Reflexões pessoais e educacionais

por: Lucia Malla Ciência, Educação

Anteontem, um rapaz na comunidade do Facebook de ex-alunos da UFV (onde me formei) nos lembrou que era aniversário de 20 anos do nosso primeiro dia de aula em Viçosa. Éramos inocentes calouros no dia 27 de abril de 1992. Mal sabíamos o que o futuro nos aguardaria, que reflexões educacionais teríamos mais tarde, de que adiantaria um doutorado. Queríamos desfrutar, afinal, os louros da entrada na faculdade, acima de tudo. Em nossas mentes, aquele era o primeiro passo pro futuro.

Reflexões pessoais e educacionais sobre doutorado - Universidade Federal de Viçosa em 1992
Primeira foto que tirei em Viçosa, em 27 de abril de 1992, da entrada da universidade. Sem filtro instagram.

Coincidentemente, semana passada terminei meu doutorado, para muitos considerado o último passo educacional possível na carreira. Ou o último que requer aulas para serem assistidas, etc. Foram 20 anos de muito estudo, suor e biologia. E desde então, tenho passado bons momentos de auto-reflexão, ruminando sobre as diversas etapas nestes 20 anos de educação superior. Compartilho aqui, pra quem quiser conversar um pouco sobre o tema.

Reflexões educacionais: quando fazer doutorado

Em relação a estas reflexões educacionais, preciso deixar claro em primeiro lugar que minha carreira está um pouco fora da média. A maior parte das pessoas escolhe fazer graduação-mestrado-doutorado sequencialmente, e com menos de 10 anos de entrada na faculdade já estão prontas pro mercado. Aprecio quem faz isso. Se por um lado a pessoa se livra logo das “obrigações curriculares” para sua vida – e começa a desfrutar dos louros (cof, cof) da vida de PhD mais cedo (e começar efetivamente uma carreira, né?), por outro, tenho algumas críticas a esse processo, principalmente porque a pressa pode ser inimiga da perfeição, como já diz o ditado.

Comecei o PhD com uma idade muito além dos meus colegas de classe, mais de 10 anos de diferença. Havia um abismo geracional entre a gente, claramente perceptível pela maneira muito mais utilitarista com que eles encaravam toda a ciência. Ou ainda pela dependência tão crua ao google e à wikipedia. Num sistema que privilegia sair da graduação e ir direto pro doutorado, cortando o mestrado do mapa, é difícil levar certas discussões mais complexas quando o resto da classe ainda não entendeu direito nem por que estão ali, fazendo aquilo. (Muitos por falta de opção, triste realidade.) Havia um clima de calourada que permeava as aulas que, se por um lado alimentava a diversidade, por outro, estimulava a distração.

Em termos de projeto de pesquisa, é entendível por que um doutorado leva 4 a 5 anos pra ser concluído. Afinal, este é o tempo do amadurecimento. É quando se espera que o estudante comece a pensar cientificamente, a abordar seus problemas de bancada ou campo de uma maneira mais analítica, e principalmente entender onde o seu quinhão de pesquisa se encaixa no universo de pesquisas científicas do mundo lá fora. Muita leitura de artigos se faz necessária, muitas discussões em congresso, muito bate-cabeça. Faz parte, enfim.

Educação interrompida

Como depois do mestrado eu estava traumatizada com a educação acadêmica, gerei 9 anos de separação entre mestrado e doutorado. Fui trabalhar em biotech, viajar, viver um pouco fora do esquema do laboratório, aprender outras coisas de que gostava na vida além da ciência. Para mim, foi extremamente válido, porque me situou dentro da ciência de uma maneira muito mais sólida: eu estava ali porque, depois de muito soul-searching, eu realmente gostava daquilo e entendia porque era importante para minha felicidade como um todo. O hiato também me trouxe uma visão muito mais abrangente da vida, onde não só a paixão da descoberta era importante, mas também o sorriso do amigo querido e as contas no fim do mês para pagar.

Quando decidi finalmente encarar o desafio do doutorado, me preparei e me situei em diversas facetas, principalmente mental. Com isso, cortei as etapas existenciais que normalmente existem no doutorado quando se faz mais jovem (“será que é isso mesmo que eu devo fazer da minha vida?” e perguntas afins que orbitam – os muito mais jovens com quem convivi têm um certo repúdio ao comprometimento sério que o curso exige, por isso tais perguntas. Me vi neles em diversos momentos, afinal me fiz a mesma pergunta 10 anos atrás.).

No meu projeto, me concentrei na pesquisa, nas perguntas, e como abordá-las de maneira eficiente. Usei o foco ao meu favor, e consegui terminar o doutorado em menos de 2 anos – entrei oficialmente em agosto de 2010 e saí em abril de 2012. Cumprindo todas as exigências que o rigoroso departamento em que estava fazia pra uma defesa, e não sem muito stress, que é o status quo de um doutorado. Nos 9 anos de intervalo, aprendi técnicas variadas que muito me ajudaram. Observei, ouvi e, principalmente, aprendi a questionar com muitos grãos de ceticismo os diversos meandros do meu tópico. Enfim, fui aprendendo que ciência não é uma certeza, é um contínuo de experimentações. Além de aprender que cabe à gente se divertir e elaborar enquanto caminha pela estrada para responder cada uma delas.

Pontos negativos e positivos

Entretanto, o lado negativo disso tudo é que saio já bem mais velha de uma etapa que já deveria ter sido finda há pelo menos uns 5 anos. Meus amigos de faculdade já são professores de universidade, têm seus laboratórios, seus empregos de consultoria há décadas, etc. E eu saindo agora do doutorado. Para a maioria, o início da carreira na ciência foi há 10 anos atrás. Para mim, ela começou, deu uma voltinha no bairro, e agora recomeça.

Não sei o que é melhor. Principalmente, não estou aqui pra decidir isso – cabe a cada um fazer seu soul-searching pessoal e descobrir o que é melhor dado o seu ambiente. Encarando estas reflexões educacionais pós-fato, acho que há vantagens e desvantagens em “dar um tempo” depois da graduação, mestrado, etc. Em 2001, eu tinha convicção de que nunca faria doutorado na vida. 5 anos depois, como cientista, já comecei a me preocupar por não o tê-lo. Entendo que é muito mais uma jornada pessoal, de auto-descobrimento, que o levará a tal decisão. Mas também aprendi a lição que o tempo amacia demais a convicção da juventude. Difícil é falar isso pros meus amigos mais jovens de doutorado sem receber um irônico blé. Faz parte, afinal.

Percebo ainda mais o quão ingênua eu era pro significado real da faculdade e pros caminhos potenciais que a vida me levaria no dia 27 de abril de 1992. 20 anos de educação acadêmica formal se passaram. Estou animada pro que os próximos 20 anos de pesquisa me aguardam.

Tudo de bom sempre.



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