Viagem pela memória da escravidão

por: Lucia Malla África, EUA, Livros

Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, “Slavery in the Age of Memory“. O livro sobre a memória da escravidão foi escrito pela historiadora Ana Lucia Araújo, professora da Universidade de Howard em Washington, uma das mais tradicionais dos EUA (e onde a atual Vice-Presidente eleita Kamala Harris graduou).

"Slavery in the Age of Memory" - de Ana Lucia Araújo - Memória da Escravidão
“Slavery in the Age of Memory”

Decidi lê-lo para aprender um pouco sobre a memória da escravidão, depois de tantas notícias sobre os monumentos supremacistas que tombavam, bandeiras que estão sendo mudadas ou retiradas pelo mundo, e outros eventos repercutidos após a primavera do Black Lives Matter. Foi uma escolha sensacional, que recomendo veementemente.

A leitura de “Slavery in the Age of Memory

“Slavery in the Age of Memory”, aliás, me arrebatou. Foi daqueles livros que depois que você termina, fica até meio estatelada, tentando digerir tanta informação incrível que aprendeu. Esperava algo academicista, e como pessoa de fora da área de História, estava até com receio de achá-lo “lento” ou difícil de entender para leigos. Pois me surpreendi exatamente com a facilidade de sua leitura. Há uma riqueza de informações, exemplos e pesquisa fenomenal a cada página do livro. Entretanto, esta riqueza em momento algum é contada de maneira cansativa. Pelo contrário, o livro é envolvente, acadêmico na medida certa.

Afinal, a autora e historiadora Ana Lucia Araújo é uma expert em história do racismo e da escravidão nos EUA. (Conheci-a nos primórdios dos blogs, ainda em 2005, quando mantinha um blog cheio de perspicácia.) Sua pesquisa é primorosa sobre alguns dos principais monumentos e locais que hoje em dia mostram a memória da escravidão. De estátuas e monumentos, passando pelos plantations e “listas de nomes”. Tudo é detalhado com uma acuidade incrível em sua escrita. Principalmente, não é uma leitura condescendente, em que a autora precisa pensar pelo leitor. Como historiadora, ela aponta os fatos e seus enviesamentos. Você, leitor, faz seu “julgamento”.

Os detalhes e acontecimentos históricos discutidos a cada capítulo são fascinantes. Estão postos de maneira a levar a uma reflexão profunda sobre como a história dos negros, do tráfico de escravos e da escravidão em si, ainda hoje, é contada e memorializada pelo viés branco. E, principalmente, quais mecanismos temos para mudar este cenário.

Monticello e Mount Vernon

Pelos capítulos de “Slavery in the Age of Memory“, Ana Lúcia usa exemplos de memoriais, museus, fazendas e afins que mostram a história da escravidão para discutir diferentes aspectos culturais desta memória.

Mount Vernon - Casa de George Washington em Alexandria - Washington DC - EUA
Mount Vernon

Por exemplo, há um capítulo inteiro analisando às propriedades de Monticello e Mount Vernon. Estas fazendas pertenciam respectivamente aos ex-presidentes americanos Thomas Jefferson e George Wahsington. Ambos os presidentes tinham escravos, que viviam nestas propriedades.

História é factual. Sua interpretação, entretanto, é enviesada. E é isto, portanto, que acontece em ambas as propriedades. Visitei Mount Vernon em 2014, e me lembrei imediatamente da constatação que a autora faz. Mount Vernon é visitada em sua maioria por brancos interessados na história do país. Nela, o espaço dedicado à memória dos negros que ali viveram é ínfimo. Todo o foco da visita é na vida e costumes da família dos presidentes – de fato, não me lembro de ter visto menção à escravidão durante minha visita. Em face da importância histórica dos negros para o funcionamento destas propriedades e para estes costumes, o que ainda se faz nestas propriedades é apagar a memória da escravidão. Há esforços na direção contrária. Mas estes esforços ainda são poucos e precisam ser melhor incorporados pela administração destes pontos turísticos americanos.

