Ser tubarão na Ásia

por: Lucia Malla Ásia, China, Ecologia & meio ambiente, Tubarões

Estou tendo muita relutância para abordar esse assunto pra mim tão necessário, por ser também de uma delicadeza extrema. Pelos diferentes comentários que ouço por aí, a impressão é de que a maioria das pessoas não está nem aí pra situação dos tubarões no mundo de hoje. Principalmente, não sabem o que é ser tubarão na Ásia.

A maioria responde assim: “Ah, tanta gente morrendo de fome/ doente/ precisando de ajuda!” Sim, concordo, e é pra isso que existem instituições governamentais (ou não) de ajuda a essas pessoas, e outras tantas pessoas engajadas nessas lutas. Mas prefiro atacar um problema que entendo um pouquinho, que está relacionado mais a minha paixão pelo mar, pela biologia, e mesmo que seja mais por paixão do que razão. É uma escolha pessoal.

Além de tudo isso, ressalto que não dá pra uma pessoa sozinha resolver todos os problemas do mundo. Portanto, se cada um se engajar numa luta (mesmo pequena) que seja por algum dos zilhões de problemas que nós temos no mundo atual, ao final vários problemas estarão sendo resolvidos, de pouquinho em pouquinho, né? Cada um faz a sua parte.

Em defesa dos tubarões

E foi com essa mentalidade que entrei de cabeça na defesa dos tubarões, esses animais que injustamente as pessoas têm mais medo do que compreensão do seu ecossistema, comportamento e biologia.

O tubarão é um mito. As pessoas querem salvar o panda, os tigres, a onça pintada, e mais uma lista enorme de bichos. Mas quando citamos os tubarões… “Ah! Mas eles são predadores, matam pessoas!” Então, vá você invadir o território de um tigre ou onça pra ver o que acontece com o seu corpinho querido. É o mesmo raciocínio. Principalmente, no caso dos tigres, você vai lá onde eles estão, conta e vê que a população está diminuindo. O tubarão, por viver na água (esse ambiente vasto que a maioria das pessoas não frequenta), não é visto dessa forma. Afinal, no mar, a sensação é de que o estoque de animais é infinito. Pois não é.

Tubarão na Ásia

Mas na Ásia, a situação piora e complica. Aqui, o tubarão não é visto só como predador: ele é visto como comida, e da melhor qualidade. Levando-se em consideração que a Ásia é o continente mais (super-)populoso do planeta, a pressão exercida sobre as populações de tubarões é simplesmente gigantesca. É claro, tem também a pressão econômica: comércio de barbatanas dá dinheiro – e não é ilegal, pelo menos na maioria dos casos. Mas por não ser ilegal, não significa que a legalidade dessa ação esteja completamente de acordo com o bom-senso, né?

Morando aqui na Coréia do Sul, sendo bióloga (molecular, mas isso é mero detalhe), mergulhadora, e tendo visitado as diferentes Chinas, achei que seria interessante colocar aqui essas fotos do que sugiro (do ponto-de-vista mais pessoal possível, entenda-se) que seja o “CICLO DE MORTE DE UM TUBARÃO NA ÁSIA”. Nem que seja para uma limpeza de consciência minha, do tipo “estou fazendo um pouquinho pela causa em português”. Veja só.

Ciclo de morte de um tubarão na Ásia

Pesca

Tubarão no mar

Pesca de tubarão

O tubarão está no mar, totalmente na dele, e é pescado. Aqui, a forma como ele é pescado não interessa: ele pode vir no meio de uma rede de arrasto de outros peixes, ou pescado exclusivamente (pesca intencional). Às vezes, não é permitido pescar tubarões intencionalmente, mas a brecha da legislação para a pesca é o que chamamos de “bycatch”, ou pesca casual, um problema ainda sem solução plausível.

Infelizmente, as redes e artefatos pesqueiros ainda não tem uma tecnologia adequada o suficiente para deixar passar tubarões ou salvá-los, e eles terminam sendo pescados junto a outros peixes. A maioria dos países (inclua-se aqui o Brasil) têm leis permitindo que uma pequena porcentagem de bycatch seja trazida do mar para uso humano – mais um entrave burocrático a que a sobrevivência dos tubarões está sujeita.

Desembarque do tubarão

Suao - Taiwan

Os tubarões são desembarcados em um porto. No caso da foto, porto de Suao, na costa leste de Taiwan, um dos maiores portos de “casuais” descarregamentos de “pesca exótica” da Ásia, e entenda-se por “pesca exótica” animais como tubarão-baleia (espécie ameaçada de extinção!), tubarões thresher (de profundidade), cetáceos em geral (baleias, golfinhos, etc. que estão também nas listas de “ameaçados de extinção”) e, claro, as demais espécies de tubarão.

