Fragmentos florestais

A foto acima foi tirada numa estrada de terra no interior de Minas Gerais, próxima à cidade de Rio Pomba. É uma paisagem interiorana relativamente comum: morros, pasto, casinha, mata. Mas, aos meus olhos de bióloga, ela revela em microescala um aspecto ecológico interessante.

Há um pedaço de floresta no topo do morro central; logo abaixo, uma área de pasto, provavelmente pertencente à casinha do centro; e no canto esquerdo, outra área florestal entremeada por uma plantação de bananas. Ou seja: dois fragmentos florestais isolados por uma área de pasto.

Agora imagine isso em macroescala – áreas descampadas de muitos quilômetros separando dois fragmentos florestais. Pois essa é a situação em que se encontra a maioria da Mata Atlântica e pedaços significativos da Amazônia: em fragmentos.

Esses fragmentos, obviamente, surgiram de forma aleatória no passado, empurrados que foram pelo crescimento de cidades, pela atividade agropecuária, pela construção de estradas. E quando se percebeu, o ecossistema florestal já estava todo retalhado. Aí começou um debate que ainda se mantém: como preservar áreas fragmentadas? Ecologicamente falando, o quanto vale uma área preservada comparada a uma área de floresta contínua?

Sobre essas questões, muitos pesquisadores se debruçaram, e baseados nas idéias de biogeografia de ilhas, começaram a montar experimentos para avaliar as consequências da fragmentação florestal. No Brasil, um grupo enorme do INPA se juntou ao Smithsonian Institute e a especialistas da área de fragmentação ecológica (como meu querido professor de Ecologia Paulo De Marco) para fazer esse estudo na floresta Amazônica – o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF). Alguns resultados já estão no site do projeto, além de um enorme banco de dados, e mostram algumas surpresas interessantes.

Há uma perda considerável da biomassa com a fragmentação – um efeito que no final das contas pode ser um dos responsáveis pelo aumento da emissão de gases do efeito estufa, já que se perdem muitas árvores de grande porte com a fragmentação. Certas espécies de plantas e animais tornam-se mais frágeis em fragmentos. Ocorre acentuadamente também nos fragmentos o chamado “efeito de borda”, que é a maior fragilidade ds indivíduos de espécies que estão nas regiões de limite da floresta com as áreas descampadas. Mostrou-se por exemplo que as árvores que estavam nas bordas tinham uma taxa de mortalidade 7 vezes maior que as que estavam em regiões mais internas. Há uma diminuição da biodiversidade de primatas, aves e boa parte dos insetos. Entretanto, alguns grupos animais, como borboletas, anfíbios e pequenos mamíferos aumentaram em biodiversidade ao se isolarem nos fragmentos. Ou seja, para esses grupos, todo o embasamento teórico da biogeografia de ilhas simplesmente não se aplica.

A partir dos dados levantados por estudos como o do INPA, pode-se elaborar planos de gerenciamento político-ambiental da região mais eficazes: indicar quais áreas são mais importantes de serem preservadas na íntegra, quais áreas podemos assentar pessoas sem grande prejuízo da mata, mapeando e valorando a floresta. E foi a partir de estudos assim que surgiu também a idéia maravilhosa e vencedora do corredor biológico, uma área contígua de floresta que una diferentes parques. Para unir as áreas, basta reflorestar pequenos trechos entre elas, formando uma faixa de ligação. Na Amazônia, o corredor foi implementado com a criação de reservas adjacentes em 3 grandes regiões; com isso, preservou-se uma área contígua de floresta tropical que é a maior do mundo.

Já na Mata Atlântica, a situação é bem mais complicada, porque a fragmentação da floresta é muito maior e os fragmentos estão mais afastados uns dos outros. Há mais efeito de borda a ser considerado, e consequentemente maior degradação. Há projetos interessantes, que gerariam 3 grandes corredores: o Central, que engloba ES e boa parte do litoral baiano; o do Nordeste, protegendo áreas do litoral sergipano até o RN; e o corredor da Serra do Mar, nos litorais carioca, paulista e paranaense. Há ainda a intenção específica de criar corredores que auxiliariam na preservação de algumas espécies mais ameaçadas, como comentei no post sobre o muriqui-do-norte, cuja existência mundial está restrita a poucos fragmentos de mata Atlântica, predominantemente um minúsculo em Caratinga (MG).

Na Amazônia, onde a realidade da conservação via corredores já existe. A foto é de Mamirauá, que pertence ao corredor que engloba também as reservas de Amanã e Jaú. Ao lado, um muriqui-do-norte, primata extremamente ameaçado e que sobrevive em pouquíssimos fragmentos de mata Atlântica.

Quando estive no Roda Viva, lembro que o ministro Carlos Minc comentou sobre os corredores da Amazônia e da Mata Atlântica, e o quanto o Ministério do Meio Ambiente estaria entusiasmado com a idéia de criar mais corredores e unirem as áreas fragmentadas. Dada que essa é talvez a única alternativa viável hoje em dia com o nível de fragmentação que chegamos, é aguardar para ver o quanto a gente consegue unir para formar um tapete verde de conservação que chegue intacto como riqueza às gerações futuras.

Tudo de bom sempre.

****************

– Esse post é comemorativo do Dia de Proteção às Florestas, e faz parte da blogagem coletiva que o Faça a sua parte está promovendo hoje.



497
×Fechar