Sobre senzalas

O mesmo occore com as fazendas do sul dos EUA e no Brasil. Muitos pontos onde ocorreu escravidão hoje são abertos à visitação turística. Mas poucos se esforçam para memorializar historicamente a participação do negro de maneira não-vitimista. As senzalas que visitamos em Ouro Preto são outro exemplo. Nestes pontos históricos turísticos, a escravidão é mostrada sob uma postura vitimista, onde o negro parece nunca ter tido nenhum tipo de agência, nem mesmo na hora de escolher como contar sua própria história. A memória ativa do indivíduo negro é invisibilizada no passado e ignorada no presente.

Aliás, Ana Lucia argumenta que, mesmo em museus tipicamente de história negra ou que têm galerias inteiras dedicadas a esta história, ainda há muito da postura vitimista. Que é um viés branco da história.

E como fazer para que a memória da escravidão saia da senzala histórica?

Voz ativa

Parece óbvio, mas precisa ainda ser reiterado. A principal forma de mudar a perspectiva enviezada branca da memória da escravidão é perguntar à comunidade negra como eles gostariam que tal história fosse contada. Em “Slavery in the Age of Memory“, Ana Lucia oferece alguns exemplos positivos de pontos do planeta onde isto foi feito. Onde foi dada às comunidades negras o poder de decisão de como contar sua história.

É importante lembrar também que cada caso é um caso. Não há uma forma padronizada de apresentar a memória da escravidão, uma receita que funciona para todos os pontos do planeta onde a escravidão esteve entranhada na história. Cada um destes pontos de memória escravocrata tem suas peculiaridades. Por isso, a prioridade em se ouvir a comunidade local. É ela quem deve ter agência, ser a voz mais ativa na busca de soluções eficazes para contar sua própria história.

Os lados do turismo histórico

Com tantos exemplos discutidos de maneira tão contundente, o livro “Slavery in the Age of Memory” me fez pensar e repensar muito no turismo histórico que fazemos. Muito além da escravidão, aliás. Porque toda a história interpretada é a narrativa de uma relação de poder. Quando esta história é contada, o quanto muitas vezes o viés escolhido não é claro. Embora o viés costuma sempre ser do vencedor nesta relação de poder. Com isso, a gente termina aceitando certas narrativas sem refletir muito.

Um exemplo de fora da escravidão que sempre me ocorre (por sua proximidade) é o ataque de Pearl Harbor. Quando visitamos o Parque Memorial de Pearl Harbor aqui no Havaí, não há sequer uma menção de que a resposta americana a Pearl Harbor foram duas bombas atômicas cruéis no Japão. Os EUA se colocam em Pearl Harbor apenas como vítimas do ataque japonês. Consequentemente, se você vai em Hiroshima, o oposto acontece: o Japão se mostra vítima das bombas, mas não menciona o que levou a estas bombas, o ataque surpresa a Pearl Harbor. A sequência dos fatos históricos é clara, mas a interpretação e, principalmente, a memorialização da história… Outros quinhentos.

Viajar com outros olhos

Portanto, é fundamental que percebamos, ao fazer qualquer turismo histórico, qual “história” está sendo contada. Que haja, enfim, reflexão sobre este contexto. (Parece óbvio, mas é comum que a gente se esqueça disto, e se deixe levar por um lado só da história. Precisamos estar alertas.)

Ana Lucia Araujo - autora de Slavery in the Age of Memory
As Lucias.

Aliás, recomendo a leitura de “Slavery in the Age of Memory” em especial aos viajantes inveterados: para que encarem suas jornadas pelo mundo com olhos ainda mais abertos.

De uma maneira incrível, o livro “Slavery in the Age of Memory” me fez repensar toda essa arquitetura do turismo histórico. Me deu vontade de voltar em diversos pontos do planeta, onde a narrativa do vencedor se faz onipresente. E, principalmente, me deu vontade de ir ao oeste da África, e ver de perto o quão ativa a comunidade é ali, sua cultura e a forma como hoje lidam com a memória da escravidão, do outro lado do Atlântico. Foi um livro inspirador de viagens, afinal.

Obrigada, Ana Lucia, pela inspiração de viagem através da memória compartilhada.

Tudo de bom sempre.

P.S.



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