Overbooked – A indústria do turismo na lupa

por: Lucia Malla Livros, Turismo

Não é novidade alguma que gosto de fazer no blog reflexões e indagações sobre os rumos da indústria do turismo. De turismo sustentável e seu preço, passando pelas responsabilidades do turista e o peso da China para o futuro da indústria de viagens. De vez em quando, por certo, organizo minhas mallices em um post. Por ser um tema que me interessa bastante, fiquei curiosa quando me recomendaram o livro “Overbooked – The Exploding Business of Travel and Tourism”, de Elizabeth Becker.

A autora de Overbooked

Overbooked - a Indústria do turismoElizabeth é uma jornalista – premiada. Portanto o livro é uma compilação jornalística das suas pesquisas e observações sobre o turismo. E são muitas pesquisas: dados, estatísticas, entrevistas com pessoas do trade, de NGOs e do governo, trabalhos de campo. A partir desta pesquisa, expõe uma miríade de aspectos e facetas de alguns destinos fortes (e exauridos) pelo turismo, como Veneza e a França. Além disso, analisa detalhadamente alguns tipos de turismo polêmicos. Por exemplo, o turismo médico na Tailândia, México e Filipinas. Ou o turismo sexual no sudeste asiático. Ou o dark tourism que incentiva visitas a locais de genocídios e afins. E ainda o turismo artificial dos Emirados Árabes. Mas foca principalmente no turismo de massa, representado pelos cruzeiros no Caribe, pela China e pelos EUA. Usa estes exemplos para montar um panorama global muito profundo da indústria.

O livro é excelente. Mas fica bem claro onde está o expertise da autora. Principalmente, onde ela está apenas arranhando a superfície do assunto. Ao falar em um capítulo sobre as hordas de turismo em Siem Reap e Phnom Penh no Camboja, Elizabeth está em casa. Afinal, ela foi correspondente responsável por expôr ao mundo ocidental algumas das crueldades da ditadura Khmer. Posta suas críticas, portanto, com bastante conhecimento e autoridade tanto do destino quanto dos aspectos da cultura de turismo que o país adotou. Deixa uma dica preciosa e contextualizada neste capítulo ao criticar o volunturismo:

If you want to make a monetary contribution to the poor, you should tip generously.”

Turismo sustentável ingênuo

Já quando discute a Costa Rica como super-potência ecoturística, pisa em muitos ovos. Fornece um relato, aliás, quase ingênuo, sobre um cruzeiro ecoconsciente feito com a agência da National Geographic. Mas mesmo essa “ingenuidade” em alguns momentos não compromete o livro. Pelo contrário, enriquece, com espaço para boas reflexões.

“How can some of these places pretend they are green? Building more hotel rooms that use less air-conditioning; that’s not green, it’s using less energy. Being green is much more than that.”

“You don’t see any difference anymore between one place and another. It’s easier to build that way and provide standard service. But how can you preserve a sense of place and culture? The complexity of the tourism industry works against sustainability. […] Behind the phrase “sustainable tourism” is the wish to keep all of the intriguing messy and exotic differences in the world, […] to avoid a world that looks the same.”

“Sustainable tourism has to be created in “each originating market”, or the homes of the tourists. In other words, educate the tourists and the companies they use to travel.”

Elizabeth veste a carapuça do turista “de verdade”. Ou seja, aquele que visita um ponto pela primeira vez e faz observações cristalizadas sobre o destino. Observações estas afastadas da complexidade do contexto maior a que sempre estamos envoltos. Ao fazer isso, Elizabeth permite que o leitor entenda primordialmente as facetas do seu papel como consumidor dentro da gigantesca indústria do turismo. Porque, claro, ela faz estas observações ingênuas. Mas não se esquece de argumentar com dados e entrevistas. Enfim, é seu trabalho de pesquisa jornalística. E expõe sem muito julgamento as contradições e possibilidades do turismo em uma região. Isso é priceless.

As críticas ao jornalismo de viagem

Elizabeth também não poupa críticas ao jornalismo de viagem. Está, afinal, apoiada por uma análise histórica deste segmento e do quanto isto influencia/influenciou os rumos de alguns destinos. A autora deixa subentendida sua posição através da ênfase e análise que faz das palavras de alguns de seus entrevistados:

“If you take ethics seriously, the same policies that cover news gathering have to apply to travel coverage. […] Free travel is not acceptable. […] The line between a tourist pamphlet and a travel piece is far too fuzzy. I don’t know if it’s a cultural mindset that takes hold so you only write good news stories. If you were looking at it cynically, it is a conspiracy of silence.”

