Pimenta na calçada dos outros é kimchi!

por: Lucia Malla Ásia, Comes & bebes, Coréia do Sul, Cotidiano

… E o verão no hemisfério norte vai se aproximando do fim. Tem dado seus últimos suspiros, e uma leve brisa mais fresca já páira nas manhãs e fins de tarde, contrastando com o calor manauense que sentíamos há um mês. Com o fim do verão, começa também a pipocar pelas ruas uma das tradições mais interessantes da Coréia do Sul, e marca registrada dessa cultura: a secagem da pimenta na calçada para fazer kimchi.

Pimenta na calçada
As pimentas na calçada secando em frente ao prédio onde moro, colorindo o passeio.

No início da primavera, mais ou menos em abril, as ajumás começam as plantações de tudo pelas ruas do país. Incluindo, é lógico, as ruas da cidade onde moro. Aliás, não sobra um buraquinho de terra, nem na beira do trilho do metrô, sem plantação, nem que seja de girassóis. Num país onde espaço é limitante (apenas 22% do território da Coréia do Sul é arável), é realmente necessário aproveitar cada centímetro quadrado. O verão vai-se, e nessa época em que estamos agora, é hora então de colher vários dos vegetais plantados, incluindo a pimenta.

A secagem da pimenta na calçada

Depois de colhida, a pimenta é colocada em geral para secar. Aí que entra então a parte interessante da história. A secagem da pimenta na calçada das ruas as transforma numa grande área de processamento. Não há pudor algum em espalhar um mundo de pimenta pelo chão. Ninguém rouba, ninguém come… Fica tudo lá, dias e dias, secando. Aquele mar vermelho no chão. Aliás, é esteticamente muito bonito. Obviamente, os coreanos têm noção de que não podem fazer isso em lugares movimentados. Então são geralmente as calçadas mais “esquecidas” que ganham o tapete vermelho de enfeite.

Pimenta na calçada para fazer kimchi - Coréia do Sul
As ajumás organizando a pimenta na calçada da pracinha do condomínio.

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Fazendo kimchi

Potes de kimchi - Coréia do Sul
Os potes de barro cheios de kimchi estocados no quintal de uma casa tradicional em Suwon.

Após a secagem, a pimenta é devidamente processada para virar kimchi, a comida nacional tradicional por excelência. O kimchi é produzido a partir da fermentação de alguma verdura ou legume (em geral, usa-se acelga) em enormes potes de barro especiais mergulhados em molhos de pimenta e sal, no quintal das casas. Os potes ficam fermentando por um longo tempo, muitas vezes até o fim do inverno.

No passado, essa era enfim a única forma de se estocar comida pro inverno, através de adição de sal. Uma técnica, aliás, que os coreanos aprimoraram e juntaram com pimenta. Cada família tem sua receita de kimchi própria, guardada com muito segredo e passada para as gerações seguintes. E então, a cada ano, esse processo de plantio, colheita, secagem e kimchização da pimenta se repete.

A pimenta é nutricionalmente muito rica. Adicionada ao vegetal que está fermentando no pote, torna portanto o kimchi um dos grandes segredos da boa saúde dos coreanos. É a presença de capsaicina na parte carnuda da pimenta que a faz ser picante. Além disso, diferentes variedades da planta têm diferentes níveis de capsaicina. O nível que agrada ao paladar coreano é o “ready-to-die” (ou, “pronto-pra-morrer”). Dei esse nome em homenagem a um pó de pimenta homônimo fortíssimo que tinha na república em que morava em Boston, que era um concentrado das 20 espécies de pimenta mais picantes do planeta juntas num pote minúsculo. Toda vez que um fariseu abria aquele pote na cozinha, eu lá do outro lado da casa começava então a espirrar.

Pimenta em tudo

A Coréia do Sul precisa produzir e/ou importar quantidades abissais de pimenta, para suprir a demanda infinita da cultura culinária vigente. Consome-se pimenta de manhã, de tarde e de noite – e se acordar de madrugada com “aquela” fominha, pode ter certeza que algo apimentado será devidamente traçado da geladeira. Não se cogita uma refeição sequer sem pimenta, soa tão inconcebível quanto um brasileiro que não sabe o que é futebol.

Acredito que para um estrangeiro como eu que mora aqui na Coréia, toda essa cultura da pimenta, essa tradição milenar artesanal, essa riqueza culinária, é uma experiência muito interessante de se vivenciar. Portanto, não deve ser deixada de lado.

Só tem um pequeno detalhe: eu sou alérgica à pimenta. 🙂

Pés de pimenta na horta comunitária - Ansan - Coréia do Sul
Pés de pimenta na horta do pátio de uma igreja evangélica perto do condomínio: cada espacinho arável deve ser aproveitado na plantação daquela que é a “religião culinária nacional”.

Tudo de bom sempre – sem pimenta na terra da pimenta.

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