A minha Copa das Copas: Socceroos, Arena Twitter e Alemanha Tetra

por: Lucia Malla Austrália, Brasil, Espírito Santo, Esportes, Futebol

OOOEEEAAAA!!

Que mês, meus amigos. Que mês! Coração vibrando, sorrindo e se emocionando todos os dias, nessa que foi sem dúvida a melhor Copa dos últimos tempos. A Copa das Copas.

E nesse junho/julho, muitos acontecimentos ao redor do campo de futebol – e fora dele. Como fiz em 2010, listo aqui os meus momentos favoritos e memórias mais marcantes desta histórica Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

OOOEEEEAAAA!!!

Você precisa vir para a Copa.” Levei uns minutos – na verdade, alguns dias – para assimilar a informação e o pedido tão especial, para ajudar como tradutora as intermediações do clube de futebol com a seleção da Austrália durante o pré-mundial. Era fevereiro. Não muito tempo depois, estava eu de passagens compradas. Para a Copa do Mundo do Brasil!

No ar, naquele momento em fevereiro, reinava um clima generalizado de “Não vai ter Copa”. E eu, apaixonada que sou por futebol e por Copas do Mundo, fiquei entre a cruz e a espada, entendendo e apoiando muitas das lutas travadas nas ruas, mas láááá no fundinho, sabendo absolutamente que nunca-jamais-ever me ausentaria de ver os jogos da Copa do Mundo, nem que fosse pela TV. O tempo passa para mim de quatro em quatro anos, quando as Copas acontecem – sou daquelas que falam, “ah, me casei no ano da Copa da Alemanha…” ou “Me formei depois do tetracampeonato…” Mas, confesso que até a véspera da minha viagem ainda pairava um certo incômodo, de que talvez estivesse indo para uma grande roubada.

Bastou eu pisar no Brasil para perceber o quanto estava errada.

A rotina com os “Socceroos” em Vitória (ES) foi inesquecível. Das experiências mais deliciosas e emocionantes da minha vida. Carregarei comigo esta doce memória, de 2 semanas em que vi e vivi de perto os bastidores de uma seleção de Copa. As conversas incríveis e hilárias com os jornalistas australianos, o happy hour com a seleção da Austrália, os treinos, as coletivas de imprensa… Talvez aqueles que se envolvem com futebol com mais frequência ou que trabalhem no ramo de publicidade/jornalismo e afins, que lidem mais com a mídia, estejam acostumados a essa rotina, e possam ser mais blasé. Mas para mim, que tenho uma carreira completamente diferente do futebol, focada num laboratório de pesquisa biomédica, e que quase nunca participo ativamente de nenhum circo de eventos, foi um ambiente novo e fascinante, uma grande chance de aprender e vivenciar uma linguagem e um mundo totalmente fora da minha zona de conforto. Encantamento é a melhor definição do que senti. Oportunidade de ouro também para sentir-me uma estrangeira – e em terras brasileiras, o que é irônico. Em muitos momentos, entretanto, foi como se estivesse sendo levada de volta à infância, quando o futebol era muito mais presente na minha vida. Ali, naqueles dias antes da Copa começar, eu já vivia a minha Copa das Copas.

(E tudo isso acontecendo na minha cidade querida, e eu ali, ao lado de uma das pessoas que mais amo na vida, meu pai. Haja coração!)

Num domingo, antes da Copa começar, 3000 crianças das escolas públicas da Grande Vitória foram assistir ao treino australiano. Mais os prefeitos de Vitória e de Cariacica, onde fica o estádio da Desportiva Ferroviária, “casa” da Austrália nesse período. A gritaria da criançada, a empolgação dos jogadores, a festa a cada volta que o time dava no campo… emoção atrás de emoção. Os repórteres australianos não acreditavam que o time deles, longe de ser favorito, atraía tanta atenção e calor para um público tão especial. Tudo organizado de maneira linda! O time da Austrália adorou a estadia em Vitória, passearam e postaram diversas fotos no instagram das idas à praia, dos cafés, e dos diversos momentos incríveis que viveram nesta Copa. Apesar de não terem ido muito longe na Copa, a honra de defender um país e de participar da Copa no país do futebol… todos os jogadores descreviam isso como o momento mais importante de suas vidas. Não é pra menos.

A mensagem da mídia social australiana aos “super-fãs”.

