As crianças pelo clima

por: Lucia Malla Crianças, Ecologia & meio ambiente, Mudanças climáticas

Já há alguns anos venho acompanhando um movimento articulado tão inesperado quanto inspirador, as crianças pelo clima. Este movimento luta por políticas necessárias para enfrentarmos as mudanças climáticas. Liderado por crianças que se tornaram ativistas ambientais por pura falta de opção. Afinal, é o futuro delas que está mais em jogo com as mudanças climáticas. Se querem ter um futuro, elas precisarão lutar (muito) por ele.

Não chega a ser uma grande surpresa que este movimento esteja florescendo. Mas ainda assim, é impressionante o que as crianças estão conseguindo concretizar em termos de mudanças políticas. Além disso, com melhor coordenação e pulso que nós, adultos responsáveis pelo doomsday climático.

Fracassamos e as crianças estão aí, para puxarem as nossas orelhas.

As crianças pelo clima

Descompasso

Mudanças climáticas não são um tema novo neste blog. Há mais de uma década venho sempre que possível martelando sobre a necessidade de tomarmos uma atitude mais positiva e ética pelo meio ambiente. Junto com amigos, fundei até um blog só com sugestões e reflexões sobre ecologia e sustentabilidade, o Faça a sua parte. Tudo na tentativa de inspirar mudanças comportamentais que, naquele momento, ajudariam a mitigar os piores efeitos das mudanças climáticas. Havia então esperança de responsabilidade adulta.

Entretanto, existe um descompasso claro entre a velocidade das mudanças climáticas e a tartaruguice das mudanças políticas pelo ambiente. Neste contexto, andamos a passos largos para um futuro cada vez mais cinzento. Estamos perdendo a corrida.

(E acho que fomos de uma certa maneira ingênuos em acreditar que este descompasso não seria um problema substancial neste desafio.)

Pior: as mudanças políticas necessárias são, em sua vasta maioria, capitaneadas por adultos. Porque passam por votações, por escolhas econômicas, sociais e políticas, por gerenciamento de catástrofes. Todos temas espinhosos, que em geral tendemos a blindar das crianças.

Pois o feitiço virou contra o feiticeiro. Agora as crianças estão aí, nos lembrando que devemos sair desta inércia de maneira efetiva, que precisamos agir ontem pelo futuro delas. Elas não aceitam mais esta blindagem.

E elas já davam a entender que iriam se mobilizar – a gente só não percebeu a grandiosidade do que viria. Abaixo, listo algumas das crianças ou ações delas em prol do meio ambiente que acho mais inspiradoras e/ou que mais admiro.

As crianças pelo clima

Severn, a criança da Eco 1992

Tudo começou com o discurso apaixonado de Severn Suzuki na ECO 92, no Rio de Janeiro. Em 6 minutos falando para os líderes de outrora, Severn clamou por mudanças de atitude ambiental, por mais sustentabilidade para que a possibilidade de um futuro melhor estivesse ao alcance de todas as pessoas. Clamou por justiça inter-geracional. Por um planeta saudável para todos. Em 1992.

20 anos depois, em 2012, na mesma cidade do Rio de Janeiro, Severn voltou. Sua mensagem de desenvolvimento sustentável e justiça inter-geracional continua, mais forte e necessária que nunca.

Severn foi a pioneira. A primeira voz infantil a se expressar global e contundentemente pela sustentabilidade. Agora, uma onda de novas vozes se juntam a ela.

Juliana vs Estados Unidos

É ótimo perceber que as crianças não só entendem como usam de maneira pragmática e eficiente o próprio sistema convoluto que evita justiça ambiental dos adultos. Principalmente quando o reverte, tornando-o ferramenta de neutralização da voz adulta vazia de intenções positivas pelo futuro.

Pois o melhor exemplo disso vem dos tribunais, do fundamental processo “Juliana vs Estados Unidos”. (Todos os documentos deste caso podem ser encontrados neste link.)

