Viagens

A era contemporânea dos (re)descobrimentos

Durante a história, houve diversos momentos em que as pessoas se jogaram na estrada ou no mar, em busca do desconhecido e de descobrimentos. Grandes navegações, a conquista dos polos e das montanhas mais altas do mundo se encaixam perfeitamente neste quesito. O desconhecido, o lugar onde nenhum outro ser humano pisou, testando os limites de nossas capacidades fisiológicas, são desafios que ainda atiçam paixões aventurescas no coração de muitos. E raras delas foram sabidas em tempo real, no momento em que eram feitas. Afinal, levava-se meses para uma carta contando o feito chegar ao reconhecimento público da época.

Só que o mundo mudou muito desde que Cristóvão Colombo chegou às Américas ou Sir Edmund Hillary pisou no cume do Everest. Hoje em dia, praticamente todos os cantos do planeta estão mapeados, e é cada vez mais difícil encontrar regiões inóspitas que nunca foram exploradas, visitadas ou instagrameadas por seres humanos. Entramos portanto na era dos redescobrimentos.

A era dos redescobrimentos

Então que o caráter geral dessas novas expedições do nosso século mudou também. Nada mais é 100% desconhecido, mas ainda pode ser re-explorado de uma maneira criativa, única. Não basta pôr o pé em um lugar; munidos de acesso à rede e celulares que tiram fotos, filmam e tudo-o-mais, as pessoas compartilham o não-tão exótico com sua visão própria do lugar. E transformam a perspectiva dos que acompanham sobre um lugar já não tão desconhecido. É a era dos redescobrimentos, das novas expedições interativas, para se re-avaliar limites. Sentada no computador, com uma janela virtual aberta para o mundo, qualquer pessoa pode acompanhar. E sonhar com a sua maneira própria de fazer tal aventura.

E eu que adoro embarcar no sonho aventuresco das pessoas, tenho me deliciado do conforto da minha casa com algumas expedições maravilhosas que surgiram recentemente.

Surfe no Kamchatka

[Foto do Instagram do Chris Burkard (@chrisburkard), mostrando a costa do Kamchatka.]

A primeira delas foi para meu destino mais-sonhado do momento, a Península do Kamchatka, no extremo leste da Rússia, dos locais mais remotos e de difícil acesso do planeta. Ponto com diversos vulcões ativos – patrimônio natural da UNESCO, by the way – , uma paisagem lunar nevada linda, fauna e flora inacreditáveis (mas já com alguns sinais de alerta), uma costa enorme a ser explorada. E o foi, de uma maneira pra lá de divertida por Foster Huntington, Keith Malloy, Trevor Gordon, Chris Burkard, Cyrus Sutton e Dane Gudauskas. Eles foram ao Kamchatka surfar ondas nunca dantes dropadas.

Acampados, contaram muito via Instagram, blog e twitter, sob a tag #kamshaka. O vídeo da preparação já foi uma delícia:

[Preparing To Surf In Russia from Ben Weiland, from the Artic Surf Blog.]

Acompanhar esta surf trip me deu mais vontade ainda de conhecer e cair no mar do Kamchatka. Apesar do frio. Olha essa costa e diz se não dá vontade de ir ontem!

Subida do Kilimanjaro

Outra expedição que me impressionou ultimamente foi feita pelo Jodrian: a subida do Kilimanjaro. Todo mundo vai dizer: “ah, mas que batido, qualquer um que queira faz isso hoje em dia!” Sim, o Kilimanjaro realmente está muito mais ao alcance da humanidade que sonhe com tal aventura que no passado. Mas, ainda assim, a experiência pessoal de cada um é o que faz a diferença na subida de qualquer montanha. Confesso que já li diversos relatos de subida ao Kilimanjaro que não me empolgaram em nada. Mas, o que o Jodrian vem publicando em seu blog bateu em mim de uma forma diferente: deu vontade de estar lá, caminhando e subindo e presenciando cada detalhe da paisagem junto. Muito bacana, do planejamento ao cume.

Expedição Brazil 9000

E mais uma expedição que vai possivelmente me empolgar pelos próximos meses é a “Brazil 9000“. Aaron Chervenak e Gareth Jones, com uma equipe que também conta com Huw Jones, Eric Yu, Tom Allen e John Summerton, vão cobrir o  Brasil do Monte Caburaí ao Chuí – e eles explicam que, antigamente, achava-se que o Oiapoque era o ponto mais ao extremo norte do país, mas que, depois de revisões de geógrafos, descobriu-se que o Monte Caburaí, em Roraima, é na realidade o ponto mais ao norte.

[Mapa retirado do site da expedição Brazil 9000.]

Mas se fosse uma simples “caminhada” por essa extensão de país não seria tão diferente. Então eles resolveram que vão remar de Caburaí até Belém; depois andar até o Rio de Janeiro; e por fim, bicicletar até o Chuí, no RS. Ou seja, tudo na base da energia humana, nada de carros ou aviões para auxiliar no transporte. A estimativa é que a aventura dure 15 meses, e começou há poucas semanas.

Claro, eles estão narrando tudo via twitter (@SkeetoLounge), facebook (facebook.com/skeetolounge) e posts no blog da expedição. Essa “redescoberta” do nosso país tem pinta de ser das mais divertidas já presenciadas. Let’s go!

A todas estas expedições contemporâneas da era dos redescobrimentos, que reinventam o ato de viajar e cujos integrantes se tornam os novos redescobridores, tudo de melhor sempre.

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Ver Comentários

  • Redescobrir o que já foi descoberto foi justamente o tom da palestra do Seth Krugel, no Seminário Viajosfera. Sensacional!
    E claro... vou acompanhar de perto essa expedição Brazil 9000. Pelo mapinho eu vejo que eles vão passar pelo ES, né? #obairrista

  • Acho que sim, Tiago. Vão estar à pé pelo ES, em direção ao Rio. Redescobrindo o Brasil. :)
    Essa expedição tem tudo pra ser muuuuuiito interessante. Pra acompanhar sem piscar!
    Bjs!

  • Bem legal esse tópico! Eu compartilho da mesma opinião de redescobrimento.

    Acabo de voltar do norte da Itália onde pratiquei muito isso! Agora estou me preparando para cruzar os EUA de costa a costa e novamente aplicar essas idéias.
    Vou acompanhar a expedição Brazil 9000 também. Vai ser imperdível.Abraços,Daniel

  • Bem legal esse tópico! Eu compartilho da mesma opinião de redescobrimento.

    Acabo de voltar do norte da Itália onde pratiquei muito isso! Agora estou me preparando para cruzar os EUA de costa a costa e novamente aplicar essas idéias.
    Vou acompanhar a expedição Brazil 9000 também. Vai ser imperdível.Abraços,Daniel

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Lucia Malla

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