Como é o mergulho do Sardine Run na África do Sul

por: Lucia Malla África, África do Sul, Animais, Mergulho, Oceanos

O Sardine Run é um fenômeno anual em que gigantescos cardumes de sardinha (Sardinops sagax) migram no inverno pela costa leste da África do Sul, a Wild Coast. Quando visitamos a África do Sul em junho/julho de 2017, aproveitamos portanto a época perfeita para fazer o mergulho do Sardine Run e vivenciar de perto este fenômeno incrível.

Os cardumes de sardinhas chegam a impressionantes 7 km (!!!) de extensão. O por quê desta migração gigantesca é motivo de muitos estudos na comunidade científica. Em 2008, escrevi um post enorme comentando o que se acreditava ser a razão da migração.

Entretanto, um estudo mais recente [link em pdf] analisou diversas das hipóteses existentes até então lado a lado. Concluiu que as sardinhas migram pela costa da África do Sul por 2 motivos: para se reproduzir e por ser um comportamento ancestral de subpopulações mantido até hoje.

Mapa simplificado da migração das sardinhas tirado deste ótimo Pinterest.

Melhor época

Junho e julho são os únicos meses em que as sardinhas aparecem próximas à superfície do mar na Wild Coast, em migração. À parte as razões singulares do Sardine Run, o fato é que esta é a época em que diversos grandes predadores se agregam para caçar e se alimentar destas sardinhas. Baleias, tubarões, golfinhos, pássaros… É um festival de predação subaquática dos mais incríveis de se presenciar no planeta. E sonho de muitos mergulhadores, incluindo o André.

Debaixo d’água é que (quase) tudo acontece. Tirando a movimentação dos pássaros mergulhando para comer as sardinhas, todos os demais “envolvidos” no Sardine Run estão submersos, nadando freneticamente atrás de sua presa. E os cardumes de sardinhas, para se esquivar de tantos esfomeados, se deslocam em perfeitos balés lindíssimos de se ver.

Os pássaros ajudam a avisar onde estão as sardinhas.

A temperatura da água

Para dificultar mais este mergulho, a temperatura da água não colabora. Ali, naquele lado da África do Sul, a temperatura da água é super-gelada no inverno, quando as sardinhas aparecem. O mergulho é feito com roupas grossas de neoprene – e até dry suit, em alguns casos.

O problema é que, como as sardinhas se movimentam, você tende a ficar mais tempo na água, nadando pra lá e pra cá. Se por um lado o exercício ajuda a esquentar o corpo, por outro são mais minutos de exposição à água gelada. A pessoa deve ficar alerta também ao menor sinal de cãibra. Para quem facilmente sente frio, este não é uma atividade recomendada.

Quando estivemos lá, a temperatura da água do mar estava entre 18 e 20ºC.

Boa forma é essencial

Tudo é muito rápido, com as sardinhas se movimentando agilmente de um lado pro outro – portanto, o mergulho é intenso. Você precisa estar em ótima forma física para aguentar o tranco de nadar super-rápido para acompanhar as sardinhas.

Para os mergulhadores, um Sardine Run “perfeito” é quando você vê toda esta ação animal acontecendo ao mesmo tempo embaixo d’água, com o máximo de predadores diferentes envolvidos. Os golfinhos emboscam as sardinhas em um aglomerado, o famoso bait ball. Juntas em alta densidade, as sardinhas se tornam presa mais fácil para tubarões, golfinhos e baleias que cortam o bait ball de boca aberta.

Ver esta ação multipredatória sincronizada não é fácil, porque não ocorre a todo momento. E tudo é muito rápido, uma hora o baitball está do seu lado, e em poucos segundos já está a mais de 50m de distância. Nossa expectativa era ver toda esta ação. (Já deixo aqui o primeiro conselho: diminua as expectativas.)

Esta é uma viagem cheia de incertezas naturais. Por isso, deixo aqui algumas das nossas dicas para que vocês aproveitem ao máximo o espetáculo do Sardine Run.

Como escolher uma operadora de mergulho para o Sardine Run

Organizar uma viagem de mergulho para o Sardine Run é um jogo de probabilidades e risco, principalmente financeiro. Você precisa entender isso claramente antes de ir para não se decepcionar nem se estressar demais. Precisa aceitar também que é uma apreciação da vida selvagem, que depende de n+1 fatores naturais fora do seu controle, portanto pode simplesmente não rolar – e nem a operadora nem você têm culpa disso.

Para aumentar suas chances de sucesso, a primeira providência é escolher uma operadora experiente. Particularmente, uma operadora que tenha sucesso em encontrar as sardinhas. E para ter sucesso, eis algumas dicas.

