A frase do título é batida, e foi cunhada no jurássico da blogosfera, quando iríamos mudar o mundo um post de cada vez. Apesar da utopia que emana, considero a frase ainda forte, pela concisão fundamental do ato de blogar que descreve. Um blog é essencialmente uma conversa em diferentes níveis: entre leitor e blogueiro via post, entre leitor e outros leitores na caixa de comentários, entre blogueiro e outros blogueiros via links amigos. Estes níveis de conversa são parte da fisiologia de um blog, do cerne de sua existência saudável.

Entretanto, venho percebendo ultimamente uma tendência cada vez maior ao falar sozinho. Parece que os blogs não conversam mais, pelo menos não da forma como antes se conversava. E quando falam, em geral são aos gritos. Afinal, só assim pra ser ouvido com tanto ruído de fundo pela rede, não é mesmo?

A percepção do falar sozinho me pegou quando comecei a navegar por blogs nunca dantes navegados. Blogs que não linkam em seus posts para nenhum outro blog, nem realçam o conteúdo do vizinho. As pessoas conversam consigo mesmas, e esquecem dos dois dedos de prosa a mais que diferenciam um post de uma reportagem de jornal. Muita informação interessante pode sair de uma conversa entre blogs, e principalmente diversidade de experiências e opiniões. Entretanto, para tal, é preciso que a conversa se restabeleça, que o blogueiro queira e saiba que está dialogando – e a forma como isso é tradicionalmente reconhecido é pelo link. Só que a cultura do link amigo foi, a meu ver, aos poucos se tornando escassa, quase extinta.

Obviamente a blogosfera mudou, e esse desaparecimento reflete essa mudança. Uma mudança que veio aos poucos, paradoxalmente à medida que os blogs se expandiam e conquistavam horizontes cada vez mais ensolarados. Só que quando fomos nos aproximando destes horizontes, começamos a nos afastar das nossas praias originais, e assim ficou cada vez mais difícil a conversa com os que ficaram pela areia. Por isso os gritos. Porque nossos blogs viraram ilhas afastadas, no oceano das redes sociais. Claro, as redes sociais permitiram mais expansividade de navegação, mas ao mesmo tempo incentivaram o afastamento. Porque fizeram o conteúdo ser um pontinho do horizonte, não mais o mar.

E é aí que me pego refletindo. Estamos levando o conteúdo  e a conversa para as redes sociais (onde você e o conteúdo são o produto, lembrando bem), centralizando em poucos condomínios fechados, que requerem login e senha, quando deveríamos estar trazendo as redes sociais para o conteúdo, mantendo a conversa descentralizada, mais orgânica, flexível e fácil de acessar e compartilhar. Principalmente, mantendo o processo de disseminação independente. Eu acho que a beleza da internet do futuro vai estar nessa reversão da centralização para a descentralização do conteúdo, sem perder a festa particular das redes sociais.

No momento, entretanto, estamos acomodados, conversando no elevador do prédio, restrita aos nossos “chegados”. Aos poucos, a gente deveria deixar o papo pular o muro e voltar pra rua, para ser discutido em cada esquina da rede de maneira mais ampla e desburocratizada, aberta a quem quiser participar.

Fica a reflexão.

Tudo de bom sempre.

***************

*Alguém sabe/se lembra quem foi o autor desta frase-conceito?

** Esse post é um spin-off/continuação do post que escrevi pro site da ABBV esta semana, e foi inspirado/instigado por uma conversa com o Doni, que também virou post no blog dele.

*** Não custa relinkar o Manifesto Verbeat, “Pela Liberdade e Democratização da Comunicação”. Escrito há muitos anos, mas ainda muito atual.

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Ver Comentários

  • Lucia, belo texto.
    Lembrei do início do Goitacá e de outros momentos nos quais parecia que o conteúdo coletivo realmente iria ter uma importância maior no futuro de nossas vidas online e que as conversas iriam fluir mais e mais - não que isso não esteja acontecendo nas redes sociais, mas é um pouco diferente.
    Uma coisa fundamental que não dá pra esquecer é que nas redes sociais o conteúdo não é nosso e logo fica esquecido no fundo de um baú lotado de lixo, enquanto o que escrevemos em nossos blogs fica disponível por quanto tempo quisermos e sempre estará lá para quem quer que esteja interessado em encontrá-lo.

