Missão Secreta: Visita ao International Spy Museum

por: Lucia Malla América do Norte, EUA

Em minha última visita a Washington DC, me aventurei a fazer uma nada secreta visita ao International Spy Museum – o Museu Internacional da Espionagem. O tempo estava chuvoso e frio, ideal para passeios indoor. Além disso, eu a-d-o-r-o filmes de espionagem e intriga internacional, de James Bond a Jason Bourne. Então, quando descobri a existência deste museu na capital americana, inclui imediatamente no meu roteiro.

Visita ao International Spy Museum - Why Spy?

Pensa bem: é um museu dedicado a um mundo secreto de informação, disfarces, códigos, espionagem e contra-espionagem. Um mundo real praticamente invisível, que ali se revela (um pouco, apenas) aos reles mortais não-espiões. Achei que seria fascinante ter a oportunidade de entrar na mente dos que vivem neste mundo paralelo da nossa sociedade.

Na entrada do International Spy Museum

International Spy Museum - Washington DC
Fachada do novo prédio do International Spy Museum, cujo tema é All is not what it seems. Foto de Nic Lehoux, cortesia de Rogers Stirk Harbour + Partners (RSHP).

A arquitetura do novo prédio do International Spy Museum é um espetáculo à parte. Foi elaborado pelo arquiteto Richard Roger, o mesmo da fachada do Centre Pompidou em Paris. O prédio é um moderno quadrado preto cercado por vidro, que, como bom exemplo de disfarce, é transparente – mas sem revelar nada do interior. Ou seja, o prédio brinca com a ilusão. Em termos de idealização, nenhum conceito poderia ser mais condizente com o tema do museu.

Assim que entrei no lobby, me deparei com dois itens em exibição bem interessantes. Primeiro, um conversível prateado Aston Martin DB5 com a sugestiva placa “JB 007”. O carro foi utilizado no emblemático filme de espionagem “Goldfinger” do agente 007. Segundo, pendurado do teto, um Amber drone laranja para missões de reconhecimento fotográfico aposentado pela inteligência americana.

Depois de pagar o ingresso (US$24.95 para adultos), fui colocar meu casaco no coat room. Ali, já me deparei com a mensagem engraçadinha abaixo em um dos armários, exemplo do que seria a pegada deste museu.

Missão Secreta

As exposições do Spy Museum ficam no 5º e 4º andar do prédio – nesta ordem. Assim que você chega no 5º andar, você está no Briefing Room, onde cada visitante recebe um crachá de agente secreto e uma missão de espionagem para executar durante a visita. É o seu undercover mission, ou uma missão secreta. Portanto, enquanto passeia, você brinca de espião. O que torna o museu perfeito para crianças maiores, adolescentes e adultos empolgados. 😀

A seleção do seu undercover mission segue um questionário estilo buzzfeed. Para a missão secreta que lhe é dada, você terá que assumir uma nova “identidade” e executar uma tarefa secreta. Minha missão, por exemplo, consistiu em desvendar uma rede de roubo de antiguidades no Egito. Minha identidade falsa: Micha, uma arqueóloga nascida no Rio de Janeiro (!!).

Principais galerias

O International Spy Museum é dividido em galerias temáticas. Em geral, em cada uma delas também passa um vídeo com o depoimento de ex-espiões, o que torna tudo mais interessante. Em todas elas também, um monitor te dá pistas para desvendar sua missão secreta.

Ou ainda avalia sua capacidade para ser espião através da participação em atividades interativas sobre decisões de inteligência e espionagem baseadas em fatos reais. Por exemplo, numa destas estações de decisão, tivemos que decidir o que fazer ao descobrir que milhões de cartões de crédito de um banco foram hackeados. Aliás, a solução final a este problema só ilustra a complexidade dos desafios da inteligência no mundo digital.

Visita ao International Spy Museum – 5º andar

A visita ao International Spy Museum começa no 5º andar, onde ficam as galerias sobre Roubo de Segredos, sobre Códigos Secretos e sobre Técnicas Usadas em Missões Secretas, de sabotagens a propagandas de governo.

Na galeria de Roubo de Segredos, vários gadgets usados em espionagem estão em exibição. De bíblias escritas em microdots a interceptadores de conversa colocados em objetos simples do dia-a-dia, como canetas, guarda-chuvas e afins. Além de revólveres e outras armas bizarras, como o batom-revólver.

Dos gadgets que vi, chamaram minha atenção dois que eram a cara dos tempos de Guerra Fria entre EUA e URSS: um tijolo e um cano de água com interceptadores. Onde foram usados? O tijolo foi inserido na embaixada russa em Washington durante sua construção por trabalhadores espiões americanos. Já o cano com um dispositivo de escuta era parte do projeto hidráulico da embaixada americana em Moscou. Como diz o ditado: toma lá, dá cá.

Tijolo americano - Visita ao International Spy Museum
O tijolo americano…
Cano russo - Visita ao International Spy Museum
… e o cano russo.

