Cinco dias de sonho na Namíbia

por: Lucia Malla África, Namíbia, Outros Roteiros da Malla, Viagens

Quando decidimos incluir a Namíbia no nosso roteiro pela África, sabíamos desde o início que nosso tempo no país seria curto. A oportunidade de viajar literalmente pro outro lado do mundo* era rara. Além do mais, queríamos fazer tanta coisa e realizar tantos sonhos. (*Se cavarmos um buraco cortando pela Terra saindo de Honolulu onde moramos, chegamos afinal na fronteira entre Botswana e Namíbia.)

Mas a Namíbia era um sonho muito muito muito especial meu. Desde a infância. Cogitar ir para a África pela primeira vez e não incluir este país era inegavelmente um pecado mortal. De modo que decidimos que íamos visitar a Namíbia, mesmo que por poucos dias, para ter um gostinho do país. Foi a decisão mais acertada que tomamos.

Namíbia em 5 dias

Cinco dias na Namíbia

Árvore “de cabeça pra baixo” (Aloidendron dichotomum), suculenta do sul da Namíbia.

Já aviso: na minha opinião, a Namíbia merece muito mais que cinco dias. E merece que voltemos para ver mais e mais, enfim. Mas infelizmente nesta primeira viagem cinco dias inteiros era tudo que tínhamos. Tivemos então que fazer uma baita limonada dessa constatação limão-ácido.

Eu já estudava/namorava o país há décadas. Então sabia exatamente os dois lugares que eram absoluta prioridade: o Sossusvlei e as dunas de Swakopmund. Estes foram os primeiros locais a me encantar e inspirar meu sonho de visitá-la. Portanto, os dias na Namíbia foram todos planejados ao redor destes dois pontos.

Deixo aqui nosso roteiro de CINCO DIAS NA NAMÍBIA, para quem quiser aproveitar e se inspirar pelo país. Há roteiros mais abrangentes? Com toda a certeza. Mas este foi o que planejamos dentro do pouco tempo que tínhamos e considerando os lugares que priorizamos. Enjoy.

INFORMAÇÕES GERAIS

Quando fomos

Viajamos no início de julho, que é o mês mais seco do ano. Nesta época, praticamente não chove e os dias são quase sempre azuis. Recomendo muito visitar o país nos meses secos (de maio a agosto). Nesta época, a falta de chuva e de água tende a concentrar os animais ao redor das poucas fontes de água existentes.

A época seca também é a época mais fria. Neste período, as temperaturas no deserto de manhã cedo e à noite chegam perto de zero. No meio do dia, o calor é de deserto. Portanto o mais funcional é se vestir em camadas, com um casaco grosso por cima.

Abre alas que o órix (Oryx gazella) pede passagem…

Aluguel de carro

A Namíbia é um “país 4×4”, cortado por estradas de terra e/ou cascalho e/ou areia. São apenas 3 rodovias principais asfaltadas, reconhecidas por começarem com a letra A ou B. As estradas que levam aos principais pontos turísticos do país são de cascalho/areia (cujos nomes começam com C ou D). Nos fóruns que li, as pessoas acima de tudo reforçavam o quanto era fundamental alugar um carro 4×4.

Importante: estrada A > estrada B > estrada C > estrada D.

Estrada C típica da Namíbia.

Outra informação sobre carro: prepare-se psicologicamente para um pneu furado em algum momento. Muitos dizem que é impossível sair da Namíbia sem ter pelo menos uma vez furado um pneu. Nós não furamos, mas paramos na estrada para ajudar um grupo a trocar pneu. O cascalho da estrada é pedreira. Portanto, as chances de se danificar pelo menos um pneu são altas. Investir num seguro melhor também não é uma má ideia.

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Prepare-se para comer poeira

A poeira também é constante, principalmente nos meses secos. Aliás, a Namíbia não sai de você depois que você a deixa, literalmente. Quando chegamos em casa, desarrumando as malas, ainda assim havia em todos os recantos da nossa bagagem muita poeira das estradas, entranhadas nas roupas, sapatos, em tudo. Não me incomodo com poeira de estrada, mas sei que muita gente não curte. Então é bom avisar.