  • Excelente reflexão, Lucia. E muito a propósito do que eu tenho visto: blogs sensacionais, com cada vez menos interação dos leitores.Eu confesso que ando desanimada, disso. Mas enquanto eu acreditar neste caminho, insistirei.

  • Não desistam, blogueiros!
    As redes sociais (e.g. o Twitter) reverberam o que vcs escrevem! E embora as interações possam ter diminuído, como estão os acessos? Vejam seus acessos!

  • Oi Dudu, uma boa lembrança a do Goitacá. Interessante pq antes de existirem "redes sociais", a idéia era justamente esta: ter blogs que funcionavam como "redes sociais", agregando diversidade. Óbvio, este conceito mal sabia o quanto mudaria depois que FB e twitter apareceram. :D
    É justamente essa coisa do conteúdo não ser nosso que me incomoda. Pq foi vc que produziu. Por isso o interessante é reverberar em rede social, mas manter a conversa fora delas de alguma forma. Ainda não sabemos como, e talvez é como o Doni disse em algum lugar (não lembro se no FB ou no blog dele), que ele acha que a rede social do futuro ainda não apareceu, e ela levará isso em conta.
    Marcie, insista, pq eu acho que a luz do fim do túnel não está tão distante... acho que já-já as pessoas começaram a voltar com seu conteúdo para o ambiente colaborativo.
    Sibele, não é uma questão de acessos. A conversa ocorria independente se um blog tinha dez ou um milhão de acessos. Pq ele conversava com outros blogs. E é isso que existe bem menos, independente do tamanho do blog.
    Biejos a todos.

  • Lucia, como sempre seus posts incitam a discussão.
    Fazendo uma pequena reflexão, os blogs no inicio eram "um perigo" e "precisavam" ser domados. O descontrole deles onde cada um escreve o que quer, com um mundo de pessoas conectadas e com tempo e disposição para ouvir, debater e criar uma massa crítica nao direcionada era uma grande ameaça aos conglomerados de mídia.
    Pessoas anônimas com conteúdo, de repente viravam formadoras de opinião, de questionamentos e até de ações. Havia espaço para isso! Outras pessoas com menos tempo ou motivação "pegavam uma carona" comentando os posts, divulgando entre os amigos, que passavam a acompanhar os blogs e isso virava um rolo compressor para quem já estava no mercado de informação há muito tempo.
    Lembro que seu blog foi de longe o melhor lugar para acompanhar a visita do Lula à Coreia.
    Esse oba-oba "tinha" que acabar! Alguém tinha que dar um jeito nessa "molecada" que estava desviando a atenção, sem interesse em fazer média com os patrocinadores e sem alinhamento editorial.
    O jeito apareceu!
    Aliás, os jeitos.
    Jornalistas profissionais e celebridades começaram a blogar, com auxílio especializado, ou emprestar seus nomes a equipes profissionais. Isso já começou a impedir que os holofotes (que é o tempo das pessoas) saíssem deles. Minando o fluxo de novos visitantes e o crescimento natural e vegetativo dos blogueiros independentes.
    Antes era necessario ter conteúdo para postar na rede. Hoje cada um, ainda que nao saiba escrever e nem tenha ideias brilhantes, tem direito a espaço nas redes sociais. É um espaço limitado, controlado, onde só os amigos (que aceitam você como você é) têm acesso e por educação, tolerância e outros motivos, dificilmente abrem uma discussão profunda, te desafiam ou deixam em uma saia justa, que toque na ferida.
    Os blogs são ambientes muito expostos, tem que ter coragem, tem que ter preparação e antes de tudo, tem que saber ortografia e concordâncias verbal e nominal.
    As redes sociais chegaram como solução final. Apresentou-se como mais uma forma de expressão, que poderia (e de vez em quando faz isso) amplificar as outras formas de expressão e de diálogo virtual, mas o tempo das pessoas é limitado e cada conta é um compromisso. As redes foram ampliando os serviços e por fim ocuparