Vestibular: o início do fim?

por: Lucia Malla Educação

Eis que fico sabendo pelo blog da Michele que a Universidade Federal de Viçosa modificou radicalmente seu Vestibular. A partir de 2012 – próximo ano! – dedicará 80% das vagas a estudantes advindos do Sisu. Isto reflete, no fim das contas, a avaliação do Enem. Os 20% restantes serão para alunos classificados do Pases, programa de avaliação seriada apelidado carinhosamente de “vestibular seriado”, onde os alunos são avaliados uma vez por ano, por 3 anos.

Vestibular - o início do fim? Centro de Vivências - UFV - Viçosa - MG

Embora seja em 2012, não é o fim do mundo. Pelo contrário: acho que é o começo de algo muito mais interessante e eficaz para a educação no Brasil.

Minha opinião sobre o Vestibular

Sou favorável a qualquer avaliação que tire o peso de “um dia” pro estudante. Dou como exemplo eu mesma: quando prestei vestibular, no dia das provas discursivas (supostamente as que mais tinham peso na nota final), o ônibus que peguei para ir até o local da prova foi assaltado. Ninguém se machucou, os bandidos roubaram algumas pessoas e desceram do ônibus. Mas o stress da situação ficou comigo por muitas horas depois, e até hoje, não tenho a menor idéia do que respondi na prova naquele dia, tamanho nervosismo que me assolou. Um branco total. Terminei passando no vestibular, mas com certeza não por conta da nota da prova discursiva.

Portanto, acho que quanto mais chances de ser avaliado o estudante tem, melhor. A avaliação contínua gera um retrato do estudante mais realista, menos “decorado” (no sentido figurado e literal da palavra). E de posse de um retrato mais realista, a universidade pode aperfeiçoar bastante a seleção dos estudantes, de forma a explorar potenciais “perdidos” por nervosismo de vestibular e tornar a educação pública mais “igualitária”, no sentido de acessível a todos – e não acessível apenas a quem tem dinheiro pra pagar cursinho.

É claro que isso ainda soa muito poliana, mas acho que a avaliação do Enem, por mais cheio de erros que ainda seja, é o caminho inicial a ser trilhado para uma educação de melhor qualidade pro Brasil. É um projeto bacana no papel, pelo menos. Algumas coisas ainda precisam ser melhoradas, mas a gente precisa sedimentar em nossas retinas tão fatigadas de corrupções, nepotismo e afins, que para uma nação conseguir educação generalizada de qualidade, em instituições competentes e acessível a todos que queiram e mostrem potencial para tê-la, é preciso tempo – um trabalho de gerações. O Enem é o primeiro passo para esse processo de looongo prazo. Sejamos menos imediatistas.

Memórias de Viçosa

Muito me orgulho que Viçosa esteja dando este exemplo. Afinal, estudei lá. Sempre achei a UFV muito atípica dentro do quadro nacional das universidades: ela foi fundada por um americano, e possuía, pelo menos até a época em que lá estive, um esquema de organização da universidade muito mais parecido com o americano que com o brasileiro em si, repleto de aulas eletivas de qualquer departamento que o aluno quisesse. O intuito principal era formar um estudante plural, não afunilado em seu conhecimento ultra-específico (o conceito de universidade vem daí, não? Conhecimento universal…).

Eu, por exemplo, embora cursando Biologia, fiz por opção aulas na Economia (história da ciência voltada para a Economia), na Arquitetura (Ciência Ambiental em grandes projetos de infra-estrutura), na Agronomia (melhoramento de plantas para a agricultura). Além de cursos de verão de história da arte e afins oferecidos por departamentos vários da universidade. Com esse leque de opções, o aluno meio que “constrói” seu currículo além da Biologia apenas. Se quiser se afunilar, também pode. Tive amigos que faziam todas as disciplinas obrigatórias e optativas de um departamento, por exemplo, para aprender ao máximo sobre aquele tópico específico. É tudo uma questão de opção. Além disso, gente amadurece bastante quando tem o futuro nas nossas mãos.

Escolha é fundamental

Não que a educação americana não tenha falhas. Pelo contrário, tem e aos borbotões, em diferentes níveis. Mas, pelo menos no quesito “entrada na universidade”, acho-a um pouco menos injusta ao contabilizar as notas do estudante ao longo do 2º grau num score e exigir em termos de “one-shot” apenas o exame de SAT. O SAT, além de privilegiar o raciocínio lógico e a capacidade argumentativa do aluno, é dividido em conhecimento por área de sua escolha. Ou seja, se você quer fazer Biologia, você pode fazer o SAT de Bio, aumentando suas chances de entrar numa faculdade melhor. Mas isso não significa que você não tenha chance de entrar em nenhuma universidade nem que você seja obrigado a fazê-lo. A palavra-chave aqui é escolha própria. Acho que saber escolher o que melhor lhe convém para o seu futuro faz parte do aprendizado e amadurecimento necessários na vida de alguém.

O único ponto onde Viçosa não parecia uma universidade americana era no vestibular, talvez pelo tradicionalismo que a prova tenha no Brasil (e pela facilidade de correção e seleção para a própria universidade, talvez). Mas acho que, muito além de apenas “ficar mais parecida com uma universidade estrangeira”, a UFV consegue com esse passo iniciar um processo de universidade para quem tem potencial, e retirar um pouco, pelo menos, do desnível de classe econômica que permeia a educação superior brasileira. Eu sei que soa um sonho, mas acho que é o início de uma boa – e necessária – (r)evolução.

Tudo de bom sempre.



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