Para ver a lava no Havaí: aventura de barco

por: Lucia Malla Big Island, Geociências, Havaí, Viagens

Ver lava de um vulcão em erupção tão de perto é uma atividade incomum. As possibilidades pelo mundo não são muitas, já que vulcões em erupção constante não são tantos assim – e a maioria dos ativos está bem fora da rota de turismo, como no Kamchatka.

Aqui no Havaí, entretanto, o vulcão Kilauea na Big Island está em erupção desde 1983, e vem garantindo que o espetáculo dos rios de lava seja praticamente possível de ser visto o ano todo. Enquanto cientistas se debruçam diariamente em sua encosta para tentar entender detalhes desta erupção longa, cabe a nós, reles mortais não-formados em vulcanologia, geociências e quejandos, apreciar o espetáculo. De muito perto, se possível.

A lava do Kilauea é em geral lenta, como expliquei anteriormente. Então não é muito complicado chegar perto dela – o problema às vezes é a distância pra se andar até onde a lava está saindo. Mas não chega a ser uma complicado. É um passeio um pouco mais puxado, digamos assim. André e eu já vimos a lava do Kilauea várias vezes, de duas maneiras principais: da terra, diversas vezes, fazendo trilhas pelo parque; e do ar, em passeios de helicóptero que sobrevoaram a cratera principal com seus vents ativos até a área onde a lava se encontra com o mar – definitivamente a parte mais incrível do vulcão.

Em fevereiro último, como parte das comemorações do nosso aniversário de casamento, decidimos ver a lava de uma forma diferente: do mar, num barco.

A primeira vez que li sobre esse tour de barco da lava foi no blog do Jorge Garcia, o Hurley de Lost. Ele postou uns vídeos, e já naquela época, comecei a namorar esse passeio. Depois de ler um monte de depoimentos e posts pela internet sobre diversas empresas, decidimos fazê-lo com a Lava Ocean Tours, cuja sede fica perto de Hilo. Marcamos o tour das 5am, para ver o brilho da lava ainda no lusco-fusco do amanhecer. Fotograficamente, parecia ser a melhor hora – curti bastante o resultado que tivemos com as fotos, então recomendo esse horário.

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Estávamos hospedados no Marriott de Waikoloa, pra cima de Kona, e que fica do lado oposto ao da lava – são 3 horas dirigindo até o píer Isaac Hale, no sul da Big Island e local de onde sai o barco. Não façam isso, queridos: hospedem-se em Hilo se quiserem fazer o tour da lava. Tivemos que sair do hotel às 2 da madrugada pra chegar a tempo no píer, o que não é, digamos, prático.

Até aqui, também, eu ainda achava que era um passeio pra ver a lava, apesar do que o website dizia – e que eu fingia entender.

Às 5 da matina, já no Isaac Hale Beach Park, chega o barco, o capitão e a tripulação. O barco, um monstrengo quadrado cheio de barras laterais de proteção chamado Lavakai, sendo puxado por uma pickup. E aí começo a entender porque é uma aventura, não um passeio: o barco foi especialmente projetado para esse tour, para as condições de mar que ele enfrenta diariamente, e para garantir segurança e, na medida do possível, conforto. O capitão logo comenta: “Gastamos 10 mil dólares tornando os assentos mais macios, para evitar que as pessoas se machuquem.” Meu barcômetro logo captou a mensagem: esse investimento todo provavelmente significava que o mar dali não era pra brincadeiras.

O capitão, um rapaz muito direto chamado Shane, passa papéis de segurança pra gente assinar e começa a falar das regras do barco e do passeio: ninguém levanta desnecessariamente, todo mundo vai se molhar MUITO, ponham todos os eletrônicos dentro de sacolas plásticas se não quiserem que eles estraguem. É proibido embarcar mulher grávida, crianças menores de 4 anos, pessoas que tenham problema de coluna, pescoço, articulação ou osteoporose e obesos. Tomem remédio anti-enjôo. “Este não é um passeio, é uma aventura, e o barco balança muito mesmo.”

A regra não podia ser mais clara.

Embarcamos todos ainda em terra, subindo uma escada colocada ao lado do barco. Escuro total. O caminhão deixou o barco conosco no minúsculo píer de Isaac Hale – na verdade, uma rampa apenas – e foi dada a largada. Tudo absolutamente breu. Logo na saída, o barco precisa enfrentar ondas de surfe alto para passar a arrebentação e iniciar o trajeto até a entrada da lava no mar. A chacoalhação começara. Tinha um moleque de uns 14 anos sentado do meu lado, e na primeira batidona que o barco deu no mar, ainda no Isaac Hale, ele deu um berro e agarrou minha perna como se a vida dele estivesse por um fio. Depois que passamos a arrebentação, ele pediu desculpas e riu um riso nervoso de aflição e medo. Àquela altura, menos de 5 minutos de tour na água, nós já estávamos todos molhados.

