Sobre a epidemia atual do vírus Ebola

por: Lucia Malla África, Biomédicas, Ciência, Libéria

Semana passada participei de um colóquio sobre a epidemia do vírus Ebola, na Escola de Medicina da Universidade do Havaí. O colóquio foi ótimo, porque contou com a participação de Alex Lehrer, cientista que está pesquisando aqui no Havaí uma das opções de vacina para o Ebola. Além de John Berestecky, professor de microbiologia que estava na Libéria de maio a agosto, quando o outbreak de ebola cresceu exponencialmente. Ou seja, ele presenciou a tragédia acontecer, ao vivo e a cores.

Ebola virus
Vírus Zaire ebola. Foto do CDC, em domínio público.

O que sabemos sobre o vírus do Ebola

Foram dois discursos diferentes, mas a incerteza em ambos era clara.

Em primeiro lugar, a incerteza científica. Afinal, sabemos apenas o básico da biologia do vírus. É um vírus RNA negativo de fita única, com um envelope protéico em forma de filamento, e seu reservatório natural são três espécies de morcego frugívoro migratórias encontradas no centro-oeste da África. Sabemos também que o Zaire ebola é um vírus da mesma família do que causa a febre Marburg, a família Filoviridae.

Alguém que se infecte com o vírus ebola tem 90% de probabilidade de morrer, um risco absurdamente alto. E basta o contato com uma partícula viral para a pessoa ser infectada. O vírus se faz presente em todos os fluidos do corpo de forma plural: sangue, suor, saliva, sêmen. E se mantém ativo no corpo mesmo depois da pessoa morta, já que o outbreak na capital da Libéria parece ter começado exatamente por causa de um ritual funeral, em que uma pessoa abraçou o cadáver.

O que não sabemos sobre o vírus Ebola

A maior parte das certezas para por aí. As dúvidas ainda são muitas. Quantos dias a doença pode ficar incubada? O que determina que o vírus saia de seu período de incubação e se multiplique? As pessoas que contraem e sobrevivem se tornam imunes temporaria ou permanentemente? Qual o mecanismo molecular que o vírus usa para desidratar tanto as células do corpo? Qual a taxa em que o vírus está mutando? Até quantos dias depois de morto um cadáver ainda tem vírus vivo e pode infectar outra pessoa? O morcego infectado também apresenta sintomas da doença? Quando teremos um método de diagnóstico confiável, que descubra o vírus ainda incubado?

Para todas essas questões, a resposta é: não sabemos. Pesquisar o ebola é complicado, requer laboratórios com nível de segurança máximo, geralmente do tipo que se encontra em instalações militares. Uma vacina não poderá ser desenvolvida a partir de vírus atenuado ou de partículas virais, porque o risco é muito alto para a saúde humana. Métodos de vacinação menos perigosos que requerem mais pesquisa refinada precisam ser encontrados para o caso do ebola – já há em teste o ZMapp, mas mesmo assim ainda é uma opção muito limitada e os estudos clínicos estão em fase 2 ainda (serão acelerados, de acordo com promessa do FDA). Em tempos de escassez financeira para a pesquisa básica, esta não é tarefa fácil.

Do lado mais fraco da corda, outra questão surge. É ridícula a pouca quantidade de conhecimento que temos sobre a biologia do morcego, informação que poderia nos ajudar a entender melhor o vírus que ele carrega. Mais uma vez, a idéia de privilegiar o financiamento da pesquisa “aplicada” nos dá uma rasteira, já que nos falta a pesquisa básica para resolver o problema.

Incerteza sócio-político-econômica

A incerteza do professor que estava na Libéria, por outro lado, foi mais pragmática – e profunda. Os países africanos afetados pelo atual outbreak são de pobreza extrema, onde as condições sanitárias são precárias. A Libéria, particularmente, vem de uma história única com os EUA, o que complica um pouco mais na hora de bolar uma estratégia de intervenção/ajuda ocidental.

Para amplificar a situação, características culturais contribuem para que o vírus se espalhe: os rituais funerais são cheios de abraços, toques e afins no cadáver, e como este ainda está contaminado, só facilita a transmissão. Além disso, os mitos de “demônios” da cultura liberiana envolvem figuras que estão todas cobertas por roupas, apenas com os olhos de fora – se você vê um médico ou agente do CDC em ação, é exatamente isso que ele se parece. Ou seja, dentro da cultura liberiana, muitos ainda associam esta figura toda protegida de roupas com… demônios. E querem distância.