Na maior parte do tempo com a seleção Socceroo, tive pouco contato direto com os jogadores. Durante o evento de happy hour, troquei algumas palavras com Adam Taggart, camisa 9 de Perth, e com Ben Halloran – que proporcionou uma das primeiras (das muitas…) ótimas histórias dessa Copa, ao postar uma foto de uma aranha enorme dentro do seu quarto de hotel. Durante as coletivas, cada dia um ou dois jogadores apareciam para falar com os jornalistas – e esse era o momento em que eu captava uma pitada da personalidade de verdade de cada um. Quando as câmeras e os microfones desligavam ou não estavam direcionadas a eles, os jogadores relaxavam um pouco mais com o pessoal ao redor, conversavam e riam, falavam das namoradas, dos torneios de ping-pong no hotel, de Vitória, das amenidades da vida além-futebol.

E foi durante esses momentos mais relax que me toquei do óbvio ululante – mas que muitas vezes a gente esquece quando comenta sobre futebol: esses jogadores são uns meninos. São super-jovens, 20 e poucos anos, praticamente recém-saídos da adolescência, cheios de gás e vontade de brilhar, mas com aquele olhar ainda assustado de quem está virando adulto “na marra”, no palco do mundo esportivo. (Você se lembra de quando tinha 20 e poucos anos, suas inseguranças e “certezas”? Pois.)

Há uma certa beleza poética nessa constatação, de que uma Copa, assim como a vida, é construída dessa mistura de experiência adulta com ingenuidade persistente, encarando juntos um desafio. Nos mais velhos, a gente sente o quanto tentam dar o exemplo aos mais novos, quando falam e comentam com muito mais cautela qualquer tópico, inclusive suas amenidades.

O mais experiente jogador australiano era, sem dúvida, o goleador Tim Cahill. Numa das coletivas, fiquei cara a cara com o ídolo Socceroo, autor de um dos gols mais lindos da Copa, e de um dos grandes memes no twitter/instagram, o #timcahilling, que começou no fatídico jogo Brasil x Alemanha. Tim é inacreditavelmente centrado, muito pé no chão e sem estrelismo algum. Super-entusiasmado, conversava com todos derramando sorrisos, daquelas pessoas que olham nos seus olhos, sempre. Meu breve encontro com ele em frente das câmeras ficou registrado nas páginas do jornal da cidade. Timidamente, sorri.

Mas meu maior contato mesmo foi com a equipe australiana que veio na carona da seleção: jornalistas, fotógrafos, o analista de mídia social (hi, Mason!), os membros da Federação Australiana de Futebol. Foi com estes que interagi mais no pré-Copa, tentando garantir a eles o amparo logístico nos pequenos detalhes. Ria muito das diversas histórias que eles viviam em Vitória – se tem um grupo que realmente curtiu e aproveitou a cidade, sem concentração nem abdicação da cerveja, foram os jornalistas australianos. Haja happy hour na Praia do Canto…

A Austrália teve uma performance fraca na Copa. Lutaram muito, mas controle de bola ainda é uma característica que eles precisam aperfeiçoar – e uma das laterais do time deles rivaliza com a nossa Avenida Daniel Alves, o grande legado brasileiro da Copa. Mas, apesar das falhas em campo, os australianos saíram com a cabeça erguida, cheios de orgulho, depois de darem uma canseira nos holandeses.

Para mim, a simpatia dos Socceroos e seu entourage treinando no campo da Desportiva Ferroviária foi a memória mais querida e emocionante da minha Copa. Obrigada, equipe especialíssima da Desportiva! E obrigada, Austrália! 🙂

Jogadores australianos nas fotos: Tommy Oar, Adam Taggart, Tim Cahill, James Troisi, Ben Halloran, Mark Milligan, Mark Brescianno, James Holland, Matt McKay, Mitch Langerak, Mathew Leckie e Mile Jedinak.

(E, em Vitória, ainda fui na inauguração do reformado estádio Kléber Andrade, com suas cadeiras à Mondrian, que me deixaram toda derretida… foi onde a seleção de Camarões treinou no pré-Copa.)

Minha Copa das Copas

Assisti aos primeiros jogos da Copa em casa, com meus pais. Ver o Brasil x Croácia ao lado deles, torcendo de camisa canarinho, já valeu toda a Copa para mim, e se a Copa acabasse ali, no primeiro jogo, já teria sido a melhor Copa ever.

