Sexta Sub: a mioglobina das focas

por: Lucia Malla Amigos de viagem, Animais, Ciência, Evolução, Molléculas da vida, Sexta Sub

Minha amiga Gisele trabalhou por muito tempo pesquisando mioglobina. Esta é a principal proteína carregadora e armazenadora de oxigênio e ferro no músculo dos vertebrados. A Gisele estudou a relação da mioglobina com os hormônios da tiróide em camundongos já há um certo tempo. Mas até hoje, quando ouço falar em mioglobina, é da Gigi, cientista das mais simpáticas com quem já dividi erlenmeyers, que lembro com carinho.

Mioglobina das focas

Então que estava hoje assistindo TV quando uma notícia me fez dar aquele sorriso moleque-nostálgico. Pesquisadores de Liverpool finalmente demonstraram um mecanismo em potencial que explica como os mamíferos aquáticos conseguem ficar tanto tempo embaixo d’água sem precisar respirar. Baleias, golfinhos, focas e afins, são animais pulmonados. Mas ainda assim mergulham a profundidades incríveis, ficando muitas vezes horas por lá. Como não sufocam? De onde tiram oxigênio embaixo d’água para respirar?

A estrutura que faz a diferença

A resposta darwiniana da notícia é fofa como uma foca. Estes animais evoluíram um tipo diferente de mioglobina. Em animais terrestres, a mioglobina em grandes concentrações vira uma proteína “grudenta”. Este grude facilita que se agregue facilmente às outras e dificulta o transporte de oxigênio.

Já os mamíferos aquáticos têm esta proteína em altas concentrações no músculo, também. Mas elas não “grudam” entre si. Porque a proteína deles possui uma diferença estrutural, com mais cargas positivas ao redor, que gera um efeito de ímã. Afinal, cargas similares se repelem. Então a mioglobina do músculo deles não gruda uma na outra. Pelo contrário, se afastam. E com isso, a capacidade de acumular oxigênio de um mamífero aquático é aumentada em muitas vezes.

O impacto fisiológico de ter mais oxigênio disponível na musculatura é fenomenal, permitindo às células dos animais respirarem tranquilamente enquanto ficam períodos longos embaixo d’água. E o impacto evolutivo desse respirável mundo novo é o que já sabemos: ao evoluírem tal capacidade, estes mamíferos puderam explorar um novo ambiente, e aumentar sua possibilidade de sobrevivência.

Não é o máximo? #alôkadabiologia

(É claro, esta é mais uma das adaptações que estes animais sofreram para aguentar o difícil ambiente aquático. Mas definitivamente uma das mais cruciais. Pois toca numa das bases fisiológicas para a sobreviência animal, a obtenção de oxigênio para viver.)

Enquanto na TV o pesquisador responsável pela descoberta de hoje comentava sobre o assunto, e um monte de imagens de focas e leões marinhos ocupavam a tela, eu me lembrava da Gisele. De seus Northern Blots de mioglobina e das aventuras paulistanas pelas quais passamos juntas, num tempo longínquo do espaço-tempo. Saudades, Gigi. 🙂

Tudo de bom sempre.

P.S.

Por uma coincidência “focal” deliciosa, sábado passado o André foi snorkelar em Shark’s Cove, no North Shore, com um conhecido e… Quase foi “atropelado” embaixo d’água por uma foca-monge havaiana! Esta foca é um animal ameaçadíssimo de extinção. Há cerca de 1200 restantes apenas. Portanto, a probabilidade de encontrar uma é bem baixa.

De acordo com ele, nem ele nem a foca esperavam se ver. Porque ambos tomaram um “susto” de curiosidade ao darem de cara um com o outro embaixo d’água, naquela cena que parece saída de desenho animado. A foca, com uma mioglobina muito melhor adaptada que a dele, foi mais rápida na fuga. E mergulhou para as profundezas e desapareceu poucos segundos depois de vê-lo. Mas, mesmo com o encontro efêmero, ele conseguiu registrá-la. Como podem ver na foto acima para nosso deleite. 🙂

*Post dedicado à Gigisele, of course. 

 



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