Parênteses

E nem venha me dizer que a solução é “simples”, basta que eles mudem a cultura funerária deles. Ahã. Basta olhar pros dados do #DiaMundialSemCarro para vermos como é “fácil” mudarmos toda uma cultura… Para se ter uma idéia da resistência: os hospitais começaram a cremar corpos de infectados com ebola. Rumores rolam de que desde então a propina virou lugar-comum entre quem pode pagar para liberar um cadáver para que seja feito seu funeral tradicional…

Uma outra característica interessante tornou a epidemia mais espalhada: o quanto os liberianos são viajantes. De acordo com o professor Berestecky, a mobilidade dentro do país é inacreditavelmente enorme. Os liberianos estão sempre indo e vindo, em jipes e ônibus lotados, e Monrovia, a capital da Libéria, tem uma população flutuante que ninguém sabe de quantos mil. Este espírito viajante, associado aos costumes funerais, auxiliou que o vírus fosse levado de um pequeno vilarejo no interior para a área mais densamente populosa do país num piscar. E, uma vez na capital, a densidade populacional fez sua parte: facilitou o alastro. (Sem falar que o morcego que carrega o vírus também migra bastante pela região…)

Os problemas do sistema de saúde liberiano

Mas óbvio, o ebola não teria se tornado epidemia se o sistema de saúde liberiano não fosse um caos. Pense: 3 hospitais no país inteiro. E sem capacidade para lidar com os casos que pipocaram de ebola. Apenas um laboratório no país capaz de diagnosticar soropositivos para o ebola. (E usando rtPCR, uma técnica que ainda por cima é cara para eles na escala necessária.)

Em maio, quando o outbreak começou, os hospitais começaram a ficar saturados. Já em junho, não havia mais leitos disponíveis para todos. Em julho, o sistema de saúde entrou em total colapso – e está assim até hoje. E só em setembro, a Organização Mundial de Saúde resolveu *começar* a fazer algo. Nesse meio tempo, já são mais de 2.000 mortos oficiais pelo ebola – as previsões mais pessimistas sugerem que isto represente apenas 10% dos números reais. O circo já pegou fogo há tempos.

Barreiras econômicas

O maior receio do mundo é de que o vírus ebola se espalhe ainda mais. Entretanto, esse receio não é fundamentado por nenhum dos cientistas que ouvi ou li recentemente. Por uma razão simples: o nosso sistema de saúde tem muito mais preparo para lidar com casos assim. Qualquer país ocidental consegue conter em área estéril um paciente de forma mais eficiente do que a situação atual na Libéria. Só por isso, a epidemia já seria quase que 100% contida. Trabalhadores da saúde ainda correriam um risco maior, e esta é a maior preocupação real quando se fala em epidemia pelos países desenvolvidos.

Depois do anúncio do Obama dizendo que os EUA mandarão tropas militares para ajudar na contenção do outbreak, a preocupação americana passou a ser de que soldados sejam despachados para lá e voltem infectados – mas ainda na fase de incubação, quando seria difícil diagnosticar o vírus. Neste caso, desenvolveriam a doença aqui, e potencialmente poderiam infectar mais pessoas. Mas mesmo num caso assim, a contenção seria mais fácil. E, mais uma vez repito, os cientistas e médicos não estão tão preocupados com uma epidemia nos países desenvolvidos.

Por que será rara uma epidemia nos países desenvolvidos

Porque para matar o vírus ebola do ambiente é, na realidade, muito simples: basta álcool, vinagre ou sabão. Qualquer superfície em que uma destas substâncias é usada fica desintoxicada do vírus. O fato de não passar pelo ar também ajuda a conter um pouco mais a epidemia, ao mesmo tempo que expõe ainda mais as diferenças e problemas gritantes de saneamento básico existentes nos países atingidos, ainda neste 2014. É porque as pessoas têm contato com excrementos humanos a céu aberto que fica mais fácil contrair a doença nas zonas urbanas da Libéria, Sierra Leone e Guiné. Em última instância, era isso que precisava ter sido combatido – há muitos anos. Ou seja, mais uma vez, falhamos ao ignorar este pedaço do mundo, falhamos em preferir o estado de “negação” de que povos mais necessitados de ajuda existiam, falhamos em não ajudá-los – continuamos falhando, aliás.

Há mais um tanto de lados desta história, que só trazem mais complexidade a um assunto que já é muito complexo. Entretanto, eu paro por aqui, porque isso foram os principais tópicos de discussão durante o colóquio de que participei, e deixo para reflexão dos que por aqui passarem para ler.

Melhor saúde, sempre.

P.S.



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