Entretanto, já de volta aos EUA, passei a assistir aos jogos colada em duas telas: a da TV e a da Arena Twitter, como apelidamos a festa que rolava nesta mídia social. Mais que opiniões, o twitter permitiu a amplificação da zueira futebolística a nível mundial.

Foram incontáveis memes, frases e fotos engraçadas. Vesti meu avatar de verde e amarelo, e caí na farra, metralhando RTs a cada jogo, garantindo várias rodadas de risadas. Mesmo nos jogos que não pude assistir, acompanhei a zueira no twitter – que ela sim, importava. A magnânima sensação de que o boteco virtual existe, onde estamos todos sentados ao redor de uma mesa gigante em conversa alta com os amigos, teclados em punho, e onde a saideira é sempre na próxima rodada de memes. Sensacional!

E foi muita irreverência acumulada. Muito coração na mão a cada quase-gol, muita torcida sem confusão nem briga; muitos-muitos gols, muito futebol, muito Impedimento, muito juiz que não vê, muitos goleiros-muralhas; muito Podolski brasileiro, muita mordida do Suaréz, muito 5×1 e muito 7×1, muita Fonte Nova, muito Klinsmann, muita Costa Rica, muito Herrera pulando, muito James Rodriguez, muito Van Persie vanpersiando, muita cambalhota do Klose, muita dancinha da Colômbia, muito spray do juiz; muito hino à capela, muito choro, muita vértebra, muito Fred Cone e elefante marinho; muita FIFA Fan Fest, muitos insetos gigantes, muitas reportagens gringas reconhecendo a #MelhorCopa, muitos torcedores de todas as nacionalidades pelas ruas do Brasil, muita interação, muitos fogos, muito Fuleco, muita tapioca, churrasco e feijoada, muito Maracanã, muito calor (muito calor!) humano, muita brazuca. E tudo MUITO BRAZUCA.

Na língua do futebol, a babel onde todas as demais línguas se encontram.

Foi simplesmente LINDO. Parabéns, Brasil por ter feito a #CopaDasCopas de todos nós.

Foto por Ian Walton (Getty Images), na galeria oficial da FIFA.

Na minha lista de 5 gols mais bonitos e inesquecíveis da Copa 2014, estão:

5. Robben (HOL), contra a Espanha;

4. Götze (ALE), contra a Argentina, o gol da final da Copa;

3. Tim Cahill (AUS), contra a Holanda;

2. James Rodriguez (COL), contra o Uruguai;

1. Van Persie (HOL), contra a Espanha, a cabeçada maravilhosa que virou verbo: vanpersear.

Para uma lista de causos impagáveis da Copa, esse post do Impedimento não falha.

Para um resumo ótimo da Copa, este vídeo compila bem. Ou essa lista que já traz saudade. Ou esse slideshow de 90 segundos do The Guardian.

Para alguns dos milhares de melhores memes, aqui.

(E, depois da fama do polvo Paul em 2010, houve nesta Copa a invasão zoológica de animais que “previam” os resultados dos jogos da Copa. Praticamente todas as categorias taxonômicas do mundo animal viraram videntes, de nematodo a canguru, passando por camelo, tartaruga marinha, piranha, panda… a zueira não teve mesmo limites!)

Em 11 de junho, antes da abertura da Copa, publiquei no facebook – aquela mídia social onde todas as informações vão pra morrer – um “disclosure”, listando os times para os quais torceria durante a Copa 2014. Eram eles, na ordem: 1) Brasil; 2) Alemanha; 3) EUA; 4) Austrália.

Minhas razões eram simples. A Austrália por simpatia recente, pela convivência com o time no pré-Copa, que me conquistou, mesmo sabendo que o futebol deles deixa ainda muito a desejar; os EUA por ser o time da minha casa atual, e pelo sentimento de “torcer pra time pequeno” que eles ainda proporcionam – sentimento este que tem tudo para desaparecer no futuro próximo; o Brasil porque sou brasileira, é o primeiro time do coração mesmo, com nosso estilo de futebol apimentado único, cheio de gingado, apaixonante; e a Alemanha porque eu também amo o estilo de jogar futebol deles, afiado, técnico sem ser maçante, totalmente oposto ao brasileiro e tão apaixonante quanto. Desde que morei lá em 1997, aprendi a admirar a admiração do povo alemão pelo bom futebol. De todos esses times, a Alemanha sem dúvida foi o futebol que mais me conquistou de verdade, e enquanto os outros são torcidas meio serendipiosas, a Alemanha é quase uma torcida “do coração”.

