O boto rosa de Novo Airão

por: Lucia Malla Amazônia, Animais, Brasil, Ecologia & meio ambiente, Fotografia, Viagens

Quando decidimos visitar a Amazônia em junho de 2007, acima de tudo eu queria conhecer o ecossistema que havia estudado tanto na faculdade, ouvido tantas histórias e que não sai dos noticiários mundiais. Ver pra crer um pouco da realidade da maior floresta tropical do mundo. Entretanto, André tinha outro objetivo muito mais específico. Queria ver (e fotografar) o boto cor-de-rosa (Inia geoffrensis). Por ser um animal endêmico da região amazônica, de biologia muito interessante e personagem central de diversas lendas e mitos populares, como bem explicou a Alline anteriormente.

Boto rosa de Novo Airão

Dificuldades para fotografar o boto-rosa submerso

Sabíamos, entretanto, que fotografar o boto-rosa não era uma tarefa tão simples.

Em primeiro lugar, o bicho vive em rios amazônicos de água escura, onde a visibilidade embaixo d’água é em geral de menos de 1 metro – o que para a foto sub é muito pouco.

Em segundo lugar, o boto-rosa é naturalmente arredio. Ele até aparece próximo a barcos, mas fazê-lo chegar perto o suficiente para a lente captar a sua imagem no ambiente selvagem é praticamente impossível.

Em terceiro lugar, ele pode ser agressivo, principalmente se quiser defender sua prole ou o seu território. Aliás, ele é rosado porque seus vasos sanguíneos estão mais próximos da superfície da fina pele, mais aparentes. Isso acontece em parte porque eles brigam tanto que comumente arrancam as camadas externas da pele uns dos outros. Os mais novos são menos rosas, mais cinzentos e menos machucados. Não é incomum ver marcas profundas no corpo do boto-rosa, fruto das muitas brigas que travam uns com os outros.

Tímido em Mamirauá

Nossa primeira parada foi na reserva de Mamirauá, na região da Amazônia Central. Em Mamirauá, há um grupo de pesquisa que trabalha apenas com o boto, rastreando cada detalhe do bicho. Conversamos bastante com o pesquisador que lá estava. Aprendi, por exemplo, muitos aspectos da biologia do animal.

Mas logo ficou claro que fotografá-lo do jeito que imaginávamos, ali, em seu ambiente e comportamento natural, seria complicado. O boto rosa até se aproximou um pouco do barco quando lá estávamos, ouvimos suas respiradas algumas vezes. Afinal, como são mamíferos pulmonados, eles precisam subir para respirar com frequência. E ensaiou alguns saltos, enfim. Mas não chegou perto o suficiente para uma boa foto. Portanto, saímos de Mamirauá sem uma boa imagem do boto.

Boto-rosa em Novo Airão

Um pouco frustrados, mas não desanimados. Como em tudo na vida, tínhamos um plano B. Procurando na internet antes da viagem, lemos sobre a história de uma senhora em Novo Airão, cidade a 2 horas de carro de Manaus, que alimentava o boto-rosa há mais de 10 anos. Ali, na frente do seu pequeno restaurante flutuante, a senhora agregava todas as manhãs um grupo de botos-rosa que vinham atrás da comida fácil que ela oferecia. Essa senhora chegou a ter uma certa fama (aparecer no Fantástico, etc.) principalmente porque ela reconhecia os botos por nomes específicos, ou seja, eram os mesmos indivíduos que vinham todos os dias até ela.

Queríamos ver o animal, nadar um pouco com ele, ter a experiência deliciosa de interagir com ele em seu ambiente, fotografá-lo de perto. Novo Airão parecia o local ideal para tal feito.

Em Novo Airão

Assim que chegamos em Manaus vindos de Tefé, nossa amiga Jacitara nos pegou no aeroporto rumo direto a Novo Airão. Apesar da rodovia ser muito boa, chegamos de madrugada por lá, e tudo que fizemos foi achar a pousada e dormir – a cidade estava um deserto, e tivemos que acordar a simpática senhora alemã dona da pousada, que nos esperava apenas no dia seguinte.

Onde acontece a interação

Pela manhã, mal terminamos o café, já nos dirigimos para o restaurante da tal senhora. Antes passamos numa peixaria, e compramos uns peixes para dar ao boto por 5 reais. Eram 8:30, e o estabelecimento abria às 9 da manhã. Mas a visão que tivemos ao chegar no local foi desanimadora (para não dizer nojenta): o restaurante ficava na beira do porto da cidade, e a água do rio ali tinha uma camada de óleo de navio grotesca, nada saudável para mergulho. Eu logo desisti de cair na água; André, mais corajoso que eu, não desanimou e começou a se preparar para a aventura fotográfica gordurenta.

