Os blogs não morreram

por: Lucia Malla Blog, Blogosfera & mídia social, Mallices

Eis que o ótimo condomínio de blogs ScienceBlogs Brasil completa neste mês 10 anos de existência científica pela blogosfera brasileira. Parece que foi ontem que escrevi um post sobre o nascimento do SBB! Parabéns aos idealizadores e aos blogueiros do condomínio pelos 10 anos de divulgação científica!

Para comemorar, o pessoal do SBB decidiu organizar uma blogagem coletiva (que vintage!) durante o mês de julho/2018, com um tema diferente a cada semana, e convidar quem quiser a participar. E nesta primeira semana de aniversário, o tema ~provocante~ é…

Os blogs não morreram

Os blogs morreram?

Acho que a primeira vez que li a frase “os blogs morreram” foi em 2005, na época áurea dos blogs, e ironicamente em um blog. Aponto isso apenas para dizer que desde sempre se matam os blogs – e parece que os blogs, feito highlanders, continuam de alguma forma existindo… 😀

(E basta dar uma olhada na página da ABBV – cujo layout novo está lindão – para vermos que o universo da blogosfera, pelo menos a de viagem, continua firme e forte.)

De qualquer forma, também é inegável que os blogs se modificaram bastante. Ainda em 2012, lembro de discutir aqui no blog sobre como a era dos “blogs que são conversações” já respirava com a ajuda de aparelhos. Afinal, já não se conversava tanto e uma incômoda sensação de se falar sozinho foi tomando conta de muitos blogueiros. (Mas não desta blogueira que vos fala que mesmo na vida real, como filha única, sempre falou muito sozinha, organizando pensamentos. Até aí, falar sozinho através da escrita… nada de novo no front.)

Se antes os blogs tinham um pesado componente de diário pessoal associado à possibilidade de diálogo na caixa de comentários, hoje sinto que se tornaram prioritariamente um depósito de conteúdo mais elaborado, que não cabe (ou não se quer caber) nas redes sociais. Mas nesta transição de diário para depósito, interessantemente acredito que a ferramenta blog se valorizou – é, eu não consigo ser pessimista com o futuro dos blogs. Mas se valorizou como?

Primeiramente, pelo fato de que o conteúdo que se guarda se escreve num blog pertence a seu autor e não a uma empresa bilionária do vale do Silício. Isto traz ao blogueiro uma autonomia intrínseca que é libertária, e que mantém a principal característica que define um blog: é liberdade. A única forma que vejo de matarmos os blogs é quando a empresa WordPress der com as botas. Nesta possibilidade, a blogosfera como conhecemos sofrerá um genocídio. Mas até neste caso, ainda acredito que alguns blogs highlander sobreviverão por estarem desconectados desta plataforma – e o genocídio blogueiro abrirá espaço para outras plataformas de publicação de textos aparecerem ou se ressaltarem. E o ciclo se reinicia.

Segundo, como o blog se distanciou de muitas polêmicas – que se transferiram pros textões do facebook, pros vídeos do youtube e pras imagens do instagram -, a ferramenta de uma certa forma se neutralizou e se tornou o ambiente perfeito para descanso virtual. E eu adoro uma rede para me descansar… #punintended

Portanto, em tempos de overload de informação e um noticiário dominado por negatividade, minha escolha pessoal nas horas vagas da internet é ler blogs, para me distanciar dos gritos polêmicos e da superficialidade que assola as pairagens das mídias sociais. Porque ainda quero ler opiniões e reflexões interessantes e bem argumentadas, sem gritos – e neste quesito, os blogs ainda ganham de todas as demais plataformas, em minha opinião, por oferecerem o espaço e a liberdade necessárias para a elaboração argumentativa.

E é esta liberdade editorial, característica principal da ferramenta blog, que acredito ser o terceiro componente de maior valorização na atualidade. A possibilidade de se falar qualquer tema, de ser espontâneo, de se jogar ideias e levantar questões sem levantar a poeira para toda a sua teia de contatos, apenas para aqueles que desejam ser incitados por estas questões e te acham pelo google… esta liberdade é um alívio em tempos de condomínios fechados. Mostra pelo contrário o quanto os blogs, mesmo que mais caladinhos e muito mais calmos, estão vivos, numa contínua revolução vitoriosa.

Encerro com uma reflexão escrita em 2013, por causa de um bereteio randômico de 2007, quando escrevi neste post:

“A chave da sobrevivência é, como na biologia clássica, mutação. Um blog sofre mutações ao longo do tempo. E muda, seja esteticamente ou filosoficamente ou em seu tom, a cada nuvem radioescritaativa que paira sobre ele. Porque a pessoa que o escreve muda ao longo dos anos. Eu já penso tão diferente em tanta coisa daquela que começou a escrever em 2004… a essência de mim é a mesma, mas há as nuances, e diria que quase todas estas nuances sofreram mutações no processo evolutivo de existência deste blog. Somos alterados diariamente pelo ambiente ao redor, chamados a nos adaptarmos cada vez mais.”

Não escondo que este blog é vintage, como me disse o Riq Freire. Que ainda gosto muito de blogar, da oportunidade de elaborar meus pensamentos e fotos em um espaço onde sou a única editora, desde o início, desde sempre. Que ainda vejo valor no conhecimento compartilhado. Que adoro receber os comentários e emails dos amigos e leitores. Que ainda suspiro quando leio e releio as memórias que os posts trazem. Que sorrio quando percebo quem eu fui e no que me transformei ao longo destes 14 anos escrevendo em blogs.

Continuo vendo apenas mutações e adaptações neste blog biológico-viajante: a escrita que é veículo de compartilhamento de conhecimento e ideias na busca de um processo evolutivo pessoal e profissional – que está sempre acontecendo.

Tudo de bom sempre.

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  • A blogagem coletiva do ScienceBlogs Brasil é voltada à discussão científica. Para quem quiser participar dela, segue a lista de temas de discussão.

Mas se você quiser dar seu pitaco de não-cientista… será mais que bem-vindo! Diversidade de perspectivas, aliás, é parte da liberdade que os blogs permitem. 😉



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