Em 2015, Kelsey Juliana (então com 19 anos) junto a um grupo de crianças representadas pela ONG Our Children’s Trust e pelo Earth Guardians, entraram na justiça no estado do Oregon contra o governo federal americano. Neste processo, as crianças alegam que o governo violou o direito constitucional básico delas à vida e à liberdade ao não agir com pulso forte pelo corte da emissão de CO2 e ao incentivar as indústrias de combustíveis fósseis. Com esta ameaça básica ao direito de vida, as crianças argumentam que o governo as traiu e não pode garantir um futuro para elas.

A batalha na justiça ainda não terminou. Cheia de altos e baixos, como costuma ser um processo na justiça. Por várias vezes, o lobby das indústrias petroleiras e de carvão tentou ignorar ou diminuir tanto o processo como as pessoas envolvidas. Outras vezes o governo inundou a corte com apelações judiciais para atrasar o julgamento. A história toda deste caso pode e deve ser lida por todos.

Mas as crianças não se comovem com as táticas, legais ou sujas, que aparecem. Apesar dos atrasos e percalços do processo, os requerentes da ação continuam firmes no que já é considerado por muitos o julgamento do século.

O caso ainda não tem data para ser julgado. É aguardar pelas cenas dos próximos capítulos.

(Se quiser, você pode se juntar à Juliana e apoiar o processo.)

Xiuhtezcatl Martinez

Xiuhtezcatl Martinez é o asteca-americano Diretor Jovem da ONG Earth Guardians, cuja missão é de empoderar crianças e jovens a terem oportunidade para desenvolver soluções e inovações para os principais problemas do mundo atual. Como diretor, ele poderia ser apenas mais um membro da tribo que luta por justiça inter-geracional e por um ambiente saudável.

Entretanto, Xiuhtezcatl mostrou desde cedo uma força enorme usando mídia social para concatenar atitudes por mudanças na política ambiental, tanto local quanto global. Principalmente, quando estas políticas esbarram nos direitos de grupos indígenas. Então ele virou uma das vozes mais fortes e mobilizadoras em prol de um futuro mais igualitário frente às mudanças climáticas.

Xiuhtezcatl convida todas as crianças e jovens do mundo a se unirem para proteger os animais, as plantas e ecossistemas do planeta e evitarem os piores efeitos das mudanças climáticas. A respeitar a natureza. Conversa francamente usando a força das mídias sociais para mobilizar. Representa os jovens em discursos para líderes do mundo. Cria hip-hop ambiental e escreve livros best-sellers para espalhar e solidificar suas ideias e desafios.

E principalmente, incentiva os jovens que podem a votar. Porque entende e espalha essa noção de que o voto é uma das grandes armas de qualquer luta por direitos que existe.

Xiuhtezcatl já é uma voz transformadora fundamental do ativismo ambiental atual, como vocês podem ouvir em seu discurso na ONU.

Movimento Zero Hora

As crianças pelo clima - This is Zero HourA fundadora da ONG Zero Hour foi Jamie Margolin, hoje com 16 anos. Em 2017, Margolin se cansou de ouvir a mesma ladainha dos adultos. Percebeu então que se ela, adolescente, não se levantasse por uma revolução climática, ninguém mais velho faria por ela. E, depois de ler cuidadosamente os highlights do caso Juliana vs EUA, criou um movimento.

A visão desta ONG é a mais realista possível.

Enough is enough. We, the youth, believe that #thisisZeroHour to act on climate change. We cannot afford to wait any longer for adults to protect our right to the clean and safe environment, the natural resources we need to not just survive, but flourish. We know that we are the leaders we have been waiting for!”

O movimento Zero Hour organiza marchas e mobilizações pelos EUA e pelo mundo de conscientização jovem em prol de mudanças sistêmicas na forma como interagimos com o meio ambiente e na forma como consumimos. A Marcha da Juventude pelo Clima em julho de 2018 levou milhares de crianças e adolescentes às ruas das principais cidades do planeta.

O movimento usa a hashtag #ThisIsZeroHour nas mídias sociais para marcar e espalhar suas ações. Vale a pena seguir.

Greta Thunberg

A sueca Greta Thunberg, de 15 anos, começou em setembro do ano passado um movimento completamente grassroots. Sozinha e então sem apoio de nenhuma organização, Greta matava aula todas as sextas-feiras e ia protestar em frente ao Parlamento Sueco em Estocolmo. Protestava por ações concretas de seus representantes políticos que minimizassem os efeitos futuros das mudanças climáticas.

