A pesca no Atlântico Norte brasileiro

por: Lucia Malla ASPSP, Brasil, Economia, Ilhas, Mergulho, Oceanos

Isso mesmo, mais uma pausa para o comercial – está virando chavão, né? Na edição de abril/2008 da revista Mergulho foi publicada a matéria de duas páginas que talvez tenha sido a mais difícil que escrevi para eles até hoje. Refleti sobre a problemática da pesca no Atlântico Norte brasileiro. Mais especificamente, no Arquipélago de São Pedro e São Paulo.

Quem me conhece, sabe que sou avessa a grandes polêmicas em geral e faço o estilo low-profile na maior parte das coisas com que lido. Entretanto, se o assunto é o mar e a problemática humana em lidar com recursos pesqueiros, reflexo direto de um descaso assustador, a vontade que dá é de esbravejar muito. Foi o que tentei fazer com o artigo.

Mas mesmo assim não consigo deixar certas ecoviagens exacerbadas tomarem conta da escrita quando o artigo vai para uma revista de circulação nacional. Prefiro deixar essas “mallices” pro meu blog, que foi criado para me deixar falar à vontade. Onde não há amarras comprometedoras com nada a não ser meu interesse pessoal. Um dilema.

O editor jóia da Mergulho entendeu isso, ainda bem. E aceitou meu artigo sem restrições, que alfineta sem ferir – mas deixa sua marca. Aconselho a leitura. E aos que se aventurarem a ler: críticas são bem-vindas.

Tudo de bom sempre.

Atualização de 2019

  • Como a Revista Mergulho acabou, deixo abaixo o texto da reportagem para todos.

Uma noite em São Pedro e São Paulo

Pesca Atlântico Norte brasileiro - noturno

É noite de verão com lua minguante. A pouca luz favorece a pesca do atum, dizem os pescadores que estão nas proximidades do Arquipélago de São Pedro e São Paulo (ASPSP) e as correntes do verão são as mais férteis. Logo entende-se por quê: as luzes do pequeno barco são acesas, e aquele ponto iluminado é o único a muitos quilômetros de mar. Ao longe, na base científica da ilha Belmonte, a principal do arquipélago, as luzes já se apagaram há horas. Os pesquisadores cansados de um dia inteiro de trabalho estão, enfim, dormindo. 

Estratégias da pesca no Atlântico Norte brasileiro

Mas o barquinho prossegue com suas lâmpadas, que atraem cardumes numerosos de peixe-voador (Cypselurus comatus). Esses são o alimento dos atuns, que no meio daquele emaranhado de peixe-voador pulando fora d’água, se alimentam. De vez em quando, caem na isca de peixe-voador que os pescadores colocam. Houve um tempo em que a pesca era do peixe-voador em si. Demorou pouco, entretanto, para os atuns desaparecerem da região e com eles, os lucros dos pescadores. Calejados, aprenderam ecologia na marra. Acabe com a presa e o predador, portanto, desaparece.

Há outra maneira comumente utilizada para a pesca no mar aberto: o espinhel. Uma linha de comprimento em torno de 20 quilômetros com cerca de 300 iscas de lula é deixada no mar por um dia. No dia seguinte, puxa-se a linha e em geral, muitos peixes grandes estão iscados, incluindo algumas vezes o espadarte. Os atuns presos ao espinhel em geral se batem muito, querendo fugir da isca, e trazê-los a bordo requer manejo, força e cuidado. Um golpe mais brusco do animal e os pescadores podem acabar envolvidos em um acidente grave. O animal no convés é sacrificado imediatamente com um golpe ágil de porrete na cabeça. Ele é então aberto, as vísceras são retiradas, e a carcaça muscular é congelada para a venda no continente. 

O sumiço do pescado

Mas nem só na falta de peixe-voador o atum desaparece. Já houve um tempo em que mais peixes rondavam aquela região. Relatos dos primeiros exploradores q passarem pelo ASPSP contam uma quantidade abundante de peixes e tubarões. Isso acontece até hoje, pois os rochedos são um lugar de passagem para diversas espécies pelágicas. Mas a abundância aos poucos vai desaparecendo. Não há estudos que enumerem o quanto já foi perdido por ali com o excesso de pesca. Mas basta uma conversa simples com os pescadores para que eles digam a mesma coisa: o mar tinha mais peixes oceânicos. Antigamente, tubarões abundavam. Hoje, uma visita de 15 dias se trouxer alguns poucos tubarões pode se considerar bem-sucedida. O mar brasileiro definitivamente anda escasseando em peixes, seguindo a tendência global.

A pesca de algumas espécies, como atuns, na região do arquipélago é regulamentada pelo IBAMA. A permanência de pessoas utilizando aquele pedaço de mar é incentivada pela Marinha Brasileira como parte do uso da região como Zona Exclusiva Econômica (ZEE) do Brasil. O arquipélago de São Pedro e São Paulo aumenta a região de ZEE brasileira em mais de 1000 km. Portanto, a presença da Marinha é de valor estratégico para o aproveitamento adequado da área. A Marinha ajuda dando infra-estrutura logística e suprimentos aos pescadores e pesquisadores que frequentam o local.

O que se pesca

Pesca no Atlântico Norte brasileiro - tubarão-martelo
Tubarão-martelo sendo fisgado.

O barco de pesca que leva os pesquisadores à ilha em geral fica nos 15 dias de expedição pescando ao redor do arquipélago, onde grandes peixes ainda são encontrados com facilidade. Além de atuns (Thunnussp.), cavalas (Scomberomorus cavalla),dourados (Coryphaena hyppurus), mecas (ou espadartes, Xiphias gladius) e tubarões de diferentes espécies são pescados. Os tubarões ali, diferente do que acontece no resto do mundo, são aproveitados em sua íntegra, e não só suas barbatanas. A barbatana continua sendo a parte mais valiosa do animal (~R$350,00/kg de barbatana seca), e é basicamente por causa dela que cerca de 100 milhões de tubarões são abatidos por ano em todo o mundo.

O preço do pescado

Mas aqui no Brasil, a carne também é retirada e vendida no mercado. É muito barata: em torno de R$2,00/kg de tubarão. Além de perigosa: em São Paulo, foram encontrados na carne de tubarão à venda níveis de mercúrio até 24 vezes acima do permitido pela Organização Mundial de Saúde, o que torna seu consumo de alto risco para a saúde humana. 

Pesca no Atlântico Norte brasileiro - atum
Atuns.

Um atum de médio porte (~1m) pesa cerca de 60 kg. Os pescadores dispendem energia enorme para trazê-los à bordo do barco – o peixe é musculoso e luta para voltar ao seu ambiente. Tanto esforço, entretanto, não gera muito dinheiro. No posto de venda em Natal (RN), 1kg de atum rende R$3,80 para os pescadores que ainda dividem esse valor com o resto do time de pesca. O mesmo atum é vendido na CEASA a aproximadamente R$8,00/kg. São pescados em uma ida ao entorno do Arquipélago de São Pedro e São Paulo cerca de 5 toneladas de peixes variados. O lucro é pequeno, mas a atividade é o que os pescadores sabem fazer da vida. Pelo visto é o que continuarão fazendo enquanto peixe houver.



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