Tubarões na Antártica

por: Lucia Malla Animais, Antárctica, Antigos, Oceanos, Tubarões

A notícia veio do encontro da Academia Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) em Boston: tubarões e outros predadores podem invadir as águas polares da Antártica, se a temperatura dos oceanos continuar subindo – basta se manter acima do ponto de congelamento durante o ano todo e já é suficiente para os tubarões começarem a se estabelecer. Será supostamente uma festa de predadores, ou pode se tornar um dos grandes problemas marinhos da história natural. Afinal, é um animal do topo da cadeia alimentar explorando um novo, rico e desconhecido nicho para sobreviver.

Comparando-se com as águas tropicais, na Antárctica existem poucos grandes predadores “devoradores”. Basta lembrar que muitas baleias que estão por lá são filtradoras, não rasgam suas presas para se alimentar. Por causa disso, a maior parte dos animais que vivem no mar da Antártica são animais de corpo mole e movimentos lentos, as presas ideais para tubarões ágeis. Os tubarões estão na Terra desde o Ordoviciano, há 400 milhões de anos e ironicamente acredita-se que eles surgiram evolutivamente na região entre a Antárctica e a Austrália – é isso que o registro fóssil de dentes nos diz. Ou seja, tubarões já existiram na Antárctica e quando as águas ficaram gélidas, eles buscaram outras pairagens há mais ou menos 300 milhões de anos, no período Carbonífero. Agora, poderiam voltar para seu “lar, doce lar”.

Entretanto, essa “volta” do animal ao seu local de origem não deve ser encarada de forma amena. Afinal, são as condições climáticas modificadas pelo homem que estão gerando a mudança, e certamente o impacto no ecossistema antárctico será preocupante para inúmeras outras espécies. Uma percepção é o animal ir se aprochegando para um local aos poucos, dando tempo evolutivo às espécies para se adaptarem; outra coisa é a mudança abrupta, a invasão em um local onde a espécie passou a ser uma intrusa. Claro, evolução pode acontecer exatamente a partir desse processo abrupto, mas vale lembrar que dessa vez a mão humana por trás do fato deixa a história meio desconfortante. Dada a óbvia falta de fronteiras físicas no mar, o tubarão obviamente apenas vai nadando, e enquanto a água estiver na temperatura que lhe é adequada. Se essa temperatura chega até o polo sul, ele vai até lá, porque obviamente não discerne a região – está apenas seguindo seu instinto.

Mas a notícia colocada pela AAAS é por demais interessante de analisar, se não fosse por um pequeno detalhe: tubarões vêm sendo dizimados a uma velocidade absurda. A própria espécie mais “adaptável” às condições antárcticas, o tubarão-cachorro (spiny dogfish, em inglês), que foi estudada pela dupla de pesquisadores que apresentou o estudo, já é um dos mais pescados em águas temperadas, como pudemos perceber ao vivo e a cores na feira de Busan.

São aproximadamente 30 milhões de tubarões por ano [link em pdf] dizimados pescados pelo mundo afora. A esse ritmo de destruição, raras serão as espécies de tubarões que conseguirão ultrapassar a fronteira antárctica por uma questão óbvia: já não mais existirão. Independente de adaptação metabólica, de fisiologia, de teia alimentar, seremos nós, humanos, os responsáveis pela extinção deles. Com essa perspectiva, queria eu que eles tivessem pelo menos a chance de causar algum impacto na Antárctica antes de serem pescados pelos oceanos do mundo…

Tudo de tubarão sempre.

Tubarões

Tubarões-cachorro (Squalus acanthias) à venda na feira de rua de Busan, Coréia do Sul.

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– Em nota paralela tubaronística, encontrei (via Dod’s) um press release da ONG Oceana celebrando finalmente o fim de uso de óleo do fígado do tubarão em cosméticos. O esqualeno, composto químico principal do óleo utilizado pela indústria da beleza, foi retirado de seus produtos pela UniLever (Dove e Pond’s) e pela L’Oreal. Outras empresas menores, como Clarins, Boots e La Mer, também já concordaram em não mais produzir nada utilizando esqualeno na fórmula. Na atual conjuntura, devemos comemorar o mundo ter um motivo a menos para acabar com tubarões. Um viva à Oceana pela persistência nessa luta!



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