Senhas e Estratégias

Já na galeria de Códigos Secretos, o destaque são as inúmeras versões da máquina Enigma, o histórico encriptador de mensagens usado durante a Segunda Guerra. Há versões suíças e japonesas, além de um painel enorme contando a genialidade de Alan Turing para decifrá-lo no Bletchley Park, museu britânico sobre espionagem na 2a Guerra Mundial que visitei anteriormente.

Na galeria de Técnicas Usadas em Missões Secretas, há diversas menções às técnicas de distração e de disfarce. Inclusive, você, em sua identidade secreto, é convidado a se disfarçar para não ser reconhecido em um encontro com um informante. Pura diversão.

Mas o destaque desta galeria fica com uma análise psiquiátrica e psicológica detalhada de JFK e Kruschev, os líderes da Guerra Fria no final da década de 60. É incrível perceber como, baseado em traços de personalidade tão simples, decisões drásticas foram tomadas que mudaram o rumo da história no século XX.

Visita ao International Spy Museum – 4º andar

No 4º andar, estão as galerias sobre História da Espionagem e os Desafios da Espionagem Atual. Além destas, uma área imensa mostra como era Berlim durante a Guerra Fria, com o muro dividindo. Claro, sob o ponto-de-vista da espionagem.

Quarto - hotel Adlon - Berlim Oriental
Quarto especial do hotel Adlon, na antiga Berlim Oriental.

Achei o máximo a reconstrução de um dos quartos do vintage hotel Adlon, em Berlim Oriental, onde se hospedavam os visitantes importantes da época. Alguns dos quartos deste hotel eram estrategicamente bugados, ou seja, com diversos interceptadores de conversa e câmeras fotográficas – um deles dentro de um relógio-cuco. Para clientes “especiais” mesmo, com muita informação para oferecer…

Na galeria da História da Espionagem, um sumário de todas as principais operações de espionagem, dos tempos milenares de Genghis Khan até as propagandas governamentais atuais. Além disso, mostra detalhes da operação de libertação dos americanos da embaixada canadense em Teerã, que inspirou o filme Argo.

Infinity Room.

Outro destaque é o “Infinity Room”, proavelmente o ponto mais instagramado do museu, sobre os desafios da vida cibernética. Dá pra se “perder” neste quarto de espelhos.

Desafios Atuais da Espionagem

Na galeria dos Desafios Atuais da Espionagem, estava o interessantíssimo painel sobre os 10 espiões russos presos em 2010 que viviam como americanos normais. O painel incluía suas identidades falsas, além de cartões postais simpáticos que enviavam com informações. Foi a prisão destes russos que, aliás, inspirou o roteiro do seriado The Americans, que é dos meus favoritos.

Visita ao International Spy Museum
The Americans: os verdadeiros.

Neste andar também fica a sala dedicada aos filmes e seriados que exploram a espionagem e a intriga comercial. Com um plot twist: enquanto você vê os cartazes dos filmes, ex-espiões contam em vídeo quais são seus filmes prediletos de espionagem. Principalmente, aqueles que eles acreditam mostrar com mais veracidade como é a vida de espião. (Hint: não é o James Bond.)

Espiões do cinema e da TV.

Debriefing

Assume nothing - Visita ao International Spy Museum
Debriefing Room.

A visita ao International Spy Museum termina no Debriefing Room. Ali, você recebe a avaliação final da sua capacidade para ser espião, baseado nas diferentes tarefas que precisou executar enquanto estava undercover. Achei esta brincadeira da missão secreta uma grande sacada do museu. Afinal, faz com que o visitante preste mais atenção ao que está sendo mostrado, percebendo o quão importante é uma determinada estratégia para o sucesso na obtenção de uma informação.

Minha avaliação sobre o International Spy Museum

Como cientista, uma profissão que se nutre de desvendar o desconhecido sob a forma de peças de quebra-cabeça, achei o International Spy Museum um grande exercício experimental do poder de decisão, valorizando a aquisição de informação de qualidade – o que vale para a ciência também. E como fã pessoal de filmes de espionagem, a gincana da missão secreta enquanto se põe no lugar de um espião de verdade foi uma grande diversão, perfeita para uma tarde chuvosa.

O International Spy Museum se revelou portanto um dos segredos mais instigantes de Washington. A senha final que deixo é: não deixe de visitá-lo.

Tudo de bom sempre.

Uma Malla no International Spy Museum, ao lado de um carro conhecido.

P.S.

  • Como chegar: o museu da Espionagem em Washington fica no número 700 L’Enfant Plaza, em frente ao prédio do correio americano (USPS). Dá pra chegar de metrô, estação L’Enfant Plaza.
  • O museu da Espionagem fecha às 4as feiras. Funciona nos demais dias de 10:00 às 18:00. O ingresso custa US$24,95 para adultos e US$14,95 para crianças de 7-12 anos. Menores de 7 anos têm entrada gratuita.
  • No canal do museu no youtube há uma seleção variada de depoimentos de ex-agentes de espionagem. Aliás, valem cada segundo para quem gosta do tema.

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