A última sexta-feira começou com muito frio na barriga. Afinal foi o dia marcado para que nós fôssemos fazer o rapel e o mergulho no Abismo Anhumas, aventura muito recomendada por qualquer guia de Bonito.
Meu currículo de aventuras “nas alturas” inclui me jogar de um avião a 14000 pés, então em tese eu não precisava me preocupar em descer 72m amarrada a uma corda de rapel. Mas é claro, o nervosismo foi aos poucos crescendo e minutos antes de chegar ao local, eu já estava fora do meu normal completamente.
Por alguma razão que nem Freud explica, descer pela corda de rapel para o Abismo Anhumas foi mais estressante que subir. Talvez pelo tempo gasto: desce-se em cerca de 3 minutos (atividade “aguda”) e sobe-se em 30 minutos (atividade “crônica”, dá tempo para você se acostumar). Ou talvez o nervosismo tenha sido psicológico. Afinal, a idéia de entrar em um buraco escuro dentro da terra (“abismo” não é um nome que colabora, convenhamos) com um lago no fundo fez meu coração bater em ritmo de trio elétrico no carnaval de Salvador. Adrenalina a mil.
No dia anterior, fomos à noite para o treinamento do rapel na central de reservas do Abismo. De uma plataforma de 8m de altura, monitores ensinam a você as técnicas ultra-básicas para descer e subir pela corda, uso do equipamento e como evitar acidentes (não queimar o rosto na descida, por exemplo, já que o equipamento fica quente pelo atrito com a corda). O treinamento serve também para dar uma sensação de segurança maior ao turista e para interessados em física básica, uma boa oportunidade para diversão light intelectual. Afinal, tudo ali é uma mera questão gravitacional: é seu peso que trava todos os mecanismos de roldana da corda para a subida e uma alavanca libera você para a descida, na velocidade que você escolher.
Ainda na central de reservas, depois do treinamento, o gerente nos explicou as regras básicas da aventura, assinamos um seguro e um termo de responsabilidade, e ao que tudo indicava, estávamos então aptos para entrar (e mergulhar) no abismo.
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Na manhã seguinte, já cheguei na beira do Abismo Anhumas com cara de nervosa (para não dizer quase-pânico). O monitor Rui, que cuidou da corda na parte superior do rapel, tentou ao máximo me acalmar. André e eu descemos na mesma velocidade, unidos por uma terceira corda. O início da descida é bem estreito e aos poucos a caverna vai aparecendo em toda sua grandiosidade. Na hora que comecei a ver as estalagmites e estalactites, o lago clarinho embaixo, o medo foi embora e a emoção tomou conta. Os 72 metros de altura (um prédio de 30 andares!) se tornaram a linha tênue que segurava meu contentamento.
A “aterrissagem” na plataforma de madeira é tranquilíssima e alivia bastante a tensão inicial, permitindo que eu volte a respirar normalmente. A calmíssima monitora Ciele nos ajudou a desmontar o equipamento de rapel e soltos das amarras de corda. Começamos então a apreciar mais os diversos espeleotemas ali presentes.
A caverna do Anhumas é enorme. Um salão do tamanho de um campo de futebol cheio de esculturas naturais formadas pela deposição do calcáreo da região. A gente vê os microagregados de calcáreo na superfície da água do lago que, aos poucos, afundam e se depositam por gravidade no fundo. Formam ali muitos cones, que brotam de baixo para cima a uma velocidade média de 1cm a cada 3 anos, emoldurados pelo gotejamento da água calcárea numa superfície de água. Ou seja, é grosseiramente falando uma estalagmite que cai no “molhado”.
De acordo com registros geológicos, a caverna do Abismo foi sempre molhada. Ou seja, sempre teve um lago. Levou cerca de 300 milhões de anos para formar a floresta de cones de até 20m de altura que vemos embaixo d’água. Estes cones submersos são os maiores até hoje encontrados no mundo. Em algum momento do passado, hipotetiza-se inclusive que a água deve ter chegado próxima à abertura do Abismo, a quase 70m acima do nível atual.
A água é, aliás, a continuação necessária da aventura. Não basta o rapel. Chegando no fundo do Abismo, é fundamental que se faça a flutuação ou um mergulho para apreciar de verdade a riqueza geológica única do local. Colocamos então um cilindro da Bonito Scuba Dive nas costas. E começamos a descida na água gélida (em torno de 18ºC). Nosso dive master, o Miguel, mais que acostumado àquele trajeto sub, nos guiava com zelo exemplar.
O lago tem profundidade máxima de 80m. Ele não se conecta às demais grutas da região por canal direto, apenas por infiltração. Ou seja, não há corrente alguma ali. O que é diferente da Gruta do Lago Azul, por exemplo, onde há uma pequena corrente contínua. O sistema é, portanto, considerado de “água aberta”. Então o mergulho é sossegado, recreacional, à profundidade máxima de 18m, sem maiores requerimentos PADIanos de cursos avançados técnicos de caverna.
A escuridão sub fez a angústia paniquenta voltar e meu coração acelerar, mas depois de um tempo embaixo d’água, a gente se acostuma com a falta de luz natural e finalmente aprecia a paisagem. Que é deslumbrantemente linda, parecendo ter saído de algum planeta numa galáxia distante. Sensação de estar fora da Via Láctea e fora da realidade. Amei.