Celular

Logo que cheguei no aeroporto de Windhoek, comprei um chip local da MTC. Na maior parte dos fóruns que consultei, esta era por certo considerada a melhor operadora do país. Ainda assim, a cobertura não foi completa. Prepare-se para muitos pontos mudos, principalmente nas áreas desertas do país (que são a maioria).

Uma informação interessante: o dinheiro sul-africano é aceito na Namíbia. Portanto, não há necessidade de trocar de moeda se você vem (ou vai) pra África do Sul.

Dia 1 – Chegada na Namíbia: Windhoek e Ida para o Sossusvlei

Voamos de madrugada de Johannesburgo para Windhoek (fala-se “vind-hôk”), vindos do Kruger, pela Air Namibia. Chegar de manhã cedo era uma prioridade, para que pudéssemos dirigir até o Sossusvlei durante o dia.

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Do avião ainda, vemos o desertão que o país é. A sensação é de que pousaremos no meio do nada. Afinal, Windhoek, a capital do país, é ainda uma cidade pequena de ~200 mil habitantes.

Depois de passarmos a imigração, comprarmos chip pro celular e pegarmos nosso SUV alugado, saímos rumo à cidade pela rodovia B6 (asfaltada). Queríamos, entretanto, abastecer de comes & bebes nossa road trip do dia até o Sossusvlei. Paramos no Checkers Klein, um supermercado na entrada de Windhoek. Ali enfim tomei um café rápido e compramos biltongs.

Pelas estradas de cascalho da Namíbia

Na estrada para o Sossusvlei.

Pegamos a rodovia B1 em direção a Rehoboth, o que levou aproximadamente uma hora de percurso asfaltado. Na estrada, uma quantidade absurda de baboons cruzavam pra lá e pra cá.

Em Rehoboth, pegamos a estrada nessa ordem:

C24 -> D1206 -> um pedacinho curto da C14 -> D854.

Nosso lodge no Sossusvlei ficava na D854. Este trajeto era de aproximadamente 3 horas, pelo Google Maps. Raríssimo ver um carro passando. Era nosso primeiro contato com a estrada de terra da Namíbia e a estrada extremamente vazia aliada ao cenário desértico-montanhoso espetacular davam a sensação deliciosa de expansão. Mas também percebemos porque estes cálculos de tempo do Google poderiam ser beeeem relativos: logo paramos para ajudar um grupo de alemãs a trocar o pneu da van delas. Depois da ajuda de mais de 1 hora, seguimos viagem.

Hospedagem na região do Sossusvlei

Dica: Comece o planejamento de sua viagem à Namíbia marcando o hotel na região do Sossusvlei. Há pouquíssimas opções ali. Ainda mais, a região está o ano todo lotada de visitantes. Se você não quer ficar super-longe do parque, é melhor garantir com bastante antecedência sua estadia.

Nossa hospedagem para visitar o Sossusvlei era o Elegant Desert Lodge. Este lodge antes se chamava Betesda e ainda consta em alguns mapas com este nome. O Elegant Desert não fica tão perto assim do parque. A razão de ficar ali, entretanto, era simples. Foi o único lodge onde consegui vaga no período da nossa viagem. (Todos os outros já estavam ou lotados ou não ficavam tão perto assim. Minha primeira opção era ficar no bacanérrimo Le Mirage, pois dele saía nosso passeio de balão no dia seguinte.)

O hotel foi muito bom, com uma vista da janela sensacional e um ótimo café da manhã. Mas a distância do parque foi um ponto negativo, pois tivemos que dirigir demais naquelas estradas de cascalho.

A zebra das montanhas de Sesriem.

Sundowner

Assim que chegamos no lodge, depois de um dia cansativo de estrada, pegamos um passeio de Sundowner, que o próprio hotel oferecia. Foi uma ótima pedida para dar uma relaxada no fim do dia e admirar um belíssimo primeiro pôr-do-sol no deserto da Namíbia. Recomendo muito. <3

O Sundowner é um passeio de ~2 horas. Fomos guiados pelo Brave Burk, que nos levou ao topo de um morro para termos uma vista de cima da região. Ao longe, as dunas coloridas do Sossusvlei. Na beira da estrada, zebras da montanha – são uma espécie diferente das que rondam pelo Kruger. Lá em cima, drinks variados. Brindamos com champanhe ao nosso primeiro dia na Namíbia, que começava com chave de ouro.

