 2 anos que morei em Boston, só estive lá uma vez, no fim do outono – o vento gelado não me deixou sair do carro, quiçá aproveitar alguma coisa. Meus amigos da época iam mergulhar lá, já que a região tem uma paisagem sub bem peculiar e alguns naufrágios dignos de nota. Inclusive um ano combinaram o impensável “mergulho do champanhe” – isso mesmo, mergulho na noite de Réveillon, a temperaturas provavelmente abaixo de zero. Nem me pagando muito encaro essa…

Em 2010, entretanto, tive a oportunidade de voltar a Rockport no verão e foi ótimo poder finalmente curtir a cidade, sem restrições térmicas. A atmosfera era outra, todos andando nas ruas, tomando sorvetes, uma empolgação sem fim. As fotos do post falam por si: a cidade era mais colorida e seu bucolismo estava encoberto pelo agradável cheiro da brisa do mar.

Tudo de bom sempre.

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– Um bom review sobre o Roy Moore, feito por quem entende do assunto, a LobsterGal.



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