Gentileza gera gente ilesa

por: Lucia Malla Comportamento

O botão de start desse post veio da Camila, que escreveu um post incrível sobre a falta de gentileza da zélite moderna, magnanimamente simbolizada por uma briga no elevador. O post mostra como o comportamento da gente é escancaradamente narciso, e comenta sobre essa necessidade cruel de sempre vencer o argumento. Afinal, somos os “vencedores” da sociedade, não? (Leiam, leiam, leiam.)

Pois bem, eu ia deixar um comentário enorme no blog da Camila, contando um causo ocorrido na última quinta-feira à noite. Mas como ando numas de resgatar a conversa entre blogs, decidi rabiscar neste post – ficou maior do que eu imaginava. O causo tem a ver com a tal gentileza que anda escassa em diversas instâncias do mundo moderno, não só na elite.

Mas vamos ao causo. Estava na fila de Black Friday do WalMart. Veja bem, antes de você destilar seu preconceito julgar quem frequenta esse tipo de fila, lembre-se de que você não sabe a razão profunda pela qual as pessoas estão ali. Pode ser por consumismo desvairado (essa é a idéia mais espalhada por aí, que somos todos consumidores capitalistas selvagens – ênfase no selvagens nas reportagens e pensamentos sobre o Black Friday). Há muitas verdades nesses argumentos, e discussões saudáveis sobre consumismo exagerado são sempre bem-vindas, mas em certos momentos há também muita arrogância. Enfim, como tudo na vida, há diversos lados nessa moeda.

Mas pode ser também que você esteja na fila por curiosidade antropológica – imagino teses e mais teses sobre o tema. Ou pode ser para comprar um item caro, que propagandeado com 70% de desconto, tornou-o ao alcance do orçamento da pessoa na fila. Mais: pode ser que esse item agora no orçamento será um presente de Natal para uma pessoa mais-que-querida, que usará o presente para alavancar uma melhora significativa em sua qualidade e economia de vida, e portanto merecedora de tal sacrifício selvagem-consumista. Um altruísmo – às avessas, talvez. Enfim, hipóteses sempre temos em abundância no estoque e poderia desfilar aqui pelo menos mais uma meia dúzia.

Mas eis que estava me direcionando pro fim da gigantesca fila, quando um sujeito de uns 20 anos passa em ritmo acelerado ao meu lado. Na minha frente, 2 moçoilas de também 20 e poucos. Todos na sana consumista, certo? Pois sem querer, o moço dá uma boa esbarrada em uma das moças. Até então não sabia, mas o moço estava indo de encontro a sua mãe, que se encontrava na frente da fila, exatamente em frente às moçoilas. O que leva alguém a andar apressado ou não já é papo pra mais conversa, mas o fato é que a moça não gostou da pequena esbarrada do moço – e partiu para cima dele com abuso verbal, como as senhoras do elevador da Camila. Claro, a moça assumiu que o cara estava correndo pra furar a fila do Black Friday (oh, pecado mortal!), quando na realidade ele já estava tecnicamente na fila antes delas. A moça falou muitas ofensas, fez caras e bocas, aquela cara de elevada irritação e estava nitidamente a poucas sinapses da violência física. O moço a princípio tentou se explicar, dizendo que aquela, ali em frente às moças, era sua mãe – nessa hora a mãe se virou pra gente, e pude notar que ela nem precisava dizer que era mãe do menino: ele era a versão masculina dela – ah, as ironias da genética… Ficou aquela atmosfera de embaraço, por parte do moço, e de irritação/falta de educação explodindo por parte das moças. Que continuaram fazendo caras e bocas e comentando entre elas sobre “a falta de educação das pessoas”.

Mas aí veio o que achei mais interessante, como expectadora da cena – mesma posição da Camila no elevador. Depois de um silêncio de poucos segundos que pareciam uma eternidade, o moço se virou para as duas e pediu sinceras desculpas às duas, num tom super-ultra-gentil, dizendo que realmente não tinha intenção de machucá-las (não machucou, apenas deu uma encostada mais forte), e que ele estava arrependido de ter andado tão rápido. “I am really sorry, it was not my intention” foi o que ele disse. E o que as meninas fizeram depois desse “desmonte” do argumento (e possivelmente da possibilidade de briga real) delas? Deram um sorriso amarelo, “aceitaram” as desculpas do moço na frente dele. E assim que o moço se virou pra mãe, as duas continuaram fazendo caras e bocas, olhares de reclamação que gritavam “o cara é um jerk completo” – como se ele não tivesse se desculpado com elas nem se arrependido de sua pressa. Ou seja, não aceitaram de coração as desculpas dele. Foi tão clara a atitude de desdém pelo cara que até eu, desligada-mor do planeta, percebi que elas não estavam sendo sinceras.

Eu sei, muitos dirão que o cara estava errado a princípio, por ter esbarrado nelas. Mas numa fila apertada de Black Friday, isso é meio de se esperar, não? Fato é que fiquei estarrecida com a falta de habilidade  e gentileza das moças em aceitar o pedido de desculpas do moço. Elas continuaram ilesas às palavras delicadas do moço, e retribuíram a tentativa de gentileza dele (para amenizar uma situação que ele criara) com sarcasmo virulento, com uma clara falta de gentileza.

Assim como a Camila, às vezes eu me pego pensando em como e por quê estamos nos tornando tão endurecidos. E no quanto é mais importante para as pessoas vencer uma briga que realmente entender o outro e suas motivações, que levaram a tal briga. Não é o Black Friday e seu mote consumista ao quadrado que nos tornaram duros e loucos desvairados – é a falta de empatia, esse sentimento tão esquecido e abnegado da nossa sociedade. Empatia anda de braços dados com a gentileza, e nenhuma delas é matéria dos bancos de escola, muito menos parece ser tema-comum na mesa de jantar das pessoas. A Camila escreve da maneira mais perfeita essa relação nossa:

“Na minha classe, somos todos gente de bem unida contra os bandidos inimigos – nem tento disfarçar meu medo de ser assaltada de novo, do qual morro um pouquinho a cada dia -, até o exato instante em que o significante inimigo começa a se alastrar como uma gosma para pessoas como o imbecil que parou torto na vaga, o idiota que não desligou o celular no concerto, o filho da puta que furou a fila do mercado. Porque eu, quando faço todas essas coisas, nunca é por mal, mas apenas porque estava distraída. Já os outros, não: os outros comportam-se de forma incivilizada porque são intrinsicamente bárbaros.”

Fica a pergunta: até quando venceremos a todo e qualquer custo?

Tudo de reflexão sempre.



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