Darwin dormiu aqui

por: Lucia Malla América Latina, Brasil, Evolução, Livros

Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também sobre um livro que li antes da pandemia. Isto para ter uma memória digital desta leitura de viagem light e inspiradora. O livro foi “Darwin slept here – Discovery, adventure, and swimming iguanas in Charles Darwin’s South America”, escrito por Eric Simons. (O título em português seria “Darwin dormiu aqui – Descoberta, aventura, e iguanas nadadoras na América do Sul de Charles Darwin“, mas infelizmente o livro ainda não foi traduzido para o português.)

Um livro de viagens

Darwin dormiu aqui - Darwin slept here - Eric Simons

Acima de tudo, “Darwin slept here” é um livro de viagens. Duas viagens, aliás. Conta a jornada do autor, Eric Simons, pelos caminhos que trilhou Darwin na América do Sul. Uma ideia relativamente comum nos dias de hoje, de fazer uma viagem “temática”. (O que eu adoro, por sinal. Em 1997, meu mochilão na Europa foi tema “Van Gogh”.)

Darwin excursionou pela América do Sul quando tinha apenas 27 anos, a bordo do navio Beagle sob comando do Capitão Fitzroy, com quem Darwin tinha uma relação não muito amigável. Sua teoria da evolução ainda estava sendo germinada em seus neurônios, e para ele, a viagem era muito mais uma aventura da juventude, uma busca pelo desconhecido.

A América do Sul de Eric Simons e Charles Darwin

No livro, o interessante é que Eric Simons escolheu embarcar em passagens desta famosa viagem de Darwin que não são completamente conhecidas ou exploradas. Todos os capítulos têm uma estrutura focada na viagem que Simons está fazendo na atualidade. A viagem “de hoje” serve de apoio para que ele divague sobre o que Darwin possivelmente viu, ouviu, sentiu e com quem interagiu no passado, quando passou por aqueles pontos da América do Sul. Muitas das passagens, claro, estão embasadas nos próprios escritos de Darwin durante a jornada. Mas muito vem também das elocubrações de Eric Simons. E foi justamente por causa destas elocubrações de viagem, tão comuns quando você na estrada, que tornam o livro uma delícia completa.

Darwin no Brasil

O livro começa no Rio de Janeiro. Darwin dormiu aqui, numa casa em Botafogo onde morou por três meses no inverno de 1832. Os contrastes da cidade atual são revelados na conversa com o guia pelo Parque Nacional da Tijuca, enquanto também nos conta o quão Darwin se embasbacou com a quantidade de água e diversidade da maravilhosa floresta tropical da “Tijeuka” (da forma como está em seus relatos).

Darwin dormiu aqui - Vista de Salvador (BA) - Darwin na América do Sul

Darwin também esteve em Salvador, na Bahia, onde pela primeira vez se confrontou com a escravidão. É depois de sua passagem por Salvador que ele se torna um fervoroso abolicionista. Simons conversa com um professor de filosofia da Universidade da Bahia para entender como Darwin encarou a luta anti-escravagista. Fica claro que, durante sua jornada, Darwin nada fez para mudar o status quo. Entretanto, de volta à Inglaterra, seus escritos e relatos do que vira em Salvador tornaram-se mais ferinos para desmantelar esse passado “culpado” dos britânicos, em sua própria palavra.

Parênteses

A ótima Meilin me indicou este roteiro com alguns pontos importantes por onde Darwin passou na cidade. Ideal portanto para quem quer explorar a cidade por uma perspectiva diferente. Reproduzo abaixo a visão geral destes pontos do mapa.

Mapa do Rio de Janeiro - Darwin na América do Sul
Locais por onde Darwin esteve no Rio de Janeiro.

Na Patagônia

Meu trecho favorito do livro, entretanto, é o das viagens pela Patagônia. Principalmente na Península Valdés, onde também já estive. Pude lembrar das sinalizações que vi da passagem de Darwin em plena Calleta Valdés, no meio de uma paisagem de estepe seca que, até hoje, ainda parece desolada e com um vento incessante. Uma paisagem “desinteressante”, de acordo com Darwin. Os pinguins são, ainda hoje, a população predominante do local.

Calleta Valdés - Patagônia Argentina - Darwin slept here - Eric Simons
Calleta Valdés na Patagônia Argentina.

Mas mesmo desinteressante, Darwin se “perdeu” pela Patagônia, fazendo intensas e longas caminhadas que preocupavam seus colegas de Beagle. Nestas caminhadas, investigava a geologia local (que é realmente fantástica). Simons, por sua vez, não se aventurou tanto pela mesma paisagem, se limitando a algumas trilhas e à conversa com um historiador local que traz insights interessantes sobre o turismo atual na região.

Darwin dormiu aqui

Depois de rodar por tantos pontos interessantes e menos visitados da América do Sul, é no capítulo final do livro que Simons finalmente encontra um quartinho humilde na Amolanas Hacienda, no vale de Copiapó, região mineradora do Chile. “Darwin dormiu aqui” certamente não está escrito em nenhuma placa local. Aliás, a passagem do naturalista britânico parece esquecida ou ignorada nos dias atuais. Mas não foram as paisagens nem os achados biológicos que encantaram Darwin ali. Foi seu povo, com quem Darwin interagiu, que primordialmente o marcou naquele recanto esquecido do mundo.

“Indeed, I defy a traveler to do justice to the good nature with which strangers are received in this country.”

“De fato, eu conclamo o viajante a fazer justiça à boa natureza com que estranhos são recebidos neste país.”

Em “Darwin slept here”, Eric Simons nos leva a conhecer (e se reconhecer) na até então ingênua sede de conhecimento e aventura do jovem Darwin, que se tornaria décadas mais tarde o maior naturalista britânico. Darwin era na estrada, afinal, um explorador de coração e cabeça abertos, como o são os grandes viajantes do mundo.

Tudo de bom sempre.

P.S.



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