No Pantanal Sul

por: Lucia Malla Animais, Bonito & Pantanal, Brasil, Ecologia & meio ambiente, Viagens

Depois de Bonito, nossa viagem continuou rumo ao Pantanal, especificamente na região de Miranda (MS), que é a borda mais ao sul do Pantanal Brasileiro – o Pantanal foi dividido em 11 áreas: Miranda, Nabileque, Aquidauana, Abobral, Nhecolândia, Paraguai, Paiaguós, Barão de Melgaço, Poconé e Cáceres. Ficamos na Fazenda San Francisco (que tem blog!), um refúgio agroecoturístico de 15000 hectares com 30% de área de mata preservada, muito especial e sede do projeto Gadonça, uma das mais interessantes ramificações da ONG Instituto Pró-Carnívoros de proteção às onças e demais felinos do país.

O Gadonça está ali porque há onças na fazenda – e não são poucas. Dão trabalho aos pecuaristas e aí mora o objetivo do Gadonça: tentar entender a dinâmica onça/gado e quem sabe assim conscientizar os moradores locais da importância da onça para o ecossistema, fazendo-os entender que matar uma onça não é uma boa solução ecologicamente falando (vale ressaltar que 40% da dieta da onça são capivaras). Ali na Fazenda San Francisco, entretanto, a presença da onça é também o grande chamariz para o turismo: os clientes têm uma média de 70% de chance de saírem de lá tendo visto uma onça ou outro grande felino. Esse índice, no mundo dos animais selvagens em seus hábitats naturais, é fenomenal.

Para completar o “quadrângulo” pantaneiro de bichos clássicos (e ameaçados, menos a capivara), só faltava a onça nessa foto, onde vemos 2 tuiuius, 2 jacarés-do-pantanal e três capivaras.

É necessário entender também o por quê da onça estar ali. A fazenda San Francisco tem como principal fonte de renda a agropecuária, principalmente o cultivo do arroz. Quando fazemos o passeio, percorremos áreas enormes de arrozal e ele é, digamos, o “segredo” da fazenda. Porque o arrozal traz uma gama de animais herbívoros e/ou que se alimentam de pequenos crustáceos e moluscos, como (muitas) aves e pequenos mamíferos. Há hordas de capivaras espalhadas por tudo quanto é canto. E onde há abundância de presas, há carnívoros. A teia alimentar do Pantanal em visualização simples e prática.

A festa no arrozal: capivaras e aves alimentam-se nessa área da fazenda, atraindo facilmente os carnívoros – e eles, os ecoturistas.

Nós ficamos 3 noites na fazenda e nas 3 noites saímos para fazer focagem noturna, que é o período quando há maior probabilidade de ver felinos. No primeiro dia, avistamos lobinhos, tamanduás-bandeiras, cervos-do-Pantanal, capivaras, mas nada de onça. Na 2ª noite, avistamos uma onça a uns 100m da gente, fêmea, com as tetas cheias de leite. Já na 3ª noite, foi a festa completa. Além do jacaré no meio da estrada, das corujas, de um curiango, espécie rara de pássaro, das capivaras descansando, vimos 2 (!!) jaguatiricas na beira da estrada, a menos de 50m da gente. Uma delas estava com um roedor na boca e deu todo seu showzinho particular para a gente: devorou o bicho estraçalhando-o, depois de alimentada se lambeu toda e por fim, “posou” para a foto, de barriga cheia e menosprezando os espectadores em êxtase máximo que a observavam. Sério, um momento para ficar marcado na minha memória de bióloga. Simplesmente maravilhoso.

A jaguatirica (Leopardus pardalis) que se alimentou na nossa frente.

Mas nem só de onça e grandes felinos vive o Pantanal. A fazenda é muito procurada por grupos de “bird watching”, pois é um dos locais do Pantanal com maior diversidade de aves: das 485 espécies pantaneiras catalogadas, 352 já foram avistadas ali. Basta sair para qualquer passeio durante o dia para perceber essa diversidade maravilhosa. É um tal de “olha o colheireiro ali! O tuiuiu tá aqui! Lá no galho o gavião belo!” a todo momento, que o passeio nunca fica monótono. Não interessa se você faz o passeio de jipe, de cavalo, à pé ou de chalana (nós fizemos todos esses): a imensa quantidade de aves diferentes é uma constante assombrosa.

Gavião-belo em 2 momentos: sobrevoando o rio e brigando com o outro no ar por motivo desconhecido.

