A magia da realidade de “Boyhood”

por: Lucia Malla Arte, Cinema

Um menino cresce e vira adolescente.

Com esse roteiro ultra-hiper-super simplista e rotineiro, o super-diretor Richard Linklater conseguiu construir talvez a maior obra-prima do cinema recente. O filme “Boyhood” é uma genial celebração desta simplicidade – que é paradoxalmente tão complexa, tão cheia de meandros, altos e baixos – chamada… vida.

Boyhood” conta a história de Mason, um garoto de 6 anos que vive com a mãe e a irmã em uma cidade do Texas. Ao fim do filme, Mason tem 18 anos e está prestes a começar a faculdade. Durante o filme, acompanhamos o processo de crescimento/mudança de Mason – e dos demais integrantes da família. Apesar do foco em Mason, “Boyhood” está longe de refletir apenas na vida dele. Facilmente poderíamos incluir um subtítulo como “Motherhood, Fatherhood, Sisterhood”. Aliás, são os conflitos, desafios, reflexões, celebrações e constatações de cada membro desta família que observamos na tela, e que, carregados de uma realidade tão visceral quanto encantadora, nos conectam mais e mais ao filme. Somos, fomos ou seremos Mason em nossas vidas.

Interpretado por Ellar Coltrane, Mason é um personagem fictício. Entretanto, parte da genialidade do filme passa pela forma como Linklater elaborou a narrativa desta ficção. Ao invés de mostrar saltos temporais, o filme foi filmado em 12 anos, uns poucos dias a cada ano, abrindo caminho para uma “ficção realista” inédita no cinema americano. Em 12 anos, passamos gradativamente pelas várias etapas de vida de Mason. Acompanhamos suas mudanças físicas, psicológicas e sociais a cada ano, com uma sensação de vivência e convivência com o personagem muito próxima – porque todos já vimos alguém crescer e amadurecer de perto. Aqui, o background de família americana classe média é uma aleatoriedade, e a passagem do tempo está nos detalhes, não nos rituais de passagem pré-estabelecidos na nossa sociedade. O que realmente é enfatizado no filme é o processo de crescimento/amadurecimento, as topadas que a gente vai levando da vida, e como a gente se levanta delas, dá risadas e sai caminhando. Não há certo ou errado em momento algum, porque cada contexto é único; há o viver, acima de tudo.

O trunfo maior (e audácia) da estratégia de Linklater foram a manutenção de Ellar Coltrane pelos 12 anos do projeto e a escolha do período – a adolescência é o período de maiores transformações em nossas vidas, sem dúvida. Um projeto com esse nível de elaboração e incerteza não é banal, e o próprio Linklater afirmou em entrevista que os obstáculos eram inacreditáveis, a começar pelo fato de que os atores não poderiam ter um contrato de trabalho (nos EUA, contratos de serviço pessoais podem ser feitos no máximo por 7 anos). O fato de que, apesar dos obstáculos, Linklater e sua equipe persistiram e o filme foi feito é uma prova da determinação deste diretor, talvez o maior cronista cinematográfico sobre as questões de passagem do tempo na vida moderna.

Sou fãzaça de Ethan Hawke, e ele brilha no papel de pai de Mason. Patricia Arquette, a mãe, também está sensacional, num papel que merece pelo menos indicação ao Oscar. A irmã, interpretada por Lorelei Linklater, faz um bom trabalho, correto. Vemos os três amadurecendo durante o filme, e há diversas cenas sensacionais, com diálogos ultra-realistas. O filme é contado de uma maneira muito leve, mas a simplicidade da cinematografia ficcional de Linklater é tão exacerbada que somos confrontados ao final com uma realidade dura e crua, das mais complexas e filosóficas que todos enfrentamos nas nossas vidas diárias, ao elaborar a passagem do tempo: It’s always right now.” 

Poucas vezes saí do cinema com a sensação de ter visto algo tão radical, tão filosófico, tão corajoso, tão audacioso, tão belo, tão complexo na sua extrema simplicidade. “Boyhood” é mais que filme pra Oscar: é filme histórico, obra-prima do cinema realista, para ver e rever, enquanto a gente contempla, reflete, aprende e inspira a magia da realidade nas nossas próprias vidas. Enquanto a gente vive.

Tudo de cinema sempre.


A equipe de Boyhood: Ethan Hawke, Ellar Coltrane, Lorelei Linklater, Patricia Arquette e o diretor Richard Linklater, em Sundance.

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P.S.: Richard Linklater já dirigiu clássicos da narrativa cotidiana cinematográfica, como “Slacker” e a melhor trilogia sobre o amor de todos os tempos, “Before” – o Rafael arrasou na análise desta trilogia, leiam lá

P.S. 2: Para se divertir, dá uma olhada na hashtag #BoyhoodYourself no facebook/ instagram/ twitter… 😀

*As imagens deste post vieram dos sites e redes sociais oficiais do filme ou da IFC Films.



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