A distância do Isaac Hale Beach Park até o ponto onde a lava cai no mar varia, porque a lava varia de localização (afinal, é um fenômeno natural de baixa previsibilidade); mas leva em geral mais de uma hora de barco. No dia que fomos, por exemplo, a lava estava fora dos limites do Parque Nacional dos Vulcões, mais próxima – ainda assim, longe. No breu da noite, só sentimos o balanço constante das ondas enormes, e víamos aqui e ali uma luz: da usina geotérmica, de uma casa ou outra, de lanternas de pessoas fazendo a trilha na costa. São quase 6:20am quando avistamos pela primeira vez o clarão da lava.

Ao se encontrar com o mar a uma temperatura menor, a lava do Kilauea, que nada mais é que magma – ou seja rocha derretida, ou seja super-quente – em geral explode. O mar no ponto de entrada da lava chega a inacreditáveis 70ºC, e uma nuvem de vapor de água misturado com sulfa e outros gases tóxicos se forma. Dependendo das condições do vento, o barco se aproxima mais ou menos da costa – exatamente para evitar ficar o tempo todo dentro da nuvem.

(Mas, mesmo com a melhor das condições, o barco vai passar pela nuvem tóxica pelo menos duas vezes, porque o objetivo é ver a lava. Como eu já sou macaca velha, sabia que aqueles gases eram muito irritantes aos olhos e pulmões. Então, milésimos de segundo antes de entrar na nuvem, dei uma respirada bem funda, fechei o olho, e só voltei a respirar quando o bafo quente da lava amenizara – ou seja, a nuvem passara. Fiz isso algumas vezes durante o tour.)

Aos poucos, o barco vai chegando perto da lava alaranjada, e o clarão e o calor vão ficando cada vez mais intensos. É EMOCIONANTE.

E vemos as explosões, resultados da diferença brutal de temperatura, os pedaços de rocha incandescente cortante boiando no mar, ao mesmo tempo que as ondas não param de chegar e o calor úmido nos circunda. Toda essa dinâmica, os barulhos, as cores, o cheiro, o turbilhão de lava, a formação de uma nova terra, geologia histórica sendo escancarada na sua frente sem pudor nem restrições. Um espetáculo natural dos mais incríveis e emocionantes que já vi na vida.

O barco praticamente surfa na pequena praia praia recém-formada pelo vulcão, e por vezes parece até que encalharemos – mas o capitão é excepcional em manobrar o barco. 7 anos de experiência com a lava fazem a diferença. E ele nos põe a menos de 10 metros da lava escorrendo, várias vezes. Meu coração vem na boca de emoção. Simplesmente SENSACIONAL.

Vamos de uma entrada a outra da lava, e nesse vai-e-vem da aventura passa-se pelo menos meia hora. Algumas pessoas gritam, mistura de medo com realização máxima, ao perceberem a lava e as explosões tão perto. Outras observam caladas, mas não menos extasiadas. Eu choro, porque, lava junkie por opção, de todas as inúmeras vezes que vi a lava do vulcão Kilauea no Havaí, nunca me senti tão conectada a ela como naquele momento. Quase uma catarse de felicidade.

Depois de um bom tempo acompanhados da lava, era hora de voltar. Mas a viagem não acaba.

Para ver a lava no Havaí - aventura de barcoAgora, a claridade da manhã nos permitia ver com nitidez o tamanho das ondas que enfrentamos. O mar é realmente irritado naquela costa, fruto de milhares de quilômetros de swell se acumulando pelo Pacífico para quebrar ali. Mas já estou acostumada ao chacoalhar do barco, e já não acho as ondas nem tão grandes assim (uns 10-15 pés).

Me entretenho vendo a costa sul da Big Island, que nunca tive oportunidade de conhecer. Tornou-se minha 2a costa favorita do Havaí, atrás somente da Na Pali Coast no Kauai. Os penhascos de recorte afiado, rochedos pretos e alguns pedaços perfeitamente entalhados.

E o mar, que não cessa de bater fortemente, acrescenta um mistério e força ao cenário dignos de filme de suspense.

Quando voltamos à rampa do Isaac Hale, numa manobra incrível do barco, muitos surfistas aproveitavam o swell. Os que frequentam aquele pedaço de praia são moradores locais, e vemos pessoas de todas as idades na água em suas pranchas.

Por curiosidade blogueira, perguntei ao capitão se aquela braveza era a condição sempre do oceano na costa sul da Big Island. Ele me respondeu: “Mas o mar hoje estava tranquilo…”. Para bom entendedor, meio litro de água salgada basta.

Uma aventura, sem dúvida. Sem muito risco, mas ainda assim aventura. E mais que isso: a melhor e mais emocionante forma de ver a lava no Havaí.

Tudo de vulcão sempre.

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– O preço do tour é salgadíssimo ($175.00), mas vale cada centavo pela emoção única e inesquecível. Recomendo aos de estômago forte.

E lembre-se que em termos de lava do Kilauea, a dica MAIS IMPORTANTE é: veja onde a lava está escorrendo no dia da sua visita. Se não estiver caindo no mar, não vale a pena nem o passeio de barco nem fazer a trilha do campo de lava na beira-mar. Veja a parte da cratera e as demais atrações do Parque. A lava ficou sem cair no mar de agosto/2013 a julho/2016, voltou a cair em julho/2016 e parou em outubro/2017. No momento (março de 2018), nenhum entrada no mar está ocorrendo.

 



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