O primeiro pôr-do-sol na Namíbia a gente nunca esquece.

Dia 2 – Deadvlei e Sossusvlei

Este foi um dia histórico para mim, de muitas emoções.

Acordamos de madrugada e fomos primeiro fazer o passeio de balão para ver o Sossusvlei, detalhado neste outro post do blog.

No Parque do Sossusvlei

Eram aproximadamente 11:00 da manhã quando nos encaminhamos para o Parque do Sossusvlei de carro. A entrada custou 10 dólares namibianos por carro. A estrada que leva do portão do parque ao Sossusvlei é de ~60 quilômetros, das poucas asfaltadas na Namíbia. Portanto, dá pra fazer o trajeto mais rápido.

Repare no tamanho dos carros na parte de baixo da foto em comparação à altura das dunas. :O

Mas é claro que você vai querer parar pelo caminho. Afinal, há pontos importantes no trajeto. Como a placa comemorativa da UNESCO que anuncia este parque como patrimônio da humanidade. Ou a perfeita Duna 45… Fora as tantas dunas lindas, órixes a esmo e tonalidades sensacionais de cada lado. De tal forma que é até um pecado não dar uma paradinha para respirar fundo e se deixar absorver pela paisagem surreal. Meus olhos não paravam de lacrimejar de emoção.

A estrada de areia que leva ao Sossusvlei.

Quando a estrada acabou, chegamos numa área aberta de areia. Deixamos o carro e pegamos eventualmente o traslado de jipe. O jipe nos levou até o início da trilha do Deadvlei e do Sossusvlei. Escolhemos ir primeiro ao Deadvlei.

Meu sonho realizado: o Deadvlei

Deadvlei: paisagem singular e surreal do mundo.

Do ponto final até o Deadvlei (ao sul) é pura trilha de areia alaranjada. Uma caminhada de uns 30 minutos pelo menos, com tranquilidade. Mesmo com o sol a pino, não senti o calor nem muito cansaço. Mas talvez fosse meu êxtase de estar ali, já que a adrenalina não me deixou ficar cansada.

O Deadvlei é, sem dúvida, o ponto mais incrível, surreal e espetacularmente fotogênico de todo o parque – quiçá da Namíbia. Talvez do planeta. Era um pequeno pântano que acumulava água do rio Tsauchab. Há uns 700 anos, com uma mudança do clima na região, as dunas “sufocaram” o pântano, que secou. Do alto de seus 300-400 metros de altura, estas dunas são consideradas as mais altas do mundo. As árvores morreram de sede e o sol incandescente aliado à aridez do deserto deixou ali apenas o fundo de sal e os troncos retorcidos, monumentos naturais à decomposição final.

No Sossusvlei

Sossusvlei e Big Daddy.

Depois de passar algumas horas de sonho no Deadvlei, fomos então ver o Sossusvlei, que fica do outro lado da “estrada” de areia. Ali, as árvores ainda vivem, por alcançarem um filete do lençol freático do rio que ainda corre por debaixo da terra. Vigiando o Sossusvlei, a imponente duna Big Daddy, outra visita obrigatória. Algumas horas a mais são necessárias para respirar toda a poesia da paisagem espetacular do deserto mais antigo do mundo. Uma bela maneira de terminar mais um dia sensacional na Namíbia.

(Se você não estiver hospedado no Sossusvlei Lodge ou no acampamento do parque, você precisa estar no portão de saída às 17:15 – é a hora em que o portão fecha. Os hóspedes do Sossusvlei Lodge têm uma hora a mais dentro do parque, todos os dias.)


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Dia 3 – Solitaire e Ida para Swakopmund

Acordamos cedíssimo para não perdermos o amanhecer na planície desértica que nos rodeava no hotel. A iluminação natural perfeita valeu cada segundo sem dormir. Depois do café da manhã reforçado e do check-out do hotel, pegamos a estrada C19 rumo a Solitaire.

A vista do quarto do hotel em que ficamos ao amanhecer.

