Leões marinhos nas bancas

por: Lucia Malla América Latina, Animais, Argentina, Mergulho

A edição do mês de julho/2008 da Revista Mergulho (n. 144) contou com uma reportagem sobre os leões marinhos argentinos, escrita por essa que vos mallifica nesta paragem blogosférica e com fotos do André. A aventura com os animais foi também contada aqui no blog.

Leões marinhos na Mergulho

Como a revista Mergulho acabou, deixo aqui a reportagem, para deleite dos curiosos.

Ah, e tem também texto meu sobre o blog verde da Gisele Bündchen lá no Faça. Divagações…

Tudo de bom sempre.

OS LEÕES DA SUL-AMÉRICA

Era 2 de abril, feriado na Argentina. A saída de mergulho planejada mais parecia uma reunião de família. Afinal, éramos apenas o dono da operadora, seus filhos e sua esposa no barco. Íamos aproveitar o dia de descanso para interagir um pouco com os leões marinhos do sul (Otaria flavescens).

O mergulho com os leões marinhos da Patagônia

O local escolhido para o mergulho era Punta Loma, a 17 km de Puerto Madryn, na Patagônia Argentina, área designada em 2005 como protegida pelo governo da província de Chubut. Ali há uma Lobería, como os argentinos chamam os locais onde os lobos mariños se agregam. Esta lobería era mais tranqüila para se mergulhar. Embora nada para mim tornasse a água a gélidos 14 graus “tranqüila”. Enfim, pelo menos a ausência de corrente e a pouca profundidade não tornariam o mergulho mais complicado.

O barco da operação corta o mar calmíssimo do golfo Nuevo e rapidamente chegamos ao point. Na praia, já dá para ver as dezenas de leões marinhos residentes da área, tomando sol, descansando ou brincando. Muitos filhotes, menores e mais agitados, nascidos há menos de 3 meses, agora brincam na praia, fazendo suas primeiras investidas no mar.

O mergulho com os leões marinhos em geral não oferece perigo e é de baixíssima exigência técnica. O local é bem próximo à costa e você não passa de 5 metros de profundidade. Apesar de ser tão raso, não é permitido fazer snorkel. Afinal, as leis argentinas de proteção proíbem qualquer pessoa de chegar perto dos leões marinhos sem equipamento de scuba. Além de exigirem o pagamento de uma taxa de conservação alta, que em geral está embutida no preço da saída de mergulho.

A regra é não tocar no animal, nem assustá-lo com movimentos bruscos muito menos levantando areia do fundo. A visibilidade não é das melhores, em média 5 metros, o que requer mais cuidado ainda nos movimentos de cada mergulhador. Os leões marinhos que se aproximam são normalmente os mais jovens, curiosos que estão por descobrir um mundo novo. Ou pelo menos descobrir o que aquele monte de gente soltando bolhinhas e olhando para eles são.

Biologia dos leões marinhos da Patagônia

Os leões marinhos do sul, como são conhecidos, vivem restritamente no hemisfério sul do planeta, na costa da Argentina, do Chile e do Peru, além das ilhas Falklands e na ilha dos Lobos, no litoral gaúcho. O nome leão marinho deriva do fato de que os machos exibem uma cabeleira dourada na cabeça quando estão secos. A cabeleira não é tão vistosa quanto a dos leões africanos, mas igualmente atraente para as fêmeas do bando. Fêmeas, aliás, que também têm a cabeleira, apenas mais rala que a dos machos. Os leões marinhos machos pesam em média 300 kg, o dobro das fêmeas, e mantém haréns, com várias fêmeas para cada macho.

Cacofonia

Haréns que são muito sonoros, diga-se de passagem. De longe, podemos ouvir os gritos e urros dos leões marinhos, que se comunicam basicamente para garantir seu território e suas fêmeas. As mães também urram para alertar os filhotes dos perigos e os filhotes urram de volta para indicar que ouviram o chamado materno. Então, no somatório de machos, fêmeas e filhotes, é uma urraria só.

E é essa barulheira que torna mais fácil identificar que você está numa Lobería. Nesses locais, os leões marinhos se agregam – e pode ser na areia, em rochas ou penhascos, nas piscinas de maré e até mesmo em praias de cascalho ou pedrinhas. Da praia, só saem para pescar seu alimento: anchovas, crustáceos, polvos, lulas e até pingüins. E de preferência em áreas onde o fundo do mar é recheado de algas.

Nos primeiros meses de vida, as mães saem por 3 dias para pescar e ao voltar, amamentam o filhote por 2 dias. Este ciclo continua por dois meses, quando os filhotes já aprenderam a nadar e dão suas primeiras investidas na água. Demorará pouco para que os leões marinhos jovens consigam se equiparar aos mais experientes do grupo, que chegam a mergulhar até incríveis 300 metros de profundidade atrás de sua comida. Haja fôlego e adaptação para um mamífero que vive na terra (e respira com pulmões!) agüentar tamanha pressão e tempo submerso.

Agilidade embaixo d’água

Leões marinhos nas bancas

Durante o mergulho com os leões marinhos, sua excelente flexibilidade é evidente. Pois giram toda hora o corpo e a cabeça a fitar os intrusos ali presentes. Os leões marinhos não ficam constantemente com os mergulhadores. Vão e vêm, como a explorar e desencanar da exploração, inúmeras vezes, enquanto a maior parte do bando está sob o sol na praia.

Sua flexibilidade na água permite eficiência na pesca. Entretanto, o corpanzil com nadadeiras, cheio de gordura e desengonçado dificulta sua locomoção em terra firme. Ainda assim, eles “caminham”, devagar e sempre na areia. Ali, raramente são predados por outros animais. Correm maiores riscos ao mergulharem atrás de alimento, quando podem efetivamente virar comida de tubarões, orcas e algumas espécies de baleias.

Política de conservação da espécie

Apesar da população pequena que vive na América do Sul (cerca de 230.000 indivíduos), os leões marinhos do sul não são considerados ameaçados de extinção. Foram no passado alvo de predação humana intensa, por causa da quantidade de gordura extraída deles. Atualmente, entretanto, a maior ameaça que enfrentam é a perda de seu habitat e de sua comida. Isto ocorre pela ação da pesca excessiva e do desenvolvimento das zonas costeiras. Por isso, saber que boa parte das Loberías argentinas são áreas de proteção ambiental é uma boa notícia. Afinal, garante que mais pessoas terão a chance de mergulhar e interagir com os leões marinhos no futuro. Porque eles estão devidamente salvaguardados desde já.



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