Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

por: Lucia Malla Brasil, Geociências, Sergipe, Viagens

Estivemos em Aracaju (SE) em 2016. Aproveitamos então para visitar um lugar peculiar que há tempos eu tinha curiosidade: o Cânion do Xingó, na divisa entre Sergipe e Alagoas. O local fica a 3.5 horas de Aracaju. Apesar da distância, algumas empresas ofereciam o passeio como um day trip saindo de Aracaju. Parecia extremamente cansativo e tenho absoluta certeza que valeria mais a pena ir e ficar pelo menos 2 dias na região.

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Maravilha brasileira: o verde e vermelho dos cânions do Xingó.

Entretanto, como nossa viagem para Aracaju foi dedicada à uma mega-reunião de família e só tínhamos um dia livre para conhecer o Xingó, resolvemos encarar o day trip. Juntou-se honrosamente à aventura meu pai. Que, como bom pai de uma Malla, também adora um pé na estrada. Marcamos tudo de última hora com a Nozes Tour, agência cuja loja física ficava convenientemente próxima ao hotel Aquários na orla da praia de Atalaia Velha perto da Coroa do Meio, onde meu pai estava hospedado.

No dia do passeio

Como André e eu estávamos hospedados na casa do meu padrinho no bairro de São José (perto do centro de Aracaju), a van da empresa do passeio combinou de nos pegar às 7 da manhã no terminal hidroviário da cidade, em frente ao Mercado de Artesanato. Quando entramos na van, meu pai já estava lá. Afinal, fora o primeiro a ser coletado devido à proximidade de seu hotel. Éramos no total 7 pessoas fazendo o passeio naquele dia.

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Manteiga de garrafa, hmmmm…

A van seguiu pelas rodovias sergipanas rumo ao interior. No caminho, o guia-motorista foi instrutivo, fez diversas intervenções curiosas, contando algumas histórias sobre o Xingó, sobre Sergipe, Lampião e afins. Fez questão de mencionar, quando passamos por Itabaiana, que esta é a cidade auto-intitulada por um decreto do governo como a “Capital Nacional do Caminhão”. Como o trajeto Aracaju-Xingó é longo, ali perto de Itabaiana fizemos uma parada num posto de gasolina para esticar as pernas. E, no meu caso de semi-gringa, admirar as manteigas de garrafa (aaaaa….) e comer coxinha. 😀

No sertão sergipano

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Pelo sertão sergipano.

À medida que a van se adentra no estado, a paisagem vai mudando. Estamos no sertão.

Ah, o sertão! Este ecossistema árido cheio de histórias e eventos interessantes, marcantes. Na minha cabeça, parecia que me aproximava de uma cena de “Os sertões”, de Euclides da Cunha. Que é, aliás, um dos meus livros prediletos de todos os tempos. Bateu também uma nostalgia dos tempos de adolescência devorando Graciliano Ramos.

Em Canindé de São Francisco

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Finalmente chegamos a Canindé do São Francisco. É desta cidade que saem os passeios de barco para o cânion do Xingó. Em Canindé ficava o rio Canindé, que era seco, no fundo do cânion. Quando a construção da represa da usina hidrelétrica de Xingó terminou e o reservatório de água da mesma se encheu com a água do rio São Francisco, criou os cânions que hoje vemos. Onde antes era o leito seco do Canindé. Com a água da represa ao redor, os cânions parecem ganhar vida. Um impacto de sua geologia sedimentar tão bela, com um contraste de cores entre cânions, água e vegetação espantada da caatinga que transformaram esta intervenção humana à natureza num cartão postal de qualidade do turismo da região.

A primeira parada da van em Canindé é numa pracinha com uma loja de souvenirs às margens do rio São Francisco – exatamente no local onde um ator da Globo se afogara poucos meses antes da nossa visita. Era a única a não me recordar de tal notícia, por sinal. O rio ali me pareceu cheio de redemoinhos, com corrente forte, muito perigoso mesmo.

Paradoxo Lampião

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Na pracinha, duas estátuas homenageavam os famosos da cidade: os cangaceiros Lampião e Maria Bonita. A história de Lampião e Maria Bonita se mistura com a história do sertão. Afinal, eles são por excelência o símbolo dessa vida dura e árida que a vegetação da caatinga incita.

Sinceramente, por mais famosos que ambos sejam, fico com mixed feelings em celebrar alguém com um passado tão controverso. Tenho plena noção da importância histórica da figura de Lampião e de Maria Bonita no cangaço, principalmente naquele período conturbado da história do Brasil. O quanto sua sobrevivência naquele ambiente árido era já um ato de heroísmo na visão de muitos. Também sei que hoje, com a distância do tempo a seu favor para romancear e mistificar sua pessoa, muitos consideram Lampião como um certo “Robin Hood” do sertão.