Principais características de uma boa operadora de mergulho do Sardine Run

  • A operação deve contar com um spotter plane, um aviãozinho ou ultraleve que patrulhe a área e indique aos barcos o ponto onde ir na vastidão daquela costa do mar Índico.
  • A operadora deve permitir a seus mergulhadores ficarem a maior parte do dia na oceano, buscando as sardinhas. Como as sardinhas aparecem e desaparecem rapidamente perto da superfície, é fundamental que se aumente a chance de avistá-las. Isto só acontece se você passa um longo período do dia no mar. Evite operadoras com horários restritos demais.
  • Flexibilidade durante a ação é outro indicativo de uma boa operadora. Uma operadora que só faz snorkel ou só faz mergulho pode diminuir sua probabilidade de ver o Sardine Run. Porque às vezes as sardinhas estão próximas à superfície, quando o snorkel é a opção mais recomendada. Mas às vezes elas estão mais ao fundo e o mergulho de scuba pode ser mais interessante. O dive master é que verifica e decide na hora. Então, estar preparado para ambas as situações é o mais aconselhável.
  • Bons dive masters. O pessoal da operadora que conduz o Run precisa ter experiência em reconhecer de longe os sinais sutis de que as sardinhas estão por perto. Você pode perguntar isso antes de fechar o pacote: quantos anos de Sardine Run os dive masters têm.

Custo

O mergulho no Sardine Run costuma ser bem caro. Afinal, ter um spotter plane à disposição, mais toda a logística complicada de se mergulhar naquela costa que é mesmo bem wild, termina encarecendo o pacote. Então se quiser economizar sem perder qualidade é fundamental que você pesquise bastante antes de fechar com uma operadora. O pacote para o Sardine Run em geral inclui as saídas pro mar com mergulho/snorkel, acomodação, alimentação e transporte até o ponto de saída do barco. O preço final vai variar de acordo com quantos dias você queira ficar.

Mergulho do Sardine Run - baleia franca

A duração do pacote de mergulho é outro ponto importante. Afinal, naquelas centenas de quilômetros de oceano, pode acontecer das sardinhas simplesmente não coincidirem de aparecer onde você está. Se você vai pra fazer o Run por 1 ou 2 dias, suas chances diminuem. A maior parte das operadoras monta pacotes fechados, com um número mínimo de dias, exatamente para aumentar as chances do cliente ter a experiência do Sardine Run. No nosso caso, fechamos um pacote de 5 dias – mas o ideal é que você fique mais tempo.

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Onde ficar no Sardine Run

Existe um grande número de opções pela Wild Coast para se ver o Sardine Run, de Port Elizabeth até a fronteira de Moçambique. São mais de 1000 quilômetros de costa contendo uma variedade de cidades e vilarejos onde é possível se hospedar para o Run.

Coffee Bay, na Costa Selvagem da África do Sul.

Durban é o ponto mais popular e com mais opções de hospedagem e operações de mergulho. Mas, depois de muito pesquisar, nós escolhemos ficar em Coffee Bay. Coffee Bay fica equidistante entre East London e Durban. Na época do ano em que estávamos (mais ou menos no meio do período do Run), esta localização aumentaria as nossas chances de encontrar o Sardine Run.

Coffee Bay é um pequeno vilarejo na província de Eastern Cape, quase próximo à divisa com Kwazulu-Natal. O vilarejo tem pouquíssimas opções de estadia. Ficamos no Ocean View Hotel, que nesta época do ano acomoda a operação do Sardine Run organizada pela operadora African Dive Adventures. Durante o resto do ano, esta operadora organiza mergulhos no Protea Banks, ao sul de Durban. Escolhemos a African Dive depois de muita busca na internet. Eles nos pareceram bem confiáveis (e foram mesmo).

Coffee Bay - mergulho do Sardine Run

Ocean View Hotel.

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Como chegar em Coffee Bay

Coffee Bay é um lugar relativamente remoto da costa sul-africana. A operadora sugere pegar um dos vôos fretados em pequenos aviões para o aeroporto de Margate (norte de Coffee Bay) ou para o aeroporto de Mtatha (no interior da província). Entretanto, é difícil conseguir vaga nestes vôos.

Por terra, o único acesso à vila é uma estrada vicinal péssima. A estrada é sem iluminação, cheia de buracos e com um monte de animais no acostamento ou na pista. Esta estrada vicinal sai da rodovia 2, que liga East London a Durban. Portanto, você pode voar para Durban ou para East London, e de lá encarar a estrada. São cerca de 3-4 horas de estrada, dependendo dos obstáculos, em resumo.

Nós voamos até East London e de lá seguimos de carro até Coffee Bay. Todos os fóruns e blogs pesquisados comentavam igualmente sobre a dificuldade de dirigir naquela área. Isto nos levou a contratar um serviço de traslado pela Imonti Tours. Nosso guia, o Velile, era extremamente habilidoso na direção, principalmente na estrada vicinal, onde há certamente uns obstáculos inesperados. É viagem com emoção, prepare-se. O Velile foi super-pontual tanto na ida como na volta, recomendo.