Diverti-me mais no passeio de chalana pelo rio Miranda. Além da chalana ser alta e te permitir ficar mais perto da copa das árvores – portanto, ter uma perspectiva nova da mata ciliar – dois eventos maravilhosos aconteceram, um inesperado e outro programado: primeiro, um tamanduá-bandeira saiu de dentro da mata para beber água na beira do rio (cena inesquecível!); segundo, nós pescamos piranhas (eu não pesquei nenhuma que sou um zero à esquerda em matéria de pescaria) para alimentar o jacaré-do-pantanal “amigável” da fazenda (muitas aspas aqui) que se chamava…. Mala. Pois é. Lá foi a Malla ver o Mala comer piranhas – e se fartar. Apesar de arriscado, as fotos ficaram empolgantes, porque o jacaré pula completamente para fora d’água atrás de sua presa fácil. E como a atividade não é diária, eles não se “acostumam” muito à situação e continuam caçando normalmente para manter sua dieta saudável.

A piranha pescada e depois, sendo “entregue” ao jacaré Mala.

Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) bebendo água na margem do rio.

No mesmo dia da chalana, pela manhã, havíamos saído de jipe pela fazenda e visto um grupo enorme de colheireiros, além de diversos gaviões-fumaça, tuiuius, tucanos, garças, cafezinhos e outras aves que eu não me lembro o nome – é muita ave, acreditem. Mas o jipe faz barulho, e de certa forma, “espanta” um pouco os animais – mas só um pouco. Imagina se não espantasse…

Uma das chalanas da fazenda; abaixo, uma família de capivaras nada pelo banhado ao lado do arrozal.

Já no dia seguinte, de manhã fomos andar pela mata à cavalo, para sentir como pantaneiros de verdade fazem. Uma trilha longa, em área onde o rio inunda na estação chuvosa – na seca estava tudo coberto de grama e matinhos. No final, uma visão excepcional: um ninho de tuiuius com filhotes em cima de uma árvore. A ave-símbolo do Pantanal mostrando um lado fascinante de seu comportamento: a fêmea alimentava os tuiuiuzinhos, que só poderão sair dali voando quando completarem 3 meses (tinham cerca de 2 meses naquele momento). O ninho tinha 4 filhotes, e são todos mais esbranquiçados, ainda sem o famoso papo vermelho que caracteriza o tuiuiu adulto. E para ficar mais pantaneira ainda toda a cena, enquanto observávamos os tuiuius, foi compartilhado um tereré refrescante básico, que naquele calorão absurdo caiu muito bem, obrigada.

Na cavalgada, o grande destaque é o enorme ninho de tuiuius ao final da trilha.

No Pantanal Sul

Novateiro e suas flores platônicas: lindas e intangíveis.

A visita à fazenda foi finalizada com uma caminhada em trilha dentro da mata ciliar, numa área cheia de bacuris (Scheelea phalerata), uma espécie de palmeira cujos frutos as araras adoram comer. Vimos também diversos novateiros (Triplaris americana), uma árvore que tem flores lindíssimas bem rosas, mas que não devemos chegar perto: a árvore é oca e faz simbiose com uma espécie de formiga vermelha, de modo que quando você arranca uma flor, as formigas atacam sem piedade saindo de dentro do caule, pois instintivamente defendem a árvore-casa de qualquer “ataque”. Cena para inspirar filme de terror que eu não quis experimentar, é claro. Mas fotografei a flor, porque realmente é linda.

Nos intervalos dos passeios, além daquele festival de comidas de fazenda, mais observação de bicho: há diversas árvores ao redor, e papagaios verdadeiros se aglomeram às centenas de manhã depois do café; emas também aparecem; tucanos e araras estão sempre na árvore do fundo da casa, bicando alguma comidinha; e até uma perereca incauta foi subindo na báscula da sala-museu que fica na entrada da casa. Fora os mosquitos, que felizmente não são tão abundantes na época de cheia (nada que um repelente não resolva…).

A perereca que apareceu na báscula do museu, engraçada de se ver por dentro. Abaixo, a ema se alimenta num dos portões da fazenda.

Precisa dizer mais? Mosquito não falta por aqui, apesar de termos sentido pouco devido à época seca. Mas a visão dos periquitos-príncipes-negros depois do café da manhã se alimentando no portão da fazenda faz a gente esquecer os mosquitos… 😉

No dia de ir embora, uma dorzinha no coração. Gostei muito de estar ali, vendo tanta ação em tão pouco espaço e tempo. Vi na prática diversos conceitos e cenas biológicas tão esterilmente estudadas – ali, elas se tornam vivas, razão de ser de um biólogo. Despedi-me da Carol, nossa anfitriã nota 10. E partimos para o próximo destino, com a certeza de que o Pantanal não é só um lugar físico repleto de biodiversidade para ser preservado e estudado: é um estilo de vida que emociona com gostinho de quero-mais a cada tuiuiu que deixamos para trás na estrada de terra.

Carol, nossa super-anfitriã, valeu demais por tudo!

Tudo de bom sempre.

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– Quero deixar um agradecimento mais-que-especial aos guias Luís, Roberta, Jair, Jonas, Guilherme e Giuliano, que nos acompanharam em todos os passeios e dedicadamente nos mostraram diversas facetas desse ecossistema lindíssimo, sem perder o sorriso no rosto. Obrigada de coração.



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