Como este pedaço de estrada margeia o limite do Parque de Namib-Naukluft, é incrível ver pela janelinha do carro a história geológica da região passar. Das dunas vermelhas e laranjas pela imensa quantidade de ferro surgem aos poucos rochas aparentes, depois alguma vegetação… Até que o vermelho desaparece e dá lugar a um plateau amarelo e branco já perto de Walvis Bay, de pura deserção.

Na estrada para Solitaire.

As paisagens do caminho são espetaculares e a vontade de parar muitas vezes para fotografar é imensa. Rola inclusive um sensory overload. Entretanto, a viagem de Sesriem para Walvis Bay e Swakopmund é longa e deve ser feita durante o dia, pelas condições capenguíssimas da estrada. Portanto, maneire nas paradas fotográficas. E prepare um dia inteiro dirigindo.

Em Solitaire

Solitaire é literal: um solitário ponto de meio de estrada, com um posto, uma vendinha onde se acha de tudo, um restaurante e uma padaria. Carros velhos em estado avançado de decomposição pontuam a paisagem. O vilarejo parece estar séculos atrás, saído de um filme de velho oeste americano. Parado no tempo e espaço num local inóspito à sobrevivência. Apesar deste ambiente hostil, cerca de 100 pessoas habitam as redondezas do lugar.

É fundamental parar em Solitaire para encher o tanque do carro – o próximo posto de gasolina está apenas em Walvis Bay, a ~260 km de distância. Depois do tanque cheio, a estrada C14 continua, com mais paisagens amplas, vazias e surreais. É um uau atrás do outro. Em certo momento, cruzamos o Trópico de Capricórnio – outra parada divertida da estrada. A C14 também corta dois cânions, num pedaço bastante sinuoso e perigoso para dirigir.

Walvis Bay e a Duna 7

À medida que nos aproximamos de Walvis Bay, a paisagem foi ficando mais plana. As dunas amarelas costeiras começaram a aparecer. Logo na entrada de Walvis Bay, fica a Duna 7, uma área de piquenique popular entre os moradores da cidade. Era meio da tarde e decidimos esticar as pernas depois de tanto dirigir subindo a imensa duna para apreciar a visão. Areia a perder de vista. A descida é mais divertida e pode ser feita de esquibunda.

Uma Malla subindo a Duna 7.

Nosso destino final do dia era Swakopmund, na costa. A cidade fica a 35km de Walvis Bay, por estrada de asfalto. Portanto, chegando em Walvis Bay já estávamos praticamente “em casa”. Swakopmund era um dos lugares que mais sonhava conhecer no mundo. Então, dirigindo pela estrada costeira, entre o Atlântico e as dunas gigantescas, meu coração cada vez mais sorria.

As dunas de Walvis Bay e Swakopmund.

Onde ficar e onde comer em Swakopmund

Em Swakopmund, hospedamo-nos no Beach Hotel, que fica no final da praia. Um hotel bacaninha e confortável, sem frescuras. Estávamos celebrando a chegada na cidade dos meus sonhos, e todos os caminhos nos levaram ao The Tug, um restaurante na beira-mar que é construído metade dentro de um barco rebocador.

The Tug, o rebocador-restaurante.

Aquela região de Walvis Bay/Swakopmund é famosa pela criação de ostras. O que confirmei assim que as primeiras foram praticamente se derretendo na minha boca. De sobremesa, pedi uma Namaklava, que era contudo uma baklava namibiense com amarula.

Ostras na Namíbia.

Dia 4 – Passeio ao Pelican Point e Sandwich Harbor

Boa parte do planejamento desta viagem à Namíbia foi dedicada a este dia de passeio. Afinal, se tivesse que ranquear entre as paisagens que mais queria conhecer, o encontro das dunas de Swakopmund com o Atlântico estaria em primeirão.

Depois de muita procura pela internet, montei o seguinte roteiro: pela manhã, iríamos fazer um passeio até o Pelican Point, uma península onde vive uma colônia de milhares de focas do Cabo. À tarde, iríamos até o Sandwich Harbor, que fica no caminho das famosas dunas da propaganda que me inspirou a sonhar com a Namíbia.

