Mal de Alzheimer: uma doença metabólica?

por: Lucia Malla Biomédicas, Ciência, Diabetes, Molléculas da vida

Recentemente, um estudo foi publicado na revista Neurology associando diabetes tipo 2 e o aparecimento do mal de Alzheimer – que chamo simplesmente de Alzheimer para facilitar. A ligação destas 2 desastrosas patologias já é sugerida há algum tempo na comunidade científica e médica. Ambas são consideradas “doenças do envelhecimento”. Mesmo que a diabetes tipo 2 seja cada vez mais comum em pessoas jovens.

A diabetes pode, se mal-cuidada, afetar a microcirculação sanguínea em diversos órgãos (incluindo o cérebro). Isto aumentaria o risco de desenvolvimento de lesões locais. O que, no final das contas, pode gerar um certo nível de demência, dependendo de onde a lesão se encontre. Sabemos que demência é a característica aparente mais marcante do Alzheimer’s. Além disso, já se sabe que a diabetes pode diminuir a quantidade de transportadores de glicose no cérebro, o que diminui a inserção de glicose em moléculas ligadas ao desenvolvimento do Alzheimer.

Para jogar mais água no feijão, a insulina nasal já é sugestão bem-sucedida de tratamento de demência leve. O que mostra mais uma vez que, hmmm… Pode haver mesmo uma correlação entre as duas doenças. Pelo menos, o tratamento de uma deu resultados na outra. Coincidência ou causalidade?

Alzheimer nos japoneses

O estudo publicado foi além. Mostrou que, num grupo grande de diabéticos tipo 2 japoneses (que possuem características um pouco diferentes dos diabéticos ocidentais, vale ressaltar), houve associação dos níveis de glicose no sangue com o aparecimento das placas neuríticas de amilóide*. Estas placas são típicas da progressão do Alzheimer’s. Os dados foram ajustados para uma série de fatores, e os pesquisadores conseguiram obter significância estatística na associação entre as 2 doenças. Para desespero dos 220 milhões de pessoas que sofrem com diabetes no mundo (dados da OMS).

Mas, queria divagar um pouco sobre algumas questões que este estudo levanta.

Questão 1: a população estudada

Primeiro, o grupo experimental: japoneses. Há sabidamente uma diferença no desenvolvimento da diabetes em diferentes etnias, principalmente japoneses. Ocidentais em geral apresentam obesidade como causa primordial da diabetes tipo 2. Já os asiáticos tendem a ter a maior parte de suas complicações relacionadas ao sistema cardiovascular, mesmo se diabéticos. Eles, aliás, não são geralmente super-gordos (para nossos padrões, entenda-se). Não se sabe ao certo como estas diferenças étnicas podem ser relevadas num estudo de associação como este publicado no Neurology.

Será que a correlação glicose-aparecimento das fatídicas placas de amilóide no cérebro é uma característica de todos os diabéticos independente de sua etnia ou é mais prevalescente entre os diabéticos orientais? O estudo não tem como responder isso, pelo menos não há um grupo experimental de diabéticos não-orientais. Ou seja, estudos em não-orientais precisam ser feitos para clarear essa correlação.

Questão 2: a dificuldade de aferir em tempo real

Segundo, a dificuldade de se estudar Alzheimer’s na prática. A complicada coleta de dados decisivos, que pode passar por anos de espera, já que a doença é de progressão lenta em boa parte dos casos. No estudo da Neurology, por exemplo, os cérebros só puderam ser analisados em detalhe depois do falecimento dos pacientes. Aí então os pesquisadores puderam se certificar da existência ou não de placas de amilóide, das fibras características da doença e finalizar a associação desejada.

Além dos testes psiquiátricos, não há muito disponível no mercado para confirmar o diagnóstico de Alzheimer’s. Há pessoas com Alzheimer’s que desenvolvem demência e têm grandes placas de amilóide, visíveis por PET scan, e essas são de fácil diagnóstico. Mas há aquelas (e não são poucas) que, ao invés de grandes placas, formam múltiplos depósitos de amilóide microscópicos e de fibras neurotangliares dentro do cérebro. Não há como detectar essas microdiferenças histológicas em exame laboratorial comum.