Mas minha avó cresceu em Sergipe. Contou-me portanto histórias de Lampião e seu bando horripilantes que se lembrava dos seus tempos de criança. E é disso que me recordo sempre ao ouvir seu nome. A impiedade e crueldade com que de fato, nas palavras da minha avó, ele respondia aos desafios.

O barco animado

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Controvérsias à parte, estava ali para ver o cânion. Chegamos ao portinho nas margens do lago da represa de Xingó, onde estava atracado o catamarã do passeio. A área tem uma boa estrutura, com um restaurante e um pedaço do rio cercado para banho. Embarcamos enfim no catamarã.

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Nosso guia era animado…

Logo começou uma música alta, que não parou enquanto estávamos no passeio. A animação é boa, mas por outro lado, curto natureza com silêncio também. Me lembrei, decerto nostalgicamente, do passeio que fiz pelo Doubtful Sound na Nova Zelândia. Naquele passeio, o barco desligou o motor para ouvirmos melhor os barulhos da natureza. Com aquela música, entretanto, seria impossível tal experiência do ambiente natural. Oh well.

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

 No Cânion do Xingó

À medida que o barco cruza o lago, o trajeto vai se estreitando. Os penhascos laterais do cânion são realmente espetaculares, com uma coloração incrível, diversos tons de amarelo, laranja e vermelho.

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Detalhe do solo de arenito dos cânions, com encrustrações de granito.

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Acariciados ao topo pela vegetação esbranquiçada da caatinga e banhados pelo verde do rio São Francisco, formam uma paisagem lindíssima, inesquecível. Meu pai, André e eu estávamos impressionados.

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

A caatinga do topo dos cânions.

No cânion, diversos pontos são reconhecidos pelo guia que comenta o passeio. No Grupo do Talhado, formação rochosa na região mais ao fundo do cânion, fica a Gruta do Talhado. Ali, uma estátua de São Francisco está acessível por uma escadaria de metal.

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Gruta do Talhado.

Sem mergulho

No dia do nosso passeio, estava rolando um imbroglio entre os IBAMAs de Alagoas e Sergipe. Por causa da jurisdição das águas onde se toma banho no cânion. Por isso, a licença para nadar no cânion estava suspensa. Como o cânion fica na fronteira entre os dois estados, havia contudo uma disputa por onde efetivamente estava esta área (que significava quem lucraria com esta licença). Não pudemos cair na água, infelizmente. Mas vimos o “cercadinho” onde as pessoas normalmente nadam no cânion. Deve ser uma experiência legal, mas vai ficar pra nossa próxima vez ali. 😉

Cânion do Xingó

Onde supostamente iríamos nos banhar. #SQN

O cânion tem 65km de extensão, e depois de 3 horas de barco, ele retorna ao porto inicial. Ali, almoçamos no buffet delicioso e farto do restaurante, tomamos um banho nas margens deste lago do rio São Francisco  e nos preparamos para encarar a volta de van até Aracaju. Que foi tranquila, com uma parada para comer doce na beira da estrada e ver o pôr-do-sol maravilhoso na caatinga.

Era o fim de um dia de passeio por um recanto especial desse Brasil que a minha vó tanto amava. Só posso imaginar os comentários que ela faria a cada quilômetro da estrada. Além das áridas histórias da vida com o sol a pino, em casas de pau-a-pique com poucas nuvens no céu.

Um dia de passeio e nostalgia no Cânion do Xingó

Mandacaru no sertão sergipano.

Quando cheguei à noite de volta a Aracaju, suspirei de saudades dela.

Tudo de bom sempre.

Para saber mais sobre o Xingó

  • Procurei bastante informações detalhadas sobre a geologia da região. Achei dois artigos sobre a geologia do estado de Sergipe, relativamente aprofundados sobre os cânions. Estes cânions são de arenito com encrustrações de granito. Mas acho também que a região ainda carece de mais estudos. Esta é, afinal, uma brecha do conhecimento quicando para ser aprofundada por um grupo de pesquisa no Brasil…
  • O passeio de um dia pelo Xingó saindo de Aracaju vale a pena se você, como eu, não tem mais tempo meeesmo para visitar a região. Mas se você tem pelo menos um diazinho a mais, vale ficar em Canindé de São Francisco ou em Piranhas (AL) para aproveitar outros destaques da região. Ou então fazer um trekking na caatinga. Senti falta de ver bichos numa trilha, pra ser sincera.
  • A usina de Xingó é a quarta maior geradora de energia hidroelétrica do Brasil.
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