Greta começou uma greve semanal. Que se espalhou e virou um movimento mundial.

“The adult generations have promised to stop the climate crisis, but they have skipped their homework year after year.”

Hoje, o Climate Strike ocorre em diversos cantos do planeta todas as sextas-feiras. Neste dia de greve, as crianças saem de suas escolas e vão para as ruas protestar por ações em prol do meio ambiente e de justiça climática.

Protestam por 100% energia limpa. Por ajuda aos refugiados climáticos. Pelo fim da exploração de combustíveis fósseis. Por uma declaração de emergência climática por parte dos governos. Por um planeta em que se possa viver no futuro.

O resultado até agora? O comprometimento ambiental de alguns bilhões de euros pela União Européia.

O discurso de Greta em Davos

O discurso de Greta Thunberg no Fórum Econômico Mundial em Davos em janeiro de 2019 foi dos mais desafiadores. Traduzo abaixo algumas das palavras realistas e sábias que ela proferiu.

“Nossa casa está em chamas. […] O sucesso financeiro das pessoas vem com um preço inimaginável. Nós precisamos admitir que falhamos em relação às mudanças climáticas. […] A gente precisa parar as emissões de CO2. E a gente faz isso ou não faz. Vocês dizem que nada na vida é preto no branco – mas isto é uma mentira perigosa. […] Ou a gente escolhe continuar como civilização ou não. Não há áreas cinzas quando o assunto é sobrevivência. […]

Adultos vivem dizendo que eles devem às crianças um futuro com mais esperança. Mas eu não quero sua esperança. Eu não quero que vocês sejam esperançosos. Quero que vocês entrem em pânico. Quero que vocês sintam o medo que sinto todos os dias. E então quero que vocês ajam. Como se estivessem em uma crise. Como se a casa estivesse em chamas. Porque ela está em chamas.”

O discurso completo pode ser visto no vídeo abaixo.

E, na sexta-feira 15 de março de 2019 (daqui a algumas semanas), ocorrerá aliás a primeira Greve Global pelo Clima. Com marchas marcadas pelas principais cidades do mundo. Organizadas pelas crianças em greve.

Para saber mais, siga as hashtags #ClimateStrike e #FridaysForFuture.

Crianças adultas e adultos crianças

Vivemos um momento de inversão histórica.

(Foto de divulgação do Zero Hour sob licença.)

Muito além dos exemplos acima, é impressionante notar o quanto as crianças e adolescentes atuais estão encarando com muito mais lucidez e doses cavalares de ciência a realidade das mudanças climáticas. Como elas estão conseguindo se mobilizar, pressionar por mudanças – e estão aos poucos sendo ouvidas. Como são de uma maturidade e responsabilidade invejáveis.

Isto fica ainda mais evidente quando a gente liga a TV e vê o nível dos “adultos” que vêm chegando ao poder em diversas partes do mundo. O nível da (ir)responsabilidade com que lidam com os assuntos ambientais. O nível de pirraça e mal-criação com que respondem aos grandes desafios sociais e econômicos do mundo. O nível do desprezo que têm por estudos e pelo conhecimento em geral. Quem é a criança, afinal?

Pode até ser que a força do movimento das crianças pelo clima seja um exemplo puntual. Mas desconfio que não. Porque nem de longe estas crianças estão isoladas, dando murro em ponta de faca num tema de redação de dever de casa. Muito menos são massas de manipulação de adultos.

Estas crianças vêm fazendo com avidez seu dever de casa. Elas são informadas, realistas, sedentas por dados e fatos científicos, bem conscientes do futuro sombrio que as espera. E elas estão em pânico. De forma adulta, tentam lutar pelo que resta de esperança, com o que elas têm de otimismo e força.

Os adultos deveriam estar pelo menos inspirados. Eu estou.

Que chegue logo o dia desta revolução, em que estas crianças tomem o poder. E mudem o mundo para melhor.

Tudo de bom sempre.



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