Tubarões congelados - Porto de Suao

Ao chegarem em Suao, os tubarões são enfileirados no porto, processados, e/ou enviados para comércio. Reparem no detalhe de que os tubarões da foto já estão TODOS sem as barbatanas, pois estas são retiradas em geral ainda nos navios de pesca, em alto-mar. A barbatana é o subproduto mais valioso de um tubarão na Ásia.

Processamento do tubarão

Filhotes de tubarões na bacia

Os tubarões são processados ainda no porto. Alguns (em geral os de menor “valor”) ficam por lá mesmo, sendo vendidos no comércio local, como esses filhotes nessa bacia no mercado do porto de Suao.

Processamento de carne de tubarão-baleia - Suao - Taiwan

Acima, a pessoa está processando carne de tubarão-baleia, uma espécie que lidera a lista de extinção no mundo dos tubarões, um bicho que chega a medir 18m de comprimento e vive em lugares rasos. O tubarão-baleia é conhecido pelos taiwaneses como “tofu shark” por causa da aparência de sua carne branquinha com o tofu feito de soja. Devido ao valor econômico dessa carne, é muito provável que a mesma seja exportada ou enviada para outros locais da Ásia, pouco ficando no comércio local. Mas note que a pessoa tem várias caixas de plástico (todas cheias de carne) para processar ainda!

Exportação

Tubarão encaixotado para venda

Os tubarões são encaixotados para envio ao comércio de outros locais da China e do mundo. Pra ser sincera, essa foto do tubarão encaixotado nós fizemos em série, são inúmeras, e tinha sangue em volta ainda, um verdadeiro cirquinho de horror. Acho das mais chocantes, me assusta e dói fundo olhar pra isso, porque parece que o bicho ainda está vivo, implorando pra viver. Mas não está mais.

Ao vivo, a situação foi me dando uma revolta enorme, eu fui ficando de mau humor e com vontade de explodir aquele porto e dar outro emprego decente pra toda aquela população que vive desse comércio. Porque não dá pra punir e não dar alternativas as pessoas que vivem disso, né?

Comércio

Mandíbula de tubarão - loga em Hong Kong
A mandíbula de um tubarão à venda como artefato de decoração numa loja em Hong Kong,a cidade por onde uma boa fatia dos tubarões assassinados do mundo vai parar.
Barbatanas de tubarão secas à venda.

As preciosas barbatanas, depois de devidamente secas e processadas, são vendidas em lojas de produtos naturais espalhadas pela Ásia e demais locais do mundo. A loja da foto fica na Dihua Street, rua tradicional de Taipei onde uma grande feira de produtos naturais se estabelece diariamente. Mas toda cidade da Ásia tem a sua análoga à “Dihua st.”: em Hong Kong chama-se Des Voeux St., por exemplo.

Abaixo, a foto da sopa de barbatana no menu de um restaurante chiquérrimo em Hong Kong. A sopa custa cerca de 100 dólares, mas os preços variam de acordo com a quantidade de barbatana na mesma, é claro.

Menu na China - sopa de barbatana de tubarão na foto

A sopa de barbatana de tubarão

A problemática da sopa é muito mais complexa do que meramente alimentar-nutritiva. Aliás, até hoje, NADA foi mostrado pela ciência de que a barbatana tenha de especial, embora pessoas tradicionais continuem acreditando no poder afrodisíaco TEÓRICO dela. Muito mais que isso, a sopa de barbatana representa status. É fácil ser encontrada em qualquer jantar de negócios como demonstração de poder, de dinheiro, e como indicativo de bons acordos. É servida em casamentos, também como forma de desejar “um casamento feliz”. Imagine então quantos casamentos se realizam diariamente só na China! Qualquer restaurante que se preze, que deseje ser estrelado num guia da vida, servirá a sopa de barbatana.

Portanto, a pressão para que o comércio de barbatanas continue é infinitamente maior que a pressão para salvá-lo. Como a oferta de barbatanas ultimamente tem aumentado – a pesca predatória aumentou muito – os preços da sopa têm caído (!!). O que torna a situação mais caótica ainda. Afinal, um produto que antes era ligado aos mais abonados, ao alcance de toda uma população de chineses, sedentos de mostrarem que têm dinheiro para tal iguaria. Algo como se de repente todos os brasileiros pudessem comer caviar todos os dias – não haveria esturjão que desse conta da demanda.