A rotina do Sardine Run

Depois de devidamente alojados e descansados, uma pessoa da operadora veio nos dar o briefing para os próximos dias de Sardine Run. Os dias seguem o mesmo “protocolo”: acorda cedíssimo antes do sol nascer, toma um café da manhã reforçado, pega o jipe de traslado. O jipe deixa o pessoal na boca do rio Mapuzi, de onde sai o barco que passa o dia no mar.

A saída do rio Mapuzi, em Coffee Bay.

O traslado em si já é incrível, com uma praia deserta lindíssima na boca do rio – e emoção na direção ribanceira abaixo.

O dingy

Os barcos do Sardine Run são botes estilo dingy, infláveis de borracha. Eles são os preferidos para esta operação de mergulho porque são mais ágeis e fáceis de entrar no mar bravio do inverno. A operadora tem diversos botes. Cada um sai com 6 mergulhadores, um dive master e um skipper (o capitão do barco).

Todos os mergulhadores ajudam a carregar e empurrar o barco. Não tem essa de corpo mole nem de deixar só o dive master fazendo. Se você inventar desculpa pra não ajudar neste momento, nem embarca… Porque significa que você não aguentará o tranco do Run em alto-mar.

Dingy do mergulho do Sardine Run

Na saída em Coffee Bay (e na maior parte da Wild Coast no inverno), o barco precisa passar pela arrebentação. O dingy em geral dá conta com muito mais eficiência e segurança, aliás. Ainda assim, é um malabarismo e o sucesso desta manobra depende muito da experiência da operadora contratada.

Passada a arrebentação, começa o Sardine Run de verdade.

Dingy do mergulho do Sardine Run

Na boca do rio, puxando o dinghy depois de um dia em alto-mar.

Como achar as sardinhas

No mar, inicia-se a comunicação intensa por rádio entre o dive master e o piloto do spotter plane, que avisa onde estão os bait balls. O spotter plane da African Dive Adventures é um ultra-leve, que faz 3 vôos por dia para ajudar os mergulhadores do Run. O ultra-leve no ar conversa com todos os skippers constantemente.

O spotter plane é o melhor método para descobrir os cardumes de sardinha, porque de cima é muito mais fácil enxergá-los. Entretanto, às vezes é o próprio dive master do barco que vê a ação de longe, com bandos de pássaros mergulhando velozmente no mar. Como nosso dive master disse, parece uma “chuva de aves”.

Paciência é fundamental

A operação de mergulho em Coffee Bay cobre uma longa extensão da costa. Durante todo o dia, o bote fica pra lá e pra cá, seguindo as orientações do ultra-leve ou procurando cardumes por conta própria, de olho nas pistas naturais do evento. É um jogo de (muita) paciência. E que requer, mais uma vez, a experiência da operadora em interpretar o mar.

O bote fica de 7 da manhã às 3 da tarde em busca de ação. Não tem banheiro – portanto, acostume-se a ter que pular no mar (às vezes violento) para suas necessidades. No bote, nos (muitos) momentos em que as sardinhas não aparecem, rola um lanche: sanduíche simples, chips e bebidas não alcóolicas. Algumas vezes, estamos no meio da refeição e o ultra-leve avisa que tem um cardume a 2 quilômetros. E lá vai o barco a toda velocidade atrás… Como o mar na Wild Coast é bem batido e são muitas horas no mar, a experiência do Sardine Run, todavia, não é mesmo para quem enjoa.

Quando as sardinhas aparecem – a razão de estarmos ali – todo mundo fica tomado por uma animação contagiante. O bote se posiciona um pouco afastado e os mergulhadores caem na água, na direção do cardume. A visibilidade na água varia.

Dependendo de quem está tentando predá-las, elas correm pra perto de você. Mas muitas vezes você cai na água e… as sardinhas se afastam. E você não consegue acompanhá-las. Mais: dependendo da visibilidade, voce terá que nadar mais ou menos para chegar nas sardinhas. Não são raras as vezes que você fica a ver navios. É uma atividade de mergulho avançado, de muita adrenalina.

Quando estivemos lá, teve dias bem limpos e outros nem tanto.

Nosso Sardine Run

Bom, as fotos deste post já mostram um pouco como foi o nosso mergulho do Sardine Run.

Mergulho do Sardine Run - sardinhas

As sardinhas em cardumes apareceram. Assim como todos os animais que geralmente participam da caça coordenada às sardinhas. Entretanto, não vimos a ação completa. Porque quando os animais apareciam, não havia sardinha visível por perto – e vice-versa.

De modo que… teremos que repetir a empreitada. O que, dada a maravilha que é este pedaço do mundo, não é nem de longe um problema… 😉

Tudo de bom sempre.

Mergulho no Sardine Run

Uma Malla no Sardine Run.

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