Sapiens – A saga da humanidade segundo Harari

por: Lucia Malla Evolução, Livros

São raras as vezes em que um livro não me anima. Afinal, sou da turma über-otimista que acredita que sempre existe algo novo a se aprender, mesmo nas mais toscas pataquadas. Mas “Sapiens – A Brief History of Humankind” (“Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”) , de Yuval Noah Harari, bateu recordes. Foram muitos parágrafos instigantes. Tantos que fiquei impressionada.

Sapiens - Yuval Noah Harari

Não houve sequer uma página de leitura em que uma idéia ou reflexão não tenha me deixado meio introspectiva, inundada por ondas de serotonina ou dopamina. A toda hora, a sensação de insights ou conexões inusitadas (óbvias, mas até então não feitas) na história dão ao livro uma cadência rara de se ter hoje em dia.

Sapiens – uma história conhecida

O mais interessante de tudo: não é uma história desconhecida. Afinal, o que é contado neste livro sensacional é a nossa história, a história da humanidade, que aprendemos desde cedo em aulas de ciências, história e geografia. Num formato de saga, estando todos envolvidos de alguma forma em todos os capítulos desta história.

No entanto, o constante questionamento da visão clássica debate com a pesquisa feita por Harari para o livro. Termina trazendo ideias inovadoras muito instigantes para a mesa deste debate humanitário. E preciso confessar: em tempos de hecatombe climática, hipotetizar que talvez sejamos as últimas gerações de Homo sapiens me deixou um pouco mais tranquila. #VaiEntender

Um incômodo

O ritmo, entretanto, que Harari põe ao livro me deixou em certos momentos incomodada. Achei frenético demais, overwhelming. Passando por diversos pontos de maneira bem en passant e enviezada para que consiga fazer seu argumento colar. E, afinal, cola, não precisa de muito, ora pois. Mal você reflete sobre um parágrafo e já tem um outro parágrafo te puxando pela camisa e dizendo: “venha me decifrar também”. Uma hora, a brincadeira de esfinge começa a cansar o leitor, infelizmente.

Como bióloga, vi esta superficialidade em diversos momentos relacionados à genética ou bioquímica, um foco destorcido ou uma martelação exagerada de certas ideias sem a profundidade necessária e sem o devido cuidado.

Entretanto, ao mesmo tempo que o ritmo frenético de Sapiens me deixou incomodada, admito que a aparente superficialidade que ele gera é necessária. Afinal, só a tentativa de explicar e refletir “profundamente” em algumas centenas de páginas toda a história da humanidade, dos Neanderthais ao futuro robótico, passando por história das comunidades e conceito das religiões, dos impérios, da agricultura, da evolução, da felicidade e todos os meandros e filosofices que isso trouxe e traz, já é um desafio que poucos encarariam. Fico feliz que Harari tenha o feito e compartilhado com a gente este resumão complexo e fascinante… da história da gente.

Questionamentos

E mais: que no caminho da construção deste resumão, como bom escritor, Yuval Noah Harari deixou espaço para diversos questionamentos fundamentais. Questionamentos sobre o nosso próprio viver, nossa espécie e os caminhos do futuro que vem aí. Este instigar constante foi definitivamente minha parte favorita da leitura.

É um livro para se ler com a mente o mais aberta possível, despida de qualquer pré-conceito, seja positivo ou negativo. Porque a ideia é jogar as ideias ali, e te fazer repensar a existência completa da espécie humana sapiens. Por exemplo, muitas das resenhas que li sobre o livro refletem mais os pré-conceitos de quem as escreve do que as intenções de Harari.  Este meu post, aliás, não foge desta regra.

Mas, no mundo polarizado de hoje, este exercício intelectual de introspecção e auto-reflexão despreconceituada sobre nossa teia biológica, social, emocional e global se faz muito necessário. Eleva, em minha opinião, o livro à categoria de must-read para os membros desta espécie dominadora e cheia de contradições. Encare esta viagem humanística e niilista sem medo. O aprendizado vale a pena.

Tudo de bom sempre.

P.S.

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