A senhora que iniciou a atividade de alimentar o boto-rosa não estava no local, apenas sua filha, que nos vendeu um saco extra de peixinhos por 15 reais – caro, mas se quiséssemos usar o restaurante para atrair o boto, precisávamos pagar aquilo. Assim que o restaurante abriu, pegamos nossos pedaços de peixe e a menina que lá estava começou a “chamar” o boto, batendo o peixe na água.

Na água do rio Negro

De máquina em punho, André caiu na água. Logo chegaram dois, três, de repente eram uns 10 botos ao nosso redor, vindos sabe-se lá de que áreas do rio Negro. Todos atrás do peixe, é lógico, apesar da senhora dizer em entrevistas que o boto a “reconhece” e que eles são “seus amigos” (uma excelente história para a mídia). Obviamente o meu cientificismo biológico gritava mais alto: o animal é selvagem, ele vai onde seu alimento estiver. E o peixe estava ali, fácil e farto, há 10 anos.

Confesso que apesar da relutância inicial em cair na água por causa da poluição, fiquei empolgadíssima quando o boto-rosa chegou perto e molhei meus pés no rio. É realmente emocionante interagir com o animal tão de perto. E ele é lindo, com dentes afiados e uma mandíbula longuíssima, muito maior que seus demais parentes golfinhos. Um olhar arguto também ressaltava em sua cara, apesar de sabermos que ele é um animal quase cego.

O boto-rosa é cinza

Mas a descoberta mais curiosa foi a de que o boto-rosa não é tão rosa quanto parece: a água escura do rio Negro (e dos demais rios onde ele vive) forma uma espécie de filtro amarelado, que torna a pele do boto mais rosa ainda embaixo d’água. Quando o boto aparece na superfície para pegar o peixe, aliás, percebemos nitidamente que a maior parte do corpo dele é acinzentada, com áreas róseas – provavelmente aquelas expostas pelas lutas com os demais da espécie e pelos arranhões em raízes e troncos da floresta inundada. Muitíssimo interessante.

Apesar dele ser um animal selvagem, ali ele parecia não ligar nem se assustar com os humanos. Em certos momentos, André ficava circundado por 4 botos fazendo piruetas ao redor dele, numa brincadeira sem fim. E, apesar de termos aprendido que ele era um bicho agressivo, o condicionamento que a senhora fez naquela população específica tornou-os simpáticos, brincalhões. Como seus parentes marinhos famosos, os golfinhos nariz-de-garrafa à la Flipper, o são.

Os botos-rosa ficaram com a gente naquela festa enquanto havia peixe. Na hora que o peixe acabou, aos poucos eles foram embora, de volta aos locais de origem. O passeio do boto-rosa a Novo Airão acabara por hoje, assim como o nosso.

Tudo de boto sempre.

Para viajar mais com o boto-rosa

  • O boto-rosa não era um animal ameaçado de extinção, até começar essa bagunça toda sobre construção de hidrelétricas no rio Madeira. Mas será o benedito?
  • Há uma controvérsia entre os pesquisadores sobre o que seria mais adequado: chamar o boto de “boto-rosa” ou de “boto-vermelho”. Deixo a discussão aos interessados de plantão. Mas comunico que prefiro chamar de rosa, porque afinal, adoro a cor de rosa choque. Não provoque… 😀
  • Outra controvérsia que existe é sobre a atitude da senhora de alimentar os botos. O quão ecológica seria, o quão correta. Bom, essa senhora enriqueceu assim – dentro dos limites do que pode se considerar “enriquecimento” numa cidadezinha da Amazônia brasileira. Alimentar qualquer animal selvagem, a não ser em condições emergenciais, é atitude reprovada. Ao mesmo tempo que isso me incomoda, a possibilidade de estar perto do animal sem receio de grande perigo é realmente fascinante. Por fim, apesar do ato impróprio, acho que a estratégia funciona positivamente para o público geral. Ao ver o animal tão próximo e com carinha tão “amiga”, as pessoas podem vir a se preocupar mais com seu estado natural, sua população e colaborar na proteção do animal. Mas é uma faca de 2 gumes, sem dúvida alguma.


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