Então que quando se confirmou que Brasil e Alemanha jogariam na semi-final, meu coração gelou. Estava dividida. No final, obviamente vesti a camisa verde-amarelo, porque minha brasileirice falou mais alto – mas lá no fundinho, a Alemanha assobiava e dava piscadinhas. Enquanto cantava o hino do Bahia em Santo André.

#MelhorCopa

Foi bacana perceber que o brasileiro aos poucos desvincula o alemão do esterótipo simplista “frio, calculista e sem graça”. Aliás, no passado, quando comentava com minha família o quanto os alemães eram legais, animados e super-divertidos, cansei de receber olhares enviezados, como se estivesse dizendo uma asneira gigante. É claro, há pessoas bacanas e idiotas em todas as culturas, mas numa média geral, o alemão médio é muito amigável, caloroso, e muitos momentos excepcionais da minha vida foram passados em terras germânicas, com amigos alemães que me cativaram pela amizade sincera.

Aí veio o Mineirazo. E todos sabemos o restante da história, consequência do deprimente placar de 7 x 1. Pessoas mais entendidas da escrita futebolística já desopilaram e destrincharam todos os problemas e erros que aconteceram e decorreram dessa derrota, e quem sou eu para acrescentar algo a essa análise.

Mas fiquei realmente triste, pela ferida aberta do futebol brasileiro ali, exposta e infeccionada, em 90 dos mais doloridos minutos do futebol. Parecia que me encontrava num universo paralelo, tamanha surrealidade do placar – ironicamente, o paradoxo do delírio patológico mais se escancarava justamente pelo tamanho gigantesco da racionalidade do time adversário, de futebol extremamente reality-based, science-based. Apesar da tristeza, aquele jogo em si, valeu a Copa. Por dar um banho de realidade ao nosso futebol. Espero que melhoras fundamentais profundas se instaurem no país do futebol. Esse seria, afinal, um bom legado da Copa ao Brasil.

Depois da derrota brasileira, torcer pra Alemanha virou instintivo para mim. O time que escolheu o sul da Bahia para concentrar, que se integrou à cultura local, aos costumes e ao povo da região, que deu verdadeiras aulas de mídia social e de relações públicas em todas as demais seleções, que dançou com os índios brasileiros (esse grupo tão esquecido e desprezado pelo brasileiro médio), que sorria e brincava, que tem o jogador estrangeiro mais brasileiro de toda a Copa, que mostrou em campo um futebol preciso, racional e extremamente divertido, alegre de se ver, que nos fez ter saudade do futebol brasileiro mais solto de uns anos atrás, que nos respeitou e nos empolgou acima de tudo, a cada movimento. O time que trouxe análise científica com muitas pitadas de sorrisos largos ao futebol. Como não abraçá-los e torcer para eles?

O tetracampeonato no Maracanã, o templo máximo do futebol, foi a consagração final dos anos de trabalho futebolístico da equipe alemã. Mas também foi o triunfo do futebol alegre de se ver, sem papagaiações, estrelismos ou truculência. O triunfo de um time, de verdade, na concepção mais profunda da palavra TIME. Um jogo bonito, de verdade.

Foto por Lars Baron (Getty Images), via FIFA.

A Copa 2014 teve muito (MUITO!) Götze (GÖTZE!), muito Lahm, muito Schweinsteiger, muito Mülller, muito Mertesecker, muito Kroos, muito Özil, muito Hummels, muito Boateng, muito Khedira, muito Schürrle, muito Kramer, muito Mustafi. Muito, muito Neuer. Muito, muito Miroslav Klose e seus 16 gols em Copa. Muito Joachim Löw. Muito, um exagero de muito, de Podolski, brasileiro com muito orgulho. E MUITA MUITA MUITA ALEMANHA.

Parabéns, Alemanha! #aneurerseite

E que venha 2018, na Rússia! 🙂

Tudo de futebol sempre.

E… OOOOOEEEAAAAA!!!!

Para finalizar a Copa das Copas, uma imagem de ouro da TV… 🙂



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