Para piorar a situação, há indivíduos que desenvolvem Alzheimer e não têm tantas placas assim. Ou pior, pessoas que já possuem placas visíveis e não têm sinal algum de demência. O que deixa os pesquisadores mais confusos ainda. Muito da pesquisa de Alzheimer é feita em linhagens celulares de laboratório, que são apenas o primeiro passo embrionário no processo de desenvolvimento de drogas que curem a doença, ou em animais. (E pense nos 2 anos em média que se espera para um camundongo ficar velho e desenvolver Alzheimer.) Só então é cabível uma analogia com humanos e o animal poder oferecer dados utilizáveis em pesquisa.

Ou seja, uma eternidade em termos de ciência biomédica. E esses são apenas os primeiros passos para o desenvolvimento de uma droga que funcione contra qualquer doença.

Questão 3: a causa do Alzheimer

Terceiro, a causa do Alzheimer’s. Ninguém sabe ao certo. Há suspeitas e indícios fortes de componentes genéticos, de diferentes estilos de vida, de hábitos nutricionais, de estímulos mentais ausentes no correr dos anos. Mas ainda não há um martelo certeiro para dizer: é isso. Não se sabe o que leva uma pessoa a começar o processo de acúmulo de amilóides, que impedem a formação e/ou manutenção de conexões neuronais, e iniciar a demência. O fato de ter se confirmado um fator de risco – a existência de diabetes – já é um enorme passo para começarmos a entender esta complexa causalidade.

Neste momento, essa é uma área “quente” dentro do ramo das neurociências. Porque se confirmado que em humanos o Alzheimer’s é na realidade uma disfunção do metabolismo da glicose, ou um defeito da sinalização de insulina… Aí a corrida do ouro vira corrida dos diamantes para a pesquisa biomédica. Porque se matarão duas patologias que afetam milhões com uma cajadada só.

Alzheimer e Diabetes

No cérebro, a glicose entra na célula de uma maneira diferente, independente de insulina. Faz sentido: o cérebro é o órgão que mais precisa de açúcar no nosso corpo, não pode ficar dependente de insulina. Entretanto, há mecanismos que achávamos “secundários” neuronais que dependem da insulina. Pelo visto, não tão secundários assim com relação ao aparecimento do Alzheimer. É fascinante aos meus olhos de cientista saber que é uma mesma via metabólica, a absorção e uso da glicose, em uma célula diferente, gera uma doença completamente diferente. Mostra o quanto realmente nosso conhecimento é um grão de areia na praia.

E pode facilitar a busca de uma solução, para ambas as doenças, que já vou viajar na maionese, puxar a sardinha pro meu lado e chamar aqui, diabetes e Alzheimer, de “doenças metabólicas”. Afinal, para uma pessoa endocrinocêntrica como fui treinada, tudo na vida passa pela comunicação hormonal. E o hormônio insulina, nessa via de comunicação entre células, é a mais básica unidade elementar de linguagem dos animais: a molécula gutural que garante energia para a gente agir, pensar e viver.

Tudo de bom sempre.

*amilóide (na realidade, beta-amilóide) é um peptídeo, ou seja um pequeno pedaço de proteína. Quando falamos em amilóide no Alzheimer’s, são agregações destas proteínas formando as placas.

Mal de Alzheimer

(Ou até o Alzheimer’s chegar…)

P.S.

Eu juro de pé junto que não sabia de tal data comemorativa. Quer dizer, mais pra discussão e conscientização sobre o tema que “comemoração”, já que em geral não se celebra doença. Enfim, 21 de setembro, é o dia Mundial do Alzheimer’s. Coincidentemente, publiquei este post 2 dias antes sobre o tema. Então… com esta serendipidade, fica aí a minha contribuição bloguística à causa. Valeu, Sibele, por me lembrar da data!



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