Mas… Por que mesmo salvar os tubarões?

O que de tão importante eles têm ou representam para que mereçam ser salvos? Qual a diferença entre salvar um tubarão e um atum, por exemplo, que também é um peixe grande, caçado e altamente comercializado?

Antes de mais nada, é preciso entender que o tubarão está para o ecossistema marinho assim como o tigre, a onça e o leão estão para o ecossistema terrestre: eles são o topo da cadeia alimentar, ou o centro da teia alimentar, o “último” predador. O que mais acumula nutrientes e detritos dos demais abaixo deles. E se eles desaparecem, é provável que a estrutura seja afetada de forma irreversível. E se o ecossistema marinho colapsar, amigos, não quero estar aqui pra ver isso…

Pequenas modificações, como branqueamento de corais, levam a verdadeiros desertos subaquáticos (quem mergulha pelo Pacífico sabe que essa é uma dura realidade). Que por sua vez levam à depleção completa de recifes inteiros, seus animais desaparecem, impactando as comunidades pesqueiras da região, ou seja em última análise, o homem local. Então imagine uma situação hipotética em que uma boa parte dos oceanos fosse depletada de recursos marinhos. É o colapso da atividade pesqueira, da sobrevivência de muita gente, de economias de países inteiros.

Defender os tubarões não é ecoxiismo

Sei que vai soar estranho aos que têm medo de tubarão, mas acho muito mais vantajoso e inteligente manter o tubarão vivo, principalmente em vista dos ganhos possíveis com o turismo. Prefiro lutar para que seu desaparecimento não aconteça do que achar que a situação está sob controle (não está!), cruzar os braços, e esperar chegar numa condição insustentável e IRREVERSÍVEL.

Não encaro a luta pela sobrevivência dos tubarões um ecoxiismo. Considero uma necessidade urgente para sobrevivência da nossa espécie, se quisermos ganhar a tão mal-interpretada “luta pela sobrevivência” de Darwin. Sendo nós, humanos, dotados de razão e inteligência, os maiores (talvez os únicos) predadores do maior predador marinho, nós é que precisamos mudar de atitude e deixar os tubarões em paz no mundo deles.

Porque quero que os seus e os meus filhos, netos, e demais gerações futuras sintam o prazer que eu tenho ao ver isso aí embaixo. Um recife de coral saudável com tubarões nadando livremente.

Tubarão em recife de coral

Tudo de bom sempre pros tubarões do mundo.

P.S.

  • Recomendo uma visita carinhosa e detalhada ao site da WildAid, ONG que luta pelos problemas de conservação da natureza no mundo. Uma das campanhas deles, é claro, é de conscientização sobre a caça e comércio de tubarões. Noss relatórios do site, vocês perceberão que atualmente a América do Sul (Brasil incluso) é um dos maiores fornecedores de barbatanas do mundo. Portanto, o problema não está tão distante de nós como podemos pensar.
  • Fomos a China em fevereiro/2005 para passear e conhecer esse país tão fascinante, viagem que postei aos pouquinhos no blog. Mas também fomos para ver alguns problemas mais de perto. Principalmente, ver a situação do tubarão na Ásia. Queríamos sair daquele beco: “Você defende, mas nunca esteve lá, nunca viu o que é o comércio de barbatanas, a quantidade de pessoas que dependem desse comércio para viver.” Pois fomos e vimos sim. E isso não diminuiu a vontade de defender mais ainda, pelo contrário, só aumentou.
  • No aeroporto em Taipei, quando estava de saída indo para Hong Kong, fui abordada por uma mocinha do órgão de turismo com um questionário enorme sobre “aspectos da minha estadia em Taiwan”. Perguntas convencionais: onde se hospedou, quais atrações visitou, o que mais gostou, etc. Ao final, ela disse que havia espaço para um recado a ser deixado no questionário. Não pensei muito e disse: “Stop killing the sharks.” A mocinha, com cara de espantada com a resposta mais que inesperada: “Oh, do we kill many sharks?” E respondi: “A lot!” Pelo menos, deixei o meu recado.
  • Reparem que não citei em momento algum o Japão, o país asiático com maior poder aquisitivo, onde as pessoas têm em tese mais dinheiro para frivolidades culinárias que dão status… Reflitam sobre isso.
  • A maior parte dos lugares (certos) em que fomos para ver tubarão na Ásia no comércio foi dica do Victor Wu, um dos colaboradores do WildAid, biólogo marinho malaio e ambientalista de categoria. Obrigada, Victor, pelas dicas certas.


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