Passeio no Pelican Point

O dia amanheceu com muito fog (como é comum em Walvis Bay). O caminho margeando a baía foi todo meio nebuloso. A Península de Pelican Point fica a uns 40 minutos do centro de Walvis Bay. O caminho é bem arenoso, requer um jipe ou 4×4 para chegar lá. Nosso passeio foi feito com a Pelican Point Kayaking e nosso simpático guia foi o Jens.

Pelican Point Lodge e seu farol.

A Península de Pelican Point vem crescendo a assustadores 20 metros por ano. Isso ocorre por conseqüência da deposição de areia pelo vento forte canalizado pelo deserto Namib. Para se ter uma ideia, em 1932, o farol ficava na ponta extrema da Península. Hoje está surpreendentemente no meio. Neste farol há um hotel de luxo, o Pelican Point Lodge. Paga-se caro pela proximidade com a vida selvagem e pelo isolamento completo. Vimos ali um chacal comendo uns restos de um pássaro – natureza selvagem mesmo.

Chacal (Canis adustus).

Caiaque no Pelican Point

No Pelican Point, fica a segunda maior colônia de focas-do-Cabo (Arctocephalus pusillus) da Namíbia. São milhares de focas ronronando e rolando pela areia da praia. Muitas na água, nadando e pulando.

O passeio de caiaque é feito em duplas, na praia super-mansinha da parte interna da península, entre as focas. As mais jovens são super-curiosas e amigáveis. Chegam ao lado do caiaque, fazem malabarismos, mordem o remo, surfam… Uma festa! A experiência é das mais divertidas com vida selvagem que já tive.

Rumo ao Sandwich Harbor

Depois deste passeio, fomos deixados próximos ao farol do Pelican Point. Ali, nosso guia particular para o Sandwich Harbor nos aguardava para o segundo passeio do dia. Jacques Koch, da Red Dune Safaris, foi uma jóia que descobri ainda durante o planejamento da viagem. É considerado por diversos profissionais do ramo como o melhor guia da região de Walvis Bay. Porque tem mais de 20 anos de experiência de turismo por aquelas bandas. E realmente, foi sensacional, recomendo muito.

O que restou de uma casa de pescador à beira-mar: só o telhado. A natureza é soberana na Namíbia e o vento de areia atropela sem piedade.

O caminho até o Sandwich Harbor só pode ser feito de 4×4. Pois não há estrada formal, é tudo pela areia da praia. Além disso, precisa prestar atenção na tábua de marés para ir no horário certo. As dunas altíssimas fazem uma barreira intransponível ao interior. Portanto, só é possível chegar até o Sandwich Harbor na maré baixa, quando uma extensão pequena de areia batida aparece na praia.

Praia de areia rosa.

Há um trecho curiosíssimo de areia rosa, resultado da presença da rocha dolerite misturada com areia vermelha que o vento sopra do deserto. Neste pedaço, encontra-se também pela areia da praia um fóssil de um molusco endêmico, que se extinguiu há 1.5 milhões de anos. A concha rosada deste molusco é maravilhosa.

A vista do Sandwich Harbor

Sandwich Harbor.

O Sandwich Harbor é uma laguna pantanosa circundada por dunas infinitas do Deserto da Namíbia. No passado, foi um porto baleeiro, e é das poucas áreas com água (salobra) por toda a costa desértica da Namíbia. Por ter água, é um ponto onde pode-se ver diversas aves e outros animais. Muitos flamingos e pelicanos descansavam em suas águas.

Quando ali chegamos, o sol estava firme e forte, e o fog da manhã desaparecera por completo. A primeira ação foi subir a duna mais próxima (~80 metros de altura), para termos uma vista geral do Sandwich Harbor. E que vista!! Local sensacional, isolado, lindíssimo.

A paisagem que sonhei por toda a minha vida.

Almoçamos entre a duna e o mar, com pelicanos e flamingos passando por cima. Ostras frescas e champanhe oferecidos pelo passeio. Uma sensação de felicidade imensa transbordando do meu coração.

Emoção máxima: a duna dos sonhos

O tobogã de areia do passeio ao Sandwich Harbor.

