Rodando na Ciência: Coréia do Sul

por: Lucia Malla Ásia, Ciência, Coréia do Sul, Cotidiano, Mallices

Um grande desafio. Foi assim que encarei a proposta de ir fazer ciência na Coréia do Sul, quando fomos contratados, André e eu, por uma empresa de biotecnologia próxima a Seul. Eu pouco sabia da Ásia a não ser o básico da informação geográfica. A curiosidade falou mais alto: “vamos!”. Matriculei-me na aula de “coreano de sobrevivência” e 6 meses depois encarei o desafio de morar na Coréia do Sul.

Chegada na Coréia do Sul

Ainda não me lembro direito do dia que cheguei em Seul. O jet lag me consumiu por boas semanas, e eu dormia e acordava fora do ar. Mas aos poucos fui acertando meu relógio biológico de modo a poder trabalhar efetivamente. Com tanta coisa nova de uma vez só e a enorme dificuldade para me comunicar com os coreanos, não foi raro eu chegar com dor de cabeça em casa no início da nossa temporada nas terras de Confúcio. Ainda lia coreano como uma criança de 6 anos aprendendo a ler sua própria língua. E me sentia patética levando 1 minuto para entender o nome de uma estação de metrô. Isto para não falar dos erros de leitura que geravam pequenos micos, é claro.

Rodando na ciência na Coréia do Sul
Prédio onde trabalhávamos em Ansan, Coréia do Sul.

Com o passar do tempo na Coréia, todas essas dificuldades de iniciantes foram se amenizando, e eu comecei a focar profundamente na nova linha de pesquisa que me levara ali. Estávamos numa empresa, a temática principal era “proteômica“, e precisávamos bolar um projeto que envolvesse diabetes tipo 2. Nem eu sabia direito o que era proteômica, naquela altura do campeonato. Mas eu entendia um mínimo de fisiologia de diabetes, e partimos daí para bolar o projeto.

No mundo da espectrometria de massa

Nossa chefe era uma expert em espectrometria de massa e havia um químico colaborador da Universidade de Dankook que produzia requintadamente compostos derivados de vanádio e zinco para testes – é sabido desde o início do século XX que alguns derivados de metais pesados melhoram a resistência à insulina que acomete o diabético. A vantagem desses compostos é que eles poderiam se transformar num futuro longínquo em pílulas, ou seja, tratamentos orais.

Montamos então um ensaio em grande escala (o chamado “high throughput”) feito por um braço robótico (aprender a lidar com o “robô” foi uma novela à parte) para testar esses compostos modificados. Nosso parâmetro era a eficiência da inibição do PTP1B, enzima-chave do metabolismo de insulina em humanos. A cada nova ligação carbônica que o colaborador adicionava nos compostos de metal pesado, a inibição do PTP1B era então registrada. Inúmeros ensaios depois, concluímos que o composto mais simples entre os vanádios era entretanto o de melhor eficiência.

Resolvemos então olhar para a inibição que esse composto acarretava em células de tecido adiposo (gordura) de camundongo, ou seja, num sistema vivo. Como bons fisiologistas endócrinos que somos, puxamos a sardinha pro nosso lado e incrementamos os experimentos analisando alguns hormônios e substâncias que o tecido adiposo libera normalmente – como esses hormônios se comportavam com tratamentos de vanádio. Indiretamente, medíamos a inibição da mesma enzima trocentos passos depois.

Para o projeto, tive a ajuda fundamental de um estudante de graduação chamado Min-chol, que mal falava inglês. Imagine a dificuldade de explicar ciência para ele, era como falar hebraico para um tuvalense. Min-chol me ajudava a fazer zilhões de Western Blots por dia. Graças à ajuda dele, conseguimos no final resultados bem legais das medições de hormônios secretados pelas células de gordura.

Ciência na Coréia do Sul é negócio

Entretanto, estávamos numa empresa pequena, onde o espaço para delírios viajantes científicos é restrito. De modo que por mais que o projeto de fisiologia fosse interessante, tivemos que começar a investir tempo numa aplicação que rendesse algo de volta à empresa. Talvez essa mentalidade da “ciência-business” tenha sido o maior aprendizado de ciência que tive na Coréia do Sul.

Entramos de cabeça em proteômica, de alta categoria. Começamos a desenvolver testes fisiológicos para comprovar a eficácia de placas de MALDI-TOF que a própria empresa desenvolvia, a preços beeeeem mais baratos que as do mercado. A tecnologia inovadora do produto foi então patenteada.

Apesar do sucesso do produto, cada vez mais nós sentíamos que era chegado o momento de partir. Três anos de ciência na Coréia do Sul se passaram e no final das contas, com todos os tropeços, micos e risadas, acho que enfim passei no teste da Ásia. E de vez em quando me pego com saudades de dizer umas palavras, como…

Anyeong hasseyiô!

(Vocês sabem o que significam as palavras que acabam um post em terras mallas…)

P.S.

  • Meu blog nasceu na Coréia do Sul, então muitos posts contam a vida por lá. Para lê-los, basta clicar na categoria Coréia do Sul.

Leia os posts da mini-série Rodando na Ciência

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