Descendo do salto

por: Lucia Malla Antigos, Comportamento

Faz algumas semanas que eu me deparei com um post do 80beats que comentava uma pesquisa sobre uso de saltos altos. Nada de novo no front: mulheres que usam com frequência saltos altos terminam com um encurtamento e enrijecimento do tendão do calcanhar e encurtamento das fibras musculares da batata da perna, e com isso, têm mais dificuldade (ou dor) para andar com os pés “no chão” como é o mais comum. Ou seja, vira uma bola de neve: usar mais saltos altos porque andar de salto baixo dói mais. (Que mulher não sabia disso, mesmo que empiricamente, desde mil novecentos e bolinha?)

Particularmente, eu raras vezes uso saltos altos. Minha profissão não exige saltos no dia-a-dia, apenas sapatos fechados no laboratório – tênis nesse caso funciona, e a partir de amanhã, será um tão-sonhado fivefingers preto. Eu me casei descalça e, depois dessa, pouquíssimos são os eventos sociais que me fazem calçar algo mais imponente. (Fui das que mais entusiasticamente adorou a tradição de distribuir chinelos de lembrança nos casamentos brasileiros.) E com isso, termino sofrendo do problema reverso ao das que preferem o charme das alturas: toda vez que preciso andar de salto alto, sofro. Muito. Meu pé, aliás, de tanto andar de chinelo pra cima e pra baixo – aqui no Havaí chinelo é o pisante de toda ocasião, inclusive em restaurantes finos – sente-se confuso quando precisa enxergar o mundo de cima de um saltinho mais elevado. Entendo o charme da coisa, o appeal, mas para mim, o desconforto fala muito mais alto que o salto.

De modo que me diverti horrores quando vi esse par de sapatos no Fishing Fury (via @thesciencebabe no twitter): um pé de pato de salto.

Sério, não dá pra existir algo mais desconfortável que isso. E por isso é tão engraçado, pela tentativa de unir, mesmo que apenas em nome da arte da moda, duas tendências que não combinam em nada mesmo.

E eu me pego filosofando em quanto esses sapatos são uma divertida metáfora do meu atual cotidiano científico onde estou nadando em dados discordantes: a tentativa de juntar elementos e resultados que não combinam em nada e transformá-los em um terceiro que, se não te trazem um benefício imediato funcional, pelo menos te fazem refletir e repensar. Quem sabe renovar, inovar. E abrir um sorriso. O que, muitas vezes, é o que basta.

Tudo de bom sempre.

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P.S.: Olha o salto alto de mergulho na vitrine!

P.S.2: O Southern Fried Science está promovendo a “It’s an Ocean of Pseudoscience Week”, tentativa científico-blogueira de desmistificar todas as balelas científicas possíveis que a gente ouve por aí relacionadas ao oceano. Vale dar uma passada lá durante a semana e ler alguns dos posts.



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