O que nos faz feliz?

por: Lucia Malla Biomédicas, Ciência, Comportamento

Para entrar no clima…

Há uns dias caiu na minha caixa postal o link pra um texto publicado no The Atlantic em junho passado cujo título (e proposta de reportagem) não poderia ser mais vasto: o que nos faz feliz?

O texto é longo, mas fascinante do começo ao fim e eu recomendo a leitura. Conta o trabalho (e o envolvimento) do psiquiatra George Vaillant em um estudo longitudinal de saúde mental que seguiu a vida de diversas pessoas por quase 80 anos (!!!). Na realidade, essas diversas 268 pessoas tinham um traço comum: todos homens estudantes da Harvard em 1937. Naquela época, para os objetivos até então modestos do estudo, este seleto grupo foi considerado “normal” – minha crítica número 1 é: só homens? A número 2: tendo passado pela Harvard por quase 2 anos da minha vida, tenho dúvidas se essa definição de “normal” realmente caberia às figuraças que encontrei por lá…

Fato é que em 1937, com essa definição estreita de “normal”, foi dada a largada para analisar a vida dessas pessoas. Saúde física e mental. Tudo feito com a tecnologia que havia na época: papel, caneta, entrevistas e exames médicos bem simplificados. A partir de então, estes indivíduos passaram a ser entrevistados a intervalos de tempo em sua vida (às vezes 5 anos, às vezes 10), reexaminados e o estudo passou a ser conhecido no meio médico como “Estudo Grant”. Claro, muitos médicos trabalharam nele, muitos morreram, pessoas foram adicionadas além dos 268 iniciais, e hoje, quando alguns dos “objetos de estudo” iniciais estão chegando na casa dos 90 anos (e a maioria já morreu), está nas mãos de Vaillant finalizar os resultados de literalmente uma vida estudando. Ou melhor, 268 vidas.

Por mais crítica que façamos quanto aos parâmetros iniciais, dada a raridade de um estudo nessa dimensão temporal, os resultados obviamente revelam muito. Tem dado ali para muitas reflexões e insights, e Vaillant está apenas resumindo o que dá – ele está há 40 anos analisando essas pessoas, ou seja, ele próprio também já pensa em se aposentar. Numa outra reportagem, Vaillant resumiu (beeeem resumidamente… entenda-se: várias interrogações abertas à discussão) os indicadores que observou com os dados que obteve que podem ser o que ele coloca como a base psíquica para uma vida feliz:

– Um casamento bom antes dos 50 anos;

– Engenhosidade para enfrentar as situações difíceis;

– Comportamento altruístico;

– Parar de fumar;

– Não ingerir álcool ao ponto de que seu comportamento o envergonhe ou a seus familiares;

– Manter-se ativo fisicamente. Caminhadas, corridas, etc.

– Manter seu peso corporal baixo;

– Tentar se educar “escolarmente” no máximo que sua inteligência permitir;

– Depois de aposentado, manter-se criativo, fazendo e aprendendo coisas novas.

Há muito pano pra manga nessa listinha. A começar pelo conceito do que é um “casamento bom” na visão de cada um, passando pelo nível de educação distorcido que ele usou (afinal, ele só analisou estudantes da Harvard), o perigo da generalização sem levar em conta diferenças culturais, históricas, etc… para citar só os mais incômodos. Em minha opinião, há muito mais individualidade no conceito de felicidade do que sonha nossa vã psicologia. (Mas não é exatamente tentar ser o mais “racional e científico” o que ele tenta? Esquecer a individualidade? Food for thought.)

Entretanto, em dado momento do artigo, o repórter pede a Vaillant que diga o que ele particularmente aprendeu com o estudo Grant inteiro (the take-home lesson, como os apressados adoram). E, em tempos de conhecimento fragmentado e caminhar acelerado, com todas as críticas pertinentes ao trabalho que aí estão e que ainda virão, e após analisar por décadas a vida de tantas pessoas sob os mesmos parâmetros, ainda assim sua frase dói na mente de tão simples:

“That the only thing that really matters in life are your relationships to other people.

Não é um sopro de tranquilidade? A felicidade ao alcance de todos. A conclusão que emenda e melhora o soneto. 🙂

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais…

– Contraponto que me incomoda: Vaillant tem um livro que particularmente acho de caráter duvidoso – muito do que ele convenciona chamar “espiritualidade” não passa de sentimentos positivos inerentes a qualquer pessoa, independente de credo, cor ou qualquer outro parâmetro. Há uma boa resenha feita pelo American Journal of Psychiatry abordando prós e contras. Tirem suas conclusões.

– Um dos “objetos de estudo” do estudo Grant foi John F. Kennedy.

– Mil agradecimentos ao Doni, pelos esclarecimentos psicológicos do tema. E pelas dúvidas pertinentes, que requerem mais estudo ainda… 🙂



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