Mas a ida até o Sandwich Harbor era apenas metade da emoção da tarde. A segunda parte foi mais “radical”: andar de jipe pelas dunas enormes e altíssimas da costa. A sensação era de montanha-russa, e por diversas vezes eu jurava que íamos atolar. Até que chegamos à duna mais alta daquela costa. Ali, finalmente realizei meu maior sonho, de olhar pro horizonte estando daquele lado do Atlântico. Duna dos sonhos, momento dos sonhos, sol lindo, pelicanos voando, sorriso escancarado, coração derretido e lavado. Respirei fundo e pensei: I did it.

Sonho realizado: no alto da duna que encontra o mar na Namíbia.

No caminho de volta passamos por diversos “oásis”, áreas com resquícios de água onde se vê a !nara, uma planta comum do deserto da Namíbia. A !nara é a principal fonte de energia e subsistência do povo nômade que habita o deserto. Nas áreas onde cresce, outros animais também costumam aparecer, como springboks, órixes e chacais.

A !nara, planta do deserto da Namíbia que é a base de subsistência das comunidades nômades.

Ao final do passeio, cortamos pelas salinas de Walvis Bay. O magnífico pôr-do-sol foi à beira da baía de Walvis, vendo os flamingos em seu balé natural. Encerrado outro dia de sonho na Namíbia.


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Dia 5 – Moonscape e Welwitschias

Na minha listinha de interesses biológicos para ver próximos a Swakopmund, só faltava a planície das Welwitschias. Mas, para visitá-las por conta própria, é preciso ter um permit.

Este permit pode ser facilmente adquirido no escritório oficial do Ministério da Vida Selvagem, Conservação e Turismo no centrinho de Swakopmund. Pagamos N$90,00 para duas pessoas mais um carro e em menos de 10 minutos tudo se resolveu.

Com o permit e um mapa fornecido pelo Ministério, pegamos um pequeno trecho da estrada B2 (asfaltada!) na direção de Windhoek, até a entrada da C28 (de cascalho). Ali começa a estrada cênica que leva ao Moonscape e às Welwitschias. Este passeio é facílimo de se fazer por conta própria. Basta seguir o mapa e as diversas marcas da estrada.

No Parque das Welwitschias

Moonscape, onde parece que estamos na lua – ou em Marte…

O Moonscape é um cenário lunar, como o próprio nome diz. Pense Mad Max Fury Road, aquela paisagem distópica seca – e pense mesmo, porque o filme foi gravado ali. Toda aquela região é espetacular, de uma amplitude inacreditável. É realmente um cenário de outro planeta, completamente inóspito.

Entre as diversas paradas da estrada, há uma para ver os líquens da região, que sobrevivem do fog matinal que o deserto cria. A diversidade de liquens no solo é absurda. Em dado momento, cruzamos o leito seco do rio Swakop, até chegar na planície das Welwitschias.

A Planície das Welwitschias

Welwitschia mirabilis, uma das plantas mais raras do planeta.

As Welwitschias são plantas da família das welwitschiales, única sobrevivente de um grupo (quase) extinto. Uma raridade botânica, ora pois. Estas plantas são rasteiríssimas, com uma aparência de quase mortas – mas não estão! Pelo contrário, a mais velha delas tem aproximadamente 1500 anos. São formadas por uma folha única, que se rasga em diversas outras. Possuem um sistema de raízes laterais próximo à superfície que extrai água do fog do deserto, mecanismo essencial para que sobrevivam. Por causa deste delicado sistema de raízes, as Welwitschias ficam delimitadas por marcação, para que as pessoas não pisem e evitem destrui-lo.

Em menos de 3 horas (com paradas para fotografar), é possível fazer o loop deste pedaço do Namib-Naukluft. Com o resto do dia livre, voltamos a Swakopmund para passear pela cidade, comprar uns souvenirs e apreciar mais os flamingos de Walvis Bay.

Em Swakopmund

Charmosinha Swakopmund.

Em nossa última noite na Namíbia, reservamos o restaurante estrelado Jetty 1905, ao final do píer de Swakopmund. A comida é espetacular, o cenário marinho mais ainda e o restaurante é de primeira. Altamente recomendado. Brindamos ali, com (mais) um pôr-do-sol incrível, a esta que foi uma viagem de sonhos – agora realizados.

Fui embora da natureza arrebatadora da Namíbia, mas a Namíbia… Acho que nunca mais irá embora de mim!

Tudo de emoções viajantes sempre.



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