Há ainda no fundo do lago esqueletos de animais que caem no Abismo e morrem por lá, obviamente porque não conseguem escalar de volta. Aliás, mesmo alguns animais com asas, como as borboletas, uma vez que entram no abismo, não saem – a falta de corrente de ar leva o animal sempre pra baixo e uma vez ali, ele não consegue se direcionar para voltar. Ciele comentou que algumas vezes eles chegam no Abismo para trabalhar e encontram um animal boiando.
Praticamente todo dia tem descida. A caverna, para funcionar como atração turística, teve que passar por um intenso estudo de impacto ambiental aprovado pelo IBAMA. Afinal, todo subsolo pertence à União. E é a União quem decide, via CECAV, órgão regulamentador federal das cavernas brasileiras (também chamado pelos locais de “Entrav”), sobre licenças e burrocracias afins.
Depois de terminar o mergulho gelado, conversei um pouco com um casal de Berlim que descera antes da gente. Os pais da menina estavam no Anhumas e subiam naquele momento o rapel com motivação de gente nova. Foi o ânimo que eu precisava para encarar a extenuante volta. A monitora, aliás, comentou que o recorde é de um senhor de 78 anos, que conseguiu subir o rapel sozinho. Indicou prontamente também que como o Abismo não é uma aventura “radical” (é uma aventura, simplesmente), está aberta a qualquer pessoa. A única restrição é ter mais de 35 kg, porque esse é o peso limite para permitir a “destrava” da descida com o equipamento que eles usam.
Antes da subida, entretanto, demos uma voltinha de bote, para observar mais de perto alguns espeleotemas mais escondidos. Vimos os coralóides, que parecem corais duros. Também a cortina, que são mega estalactites que escorrem lado a lado formando uma verdadeira “cortina” de rocha. E as “colunas”, que são estalactites que se formam em torno de um eixo central. Além dos “repolhos” que marcam onde a água chegava em um passado remoto. A visibilidade de 40 metros na água permite que mesmo do barco vejamos o topo dos cones submersos. Um espetáculo de exotismo esse passeio.
E eis que chega então o pior momento, a subida. Cansada do mergulho, já estava imaginando que iria ficar 1 hora pendurada na corda para conseguir chegar lá em cima. Pior: só tem um jeito de sair de lá, encarando o rapel.
Mais uma vez, a calma da monitora foi determinante para eu me tranquilizar e apreciar a subida. Fui devagar e sempre, em ritmo de formiguinha. Parei muitas vezes pendurada na corda para contemplar a visão lá de cima. A cada metro, uma nova perspectiva. Vimos morcegos entocados, rochas que lembravam rostos, os detalhes do teto. O lugar é muito sereno. De certa forma, indicado a todos que curtem tranquilidade e paz em alguns momentos da vida.
Meia hora depois de iniciado o rapel de subida, estava eu lá em cima de volta ao mundo real. E se quando cheguei ali mais cedo não entendia o que leva uma pessoa a querer descer por livre e espontânea vontade o Abismo Anhumas tamanho meu nervosismo, depois que saí passei a não entender o que leva uma pessoa a NÃO querer experimentar essa aventura. Que é afinal relaxante para a cabeça.
Cansa subir, as mãos dóem no final, a canela fica arranhada da corda, a cadeirinha incomoda (principalmente aos homens…). Mas a sensação de plenitude por ter visitado aquele mundo atípico é tão grande, tão profunda, que todo o cansaço vira mero adendo para uma overdose de serotonina como lembrança surreal inesquecível.
Tudo de Bonito sempre.
Maioridade: 18 Anos do blog Uma Malla pelo Mundo.
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Ver Comentários
Lucia do Céu! Estou com falta de ar até agora! Corajosa, hein! Mas valeu a pena. Imagens sensacionais e uma exuberância da natureza indescritível!
viajei junto, subi o rapel, e quase me afoguei no mergulho, hehe.
beijo, menina
xará que coisa deslumbrante!!! puxei o ar e só soltei no ahhhh!!!! parabens, super aventura e supertexto... vc ta mais pra jornalista que pra biologa.. euclides da cunha q se cuide, q aquele livrinho dele vai virar lenda! Vem aí Lucia Malla, a escritora!!! show de bola
e como vc ta mais off do q on, achei essa noticia pra vc:
http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/esportes/conteudo.phtml?tl=1id=810814tit=Grupo-de-para-quedistas-vai-saltar-sobre-o-monte-Everest
super beijocas
Viva, a 14ºC eu tenho certeza absoluta q teria virado um bloco de gelo. Afe, vc é termocorajosa! :D
Denise, a sensação dentro do Abismo, por incrível que pareça, não é de claustrofobia. Acho q por causa do buraco no teto e do tamanho do salão da caverna. Fico muito feliz q vc tenha viajado junto.
Luluzita, q notícia ótima! Obrigada por deixar o link aqui, seguirei com afinco semana q vem essa "inovação" everestiana. :)
Beijos às 3.
Era apenas uma simples explicação de um trabalho de curso , sobre algumas fotos. Então de qualquer forma fui procura saber mais sobre essa tal de Abismo Anhumas e aff! meu Deus estou imprecionada, com a magnitude e beleza desse lugar. Realmente essa é umas das provas que Deus realmente existe e que somos tão pequenos.
Oi, Lucia! Muito orbigada pelas dicas. Os posts são incríveis! Uma dúvida, quantos dias você ficou em Bonito? EM Mirando foram 3, correto?
Mais uma vez, obrigada!
Oi Carla, eu fui a Bonito 2 vezes. Na primeira, fiquei 3 dias e na 2a vez ficamos 5 dias. Foi suficiente para fazer muitos passeios e curtir bastante. Em Miranda, ficamos 3 dias.
Bjs!