Vôo cor-de-rosa e carvão

por: Lucia Malla África, Namíbia, Viagens

O dia amanhecera completamente branco. As brumas eram tão fortes e grossas naquela manhã de julho em Swakopmund (Namíbia) que da janela do hotel em que estava mal conseguia enxergar a calçada do outro lado da rua. Quiçá o oceano Atlântico ali em frente. Tentei entretanto relativizar o problema filosofando besteiras. Talvez estar nas nuvens como num vôo era uma forma da Namíbia se esconder um pouco. Para me atiçar a voltar a ela um dia… Mas nem precisava… Porque já queria voltar antes mesmo de sair de lá, né…).

Diz que tem dunas e oceano além dessa bruma… 😀

Imagem do GoogleMaps da rota do nosso vôo.

De tal forma que tomamos nosso café da manhã cedo. Então fechamos nossa conta no hotel e nos dirigimos ao aeroporto de Walvis Bay. De Swakopmund a Walvis Bay, 35 km de uma estrada asfaltada margeada de um lado pelo Atlântico e de outro pelas dunas tão lindas e inspiradoras, parte fundamental do meu sonho de visitar a Namíbia.

No nevoeiro

Tanto o oceano quanto as dunas eram, entretanto, impossíveis de serem vistas no meio do nevoeiro sem fim na manhã daquele sábado. Suspirei melancolicamente.

Chegamos ao aeroporto de Walvis Bay, deixamos a chave do carro alugado num drop-off box da locadora e nos dirigimos para o check-in com a Air Namibia. Nosso vôo sairia às 9:55am, rumo à Cidade do Cabo, na África do Sul. Meu receio estava para se concretizar. Eu não daria meu tchau final às dunas namibianas da janelinha do avião. Planejei tanto este vôo para ver estas dunas pela última vez e – parecia naquele momento – que o plano tinha furado.

Como o céu estava no momento do embarque. :O

Mas já havia também sido alertada – e passado – por tal nevoeiro nos dias anteriores na cidade. As manhãs de inverno em Swakopmund e Walvis Bay sempre amanhecem com fog, por causa da direção do vento de ar quente do deserto da Namíbia que se encontra com a brisa fresca do Oceano Atlântico durante o amanhecer.

(Esta monografia em pdf comenta mais tecnicamente sobre o fenômeno meteorológico que ocorre ali.)

E, à medida que a temperatura à beira-mar esquenta, o fog vai desaparecendo. Então, era só esperar a manhã avançar, com a temperatura esquentando, para o céu ficar limpo – lógica científica.

De modo que, às 8:30 da manhã, com a pista ainda envolta em brumas, quando o alto-falante avisou que o vôo atrasaria por pelo menos uma hora, minha reação foi a oposta da maioria dos outros passageiros: alívio. Ainda restava uma esperança.

A ciência meteorológica não me desapontou. Às 11:00 da manhã, quando finalmente começamos a embarcar, o céu estava de brigadeiro, azul e sem nenhuma nuvem sequer. E eu poderia dar um tchau apropriado às dunas de Swakopmund.

No ar

A vista do deserto começa, assim que levantamos vôo.

O avião era um jato pequeno com capacidade para 36 passageiros. Sentei na última janela à esquerda, enquanto André sentou em outra mais a frente, à direita. E voamos.

As dunas que chegam no oceano Atlântico, da janela do lado direito do avião.

No que agora passou a ser o vôo de avião mais lindo da minha vida. Porque a paisagem que brota fica rosa-alaranjada – e todos os tons e subtons variantes que você possa imaginar, num surrealismo geológico que é pura emoção e poesia aos olhos. Inesquecível.

A borda do mar de dunas é bem delimitada pelos depósitos rochosos ricos em ferro. Tudo é deserto.

Vôo sobre o deserto da Namíbia

Sobrevoamos o pedaço sul do deserto da Namíbia, parte do Parque Nacional Namib-Naukluft, em toda sua extensão de mais de 1000 quilômetros, rumo a África do Sul. A costa da Namíbia, por ser praticamente toda ela parque nacional, é das mais bem preservadas e intocadas do planeta, onde a natureza ainda é a força dominante.

Vôo rosa e carvão

Mar de dunas.

O deserto de 55 milhões de anos, certamente o mais antigo do mundo. Com suas dunas laranjas, vermelhas e rosas da longa oxidação do ferro presente em seu solo. Vistas do alto,  pelo vidro da janela do avião, as dunas parecem rosadas – e sabemos que algumas delas de perto também o são.

As “avenidas” de dunas.

O incrível e surreal Sossusvlei do alto… #morri

Vendo a magnitude do deserto de cima a gente também entende vários conceitos que os guias de turismo tentam te passar nos passeios: as “avenidas” que as dunas formam, o veio de rio seco que é o Sossusvlei, as montanhas “macias” da região sul com sua cor de carvão, aos poucos sendo “soterradas” pelo mar de dunas. Que lugar especial…

Sossusvlei das emoções rosas

Quando vi o Sossusvlei, lágrimas escorreram. Este ponto inegavelmente tão especial da Namíbia passando pelos meus olhos grudados na janelinha. Toda aquela região alaranjada-rosada e sonhada, que espiei tantas vezes no Google Maps! E que, com a iluminação do sol pelo vidro do avião, tranformara-se nesse tom rosa tão mais delicado. Vi o Deadvlei, onde me emocionara há alguns dias. Assim como o Hiddenvlei, ambos pontos brancos de sal naquele mar de cor de rosa e carvão. Das vistas mais impressionantes que já tive na vida, sem dúvida de um dos pedaços mais lindos e espetaculares do mundo.

Hiddenvlei e Deadvlei – e outros vleis… <3

As dobras do terreno… as montanhas erodidas… de uma poesia geológica imbatível. <3

Parecia brincadeira, mas bastou o avião cruzar o rio Orange, na fronteira com a África do Sul, para as nuvens reaparecerem e cobrirem a paisagem enfim.

Rio Orange, divisa da Namíbia com a África do Sul.

O dia amanhecera branco e iria terminar branco, em outra cidade de outro país – chovia em Cape Town quando lá aterrisamos. O espetáculo que o vôo sobre o deserto da Namíbia proporcionou acabara. A realidade então assumira o comando.

A viagem dos meus sonhos chegava ao fim. Mas não sem deixar uma profunda marca cor de rosa no meu coração viajante.

Ah, Namíbia! Ainda te verei de novo…

Tudo de bom sempre.

P.S.

  • Todas as fotos deste post foram tiradas – ora pois – com meu celular.
  • Meu vôo favorito de antes ainda faz meus olhos brilharem também só de imaginar sua imensidão azul… É muito vôo bonito nesse mundão sem porteira, gente! <3


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