O assunto trágico da semana desta vez vem da África do Sul. A água da Cidade do Cabo está prestes a acabar.
Cidade do Cabo e sua clássica Table Mountain, ponto crucial do ciclo da água local.
A prefeitura da cidade já marcou dia 12 de abril como o “Dia Zero“. Ou seja, quando a empresa de abastecimento não mais conseguirá puxar água dos reservatórios para as torneiras da cidade. Caso não chova (muito) até esta data, a cidade entra num racionamento forçado completo.
(A data é uma previsão baseada no consumo diário. Alguns cálculos sugerem dia 29/abril.)
No meio do caos que este acontecimento pode (e provavelmente irá) instaurar, está uma corrida contra o tempo. Afinal, os governantes querem terminar inúmeras usinas de dessalinização e outros projetos para puxar água do subsolo. Os moradores da Cidade do Cabo estão também se preparando para depender de caminhões-pipa. Isto trará um limite na quantidade de água diária que cada um poderá pegar de 25 litros por dia. Que não são muita coisa, entenda-se.
Dessalinização é um processo caríssimo e apenas utilizado em lugares onde não há nenhuma possibilidade de outra fonte de água, como em Israel.
A Cidade do Cabo, por sua vez, tinha um ciclo da água que, até pouco tempo, funcionava bem. Este sistema era entranhadamente conectado e dependente de seu símbolo máximo, a Table Mountain. É da umidade acumulada em seu cume com o regime de ventos que até então era comum que vem boa parte da água da cidade.
Mas não mais. Esta seca histórica já é parte do “novo normal” que teremos daqui pra frente em tempos de mudanças climáticas. Mesmo que ainda haja quem queira ficar discutindo que não tem aquecimento global, gisuismariajusé…
No banheiro do Centro de Convenções da Cidade do Cabo, a mensagem clara.
O que pega meu coração é ver todo este sofrimento numa cidade absurdamente linda. Ano passado, quando estivemos lá, sinais luminosos nas rodovias imploravam para as pessoas economizarem água, falando que a cidade só tinha 13% restante nos reservatórios. Veja bem, não é o volume morto como por exemplo em outras cidades que conhecemos (cof, cof, São Paulo). Hotéis, lojas e restaurantes, todos sem exceção com muitos avisos para economizar água. Além da própria população que falava isso com a gente sempre que possível.
Dentre todas as cidades pelas quais viajei neste planeta, confesso que nunca vi uma campanha tão acirrada de economia de água. E vi isto já a um ano atrás. Ou seja, não foi por falta de preparo nem aviso que a situação chegou neste limite trágico de doomsday. É que realmente nestes novos tempos, aquela é uma área cuja previsão é, por certo, secar.
Este cartaz estava espalhado por todos os corredores o hotel em que ficamos, e também em outros pontos da cidade.
É muito provável que isto traga um impacto ao turismo, que é parte considerável da economia da cidade. De repente, não mais que de repente, a Secretaria de Turismo da Cidade do Cabo vai ser obrigada a chegar numa solução pro futuro desta atividade econômica ali.
E isto revela uma realidade cada vez mais crucial. A gente precisa repensar o turismo e cada destino tendo as mudanças climáticas como pano de fundo inevitável em nossas decisões.
Para quem se interessa por futurologia do turismo, esta crise dramática da Cidade do Cabo servirá como um baita laboratório, infelizmente. Quem sabe a gente por fim assimile em nossas mentes teimosas que água não é recurso ilimitado. E que, portanto, é fundamental para a saúde social e econômica de uma sociedade.
Tudo de água sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
Começo 2021 no blog resenhando um dos livros que mais me marcou em 2020, "Slavery…
Quando pensamos em receitas para uma boa saúde e longevidade, geralmente incluímos boa dieta e…
Eis que chegamos à maioridade votante. 16 anos de blog. Muitas viagens, aventuras, reflexões e…
O ano de 2020 tem sido realmente intenso. Ou como bem disse a neozelandesa Jacinda…
Nesta maratona de resenha de livros que tenho publicado durante a pandemia, decidi escrever também…