O capítulo que achei menos interessante do livro foi o que discutiu as possibilidades infinitas do turismo do Sri Lanka após o fim da guerra que acometia o país e do tsunami de 2004. Já os capítulos que mais me instigaram foram sobre a maturidade da França no turismo. Além do exemplo oposto, a infância da China. A China, por certo, é o futuro do turismo mundial, em termos quantitativos que determinarão os qualitativos. Ao falar sobre a China:

“Tourism can’t be neutral in the face of the polluted air, water and landscape. […] China presents you a vivid picture of what happens if that travel isn’t well managed with the future in mind. […] Tourism has helped spread the image of China as a new, modern nation. […] The stakes are equally high for foreign countries that are counting on the Chinese tourists to improve their business futures by traveling abroad in great numbers and spending equally large sums of money. If the Chinese get it right – if they figure out the right balance – then tourism is great. If the Chinese get it wrong, we’re all cooked.”

Overbooked - a indústria do turismo na lupa

O papel do governo no turismo

Outro aspecto da indústria do turismo que salta aos olhos é a importância do governo para o sucesso ou falência desta indústria. Nas palavras de Elizabeth:

“The best and the worst of tourism have governments at the center.”

Um governo comprometido com o turismo é parte necessária do sucesso desta empreitada. Porque este sucesso se espalha e reflete em outros aspectos da sociedade, como saúde, empregos, qualidade de vida, etc. Ou seja, traz benefícios generalizados. E problemas generalizados também, que requerem a mão do governo para regulamentar. Como por exemplo para determinar limites de visitantes ou o orçamento para infra-estrutura de transporte de um destino. O turismo para alguns políticos ainda é visto como uma indústria “menor”. Quase um passatempo dentro do cenário orçamentário, enfim. Nestes casos, a ausência de governo é igualmente notada quando o turismo degrada e prejudica um destino.

O exemplo do turismo nos EUA

Todos os exemplos analisados de destinos no livro reforçam claramente o papel do governo para uma indústria turística vencedora e sustentável. Mas nenhum é mais espantoso que o dos EUA, que (surpresa para mim) não tinha uma política clara para o turismo até 2009. Neste ano, os EUA finalmente decidiram “entrar no jogo”. Criaram então o Brand USA, uma organização de marketing para promover o turismo no país. O Brand USA é, primordialmente, regulamentado a nível federal.

Além disso, passaram no Congresso Nacional o  Travel Promotion Act. Por enfatizar sua política anti-terrorismo deixando de fora aspectos relevantes para a indústria do turismo, os EUA perderam US$94 bilhões entre 2001 e 20011. Também contribuíram para esta perda detalhes como funcionários mal-humorados na fronteira que dificultam (e espantam) o turista e a crise econômica de 2008.

Conclusão

Poderia ficar aqui horas e horas escrevendo sobre outras partes que me impressionaram do livro. Como por exemplo a descrição dos cambalachos e absurdos da indústria de cruzeiros. Ou a faca de dois gumes que a designação “Patrimônio Mundial UNESCO” traz para um destino. Porque o livro é cheio de complexos dilemas de turismo que instigam qualquer viajante mais perceptivo a ficar com pulgas atrás das orelhas. Mas prefiro finalizar com um comentário que Elizabeth de vez em quando salpica no livro. E salpica como se quisesse que o leitor realmente incorporasse esta ideia a qualquer custo.

“Travel cannot be outsourced.

[…] tourism is the rare industry that will never be replaced by factories in Vietnam or by IT Centers in India […], and another reason why the […] government should invest time and energy in it.”

[…] which is why cities are fighting over the […] business.”

Overbooked me deixou com a boa sensação de ter aprendido e refletido na medida certa sobre o tema a que se propõe. Elizabeth Becker soube dosar com muita precisão sua experiência pessoal com as alfinetadas. No final, ainda construiu um panorama robusto, crítico, equilibrado e fascinante do turismo mundial. Deixou também mais um monte de #FoodForThought para a gente observar e refletir mais na próxima viagem.

Tudo de bom sempre.

P.S.

– Pois deixo meu agradecimento especial à Gaia Passarelli pela indicação da entrevista, que me levou a ler este livro. 🙂



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