Oceanário de Lisboa – o melhor aquário do mundo

por: Lucia Malla Aquários & Zoos, Europa, Oceanos, Portugal, Viagens

Oceanário de Lisboa, o melhor aquário do mundo.

Eu havia dado este título em 2007 ao Aquário de Monterey, realmente um dos melhores que tinha visto até então. Os motivos, expliquei lá no post antigo. Mas tive que rever meus conceitos em outubro passado, quando fui a Portugal. Porque visitei o Oceanário de Lisboa, o maior aquário da Europa.

Como nunca fui ao Georgia Aquarium, em Atlanta, o maior aquário do mundo e considerado por muitos também o melhor do mundo, este meu ranking pessoal pode ainda mudar muito. Mas, como vocês lerão abaixo, acho muito difícil Atlanta conseguir superar a perfeição filosófica que o Oceanário conseguiu… Ficarei na curiosidade.)

Um só oceano

O Oceanário de Lisboa explicita logo na entrada a base da sua filosofia educativa: um só oceano – no sentido de que a separação que existe entre oceanos Pacífico, Índico, Atlântico etc., ser uma nomenclatura artificial, geográfica, fruto principalmente da nossa vontade de organizar o mundo.

Sabemos que o que acontece em uma região do planeta termina afetando as demais. Mas por causa das distâncias geográficas e da existência de nichos, talvez fique mais difícil entender essa interconectividade. E é ela que determina a importância da conservação de todos os oceanos ao mesmo tempo. Nesse sentido, o Oceanário faz um trabalho exemplar em visualizar essa conexão.

A visita ao Oceanário de Lisboa

Mas aí você passa da bilheteria, e à medida que vai descendo a rampa em direção ao prédio principal do aquário, frases e estatísticas sobre os oceanos do mundo aparecem estampadas no teto, para você entrar no clima. E você chega no primeiro hall do aquário e… UAU.

Ali mesmo, chorei de emoção, ao ver aquele tanque gigantesco, de 5000 metros cúbicos, 7 metros de profundidade, cheio de espécies de tubarão, peixes pelágicos em cardumes, um mola-mola lindo demais.

Experiência multissensorial

Além disso, o tanque de entrada estampa esta frase da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen na parede.

Sophia era uma poetisa do mar, e nada mais condizente que pontuar o Oceanário de Lisboa com as homenagens que esta portuguesa fez à sua paixão azul. Em cada tanque ou área de contemplação ao redor do tanque principal, um verso de poesia engrandecendo o mar.

Lindíssimo e emocionante.

O tanque central do Oceanário é sem dúvida sua atração principal. Sua enormidade dá a dimensão do oceano, um azul “infinito” cheio de vida. Mas o que realmente chama a atenção, nessa tentativa constante de nos fazer entender o conceito de “um só mar”, é o fato de que as áreas de visitação dedicadas a cada um dos “oceanos” – nessa nossa divisão geográfica arbitrária e artificial – são todas ao redor do tanque central. Com isso, o fundo de cada um dos tanques representativos destas áreas é um vidro/acrílico transparente.

Para complementar melhor ainda, por todo o aquário, há uma trilha sonora, característica do mar ou da região que se está representando no tanque visitado. O que isso possiblita é a multisensorialidade do que é o “mar”. É a concretização perfeita desta imensidão contínua de tons azuis, sons tranquilizadores e infinitude.


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Os oceanos são integrados

Mas mais que isso, essa forma inteligente de estruturar o aquário permite mais uma sacada filosófico-educativa fenomenal: a integração dos oceanos. Você está na parte do Oceano Índico tropical, por exemplo, mas láááá no fundo, “vê” os animais do tanque do Antártico. Então de repente você entende que no mundo de verdade também é assim: tudo um oceano só.

E essa conexão visual permite solidificar mais ainda a mensagem de integração dos oceanos do planeta. Olha, fico arrepiada só de lembrar e pensar nessa maravilha.

Criatividade na apresentação

Mas aí você continua a visita. E percebe ainda que, mesmo os tanques que estão de alguma forma desconectados do tanque central – como o de linguados e de águas-vivas – estão dispostos de maneira criativa, inovadora dentre os aquários do mundo. Os linguados estão num tanque horizontal, e você os vê de cima, por exemplo.

Linguado no seu tanque.

Nas esquinas do tanque principal, a profundidade alcançada pela conexão dos diversos andares do prédio permite que a representação do ecossistema marinho escolhido seja completa, das profundezas aos costões.

Por exemplo, no tanque do Pacífico Temperado vemos desde as lontras e aves que habitam os rochedos da Califórnia na área terrestre, passando pelas espécies de anêmonas das piscinas de maré, e chegando até a base das florestas de kelp gigante, com seus peixes e invertebrados característicos. É como se visualizássemos um corte longitudinal do ambiente. Isto só facilita o entendimento de como estas espécies se relacionam entre si. Uma verdadeira aula de educação ambiental.

Parênteses

E juro que fiquei com muita vontade de participar do “Dormindo com tubarões”, uma atividade noturna para crianças e famílias, em que todos passam à noite no Oceanário e dormem olhando pro tanque principal. Já pensou que delícia, abrir o olho e ver aquele monte de peixe nadando sem parar? Pena que no período que estive em Lisboa eles não ofereciam essa atividade. Porque, sério, não pensaria nem duas vezes para participar! 😀 

A origem da água salgada

Talvez este seja mais um ponto para se refletir… Mas interessantemente o Oceanário, embora esteja na beira do rio Tejo, já na área de delta próxima ao mar, preferiu produzir a água do mar que alimenta seus tanques. Isso garante condições as mais ideais possíveis às espécies que vivem ali.

Mas talvez esta seja também a parte que me incomodou um pouco. Afinal, o sal vem de Israel, e são 16.5 toneladas por mês para manter os 30 tanques. Ou seja, há um custo ecológico para transportar esse sal lá do Oriente Médio até Portugal, depois um gasto de água doce que é usada para misturar o sal e produzir a água “do mar” que é a mais adequada a cada espécie – e são testados diariamente pH, temperatura, quantidade de amônia, etc. A razão para não puxar do Atlântico ali perto é simples: a qualidade da água do mar na boca do Tejo.

Irônico e complicado, não?

Os problemas que o mar enfrenta

Como a utilização humana do mar também é um componente importante dos oceanos a ser analisado, o Oceanário dedicou diversas salas e exposições à reflexão das atividades humanas conectadas ao mar. Todas as atividades, sejam elas positivas ou negativas, estão ali representadas, e levam o visitante a pensar sobre estes usos. 

Reflete-se como a pesca está conectada à necessidade de preservação, como o consumo exagerado de tudo reflete no mar, gerando toneladas de lixo plástico e de poluentes indesejados, como a gente usa o mar como nosso playground, mergulhando e admirando suas espécies também – e como mesmo a atividade turística em exagero pode trazer mudanças significativas para o ecossistema.

Enfim, é uma reflexão atrás da outra. E, de cereja nesse bolo azul, a área chamada “Um Planeta, Um Oceano” fica passando o famoso vídeo do Carl Sagan falando sobre o “pale blue dot” com legendas em português, em loop eterno. #MuitoAmor

Fotos e azulejos no hall externo

Depois dessa overdose de amor ao mar que o Oceanário propiciou, achei que a visita tinha acabado e me dirigia à saída. Mas não: a saída leva ao Edifício do Mar. Ali, uma exposição fotográfica chamada “Planet Ocean – uma perspectiva dupla dos desafios dos oceanos” acontecia. A exposição era patrocinada pela Fundação GoodPlanet, e contava com fotos de dois dos maiores fotógrafos de natureza da atualidade: Yann Arthus-Bertrand (especialista em fotos aéreas sensacionais), e Brian Skerry (fotojornalista sub de alto gabarito).

Fotografias de impacto, fenomenais, sob o mural de azulejos de tema marinho do Oceanário, concepção arquitetônico-artística fantástica de Ivan Chermayeff, que traz a tradicional arte do azulejo português para a modernidade visual dos pixels, em 55.000 azulejos. E eu achando que já ia embora do Oceanário (eram quase 6 da tarde, e estava ali desde a abertura)… Mas a exposição, felizmente, me segurou por mais uma hora. Então fiquei me sentindo leve feito pluma, apreciando aquela overdose de arte marinha estampada, em foto e azulejo.

Por que considero o Oceanário de Lisboa o melhor aquário do mundo

Para mim, fica difícil escolher que área ou tanque ou experiência do Oceanário eu mais gostei. Porque gostei de tudo. Do mola-mola. Da floresta tropical costeira. Do tanque de recifes de corais. Dos peixes de Açores. Dos tubarões, tantas espécies. Das reflexões pertinentes. Das poesias e sons. Dos bancos para pausa e admiração.

Enfim, de toda a universalidade do conceito de OCEANO.

Passei um dia inteiro visitando o Oceanário de Lisboa. E se meu tempo em Lisboa tivesse sido maior, teria sem dúvida alguma voltado mais vezes. Era um dia chuvoso, e saí de lá tão emocionada, que sentei num banco de um café ali perto para esperar a chuva passar, e não contive as lágrimas de novo, com um sorriso feliz, de satisfação biológica e artística. Por todo o amor ao mar que o projeto do Oceanário faz despertar e emergir, que é deveras emocionante.

Nunca vi nenhum aquário do mundo dispôr o conceito de um só oceano – e tantos outros conceitos educativos pertinentes – de forma estética e poética tão clara e linda como o Oceanário de Lisboa. Simplesmente imperdível. E inesquecível.

Tudo de bom sempre.

“Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

(…)

Valeu a pena? Tudo vale a pena

se a alma não é pequena.”

(Em “Mar Português”, do poeta-mestre maior de todos, Fernando Pessoa)

Para visitar o Oceanário de Lisboa

  • O Oceanário de Lisboa fica na Doca dos Olivais, no Paruqe das Nações. Para chegar, você pode usar o metrô linha Vermelha (estação Oriente) ou o ônibus (linhas 705, 725, 728, 744, 708, 750, 759, 782 ou 794) e descer na estação Oriente. Dá pra chegar de barco também, descendo no Cais do Sodré.
  • O ingresso custa 19 euros para adultos, 16 euros para crianças e maiores de 65 anos, além de ser gratuito para crianças de até 3 anos.
  • Há sempre uma exposição temporária que você pode incluir na visita ao Oceanário. Não deixe de inclui-la, porque você pode ter uma excelente surpresa, para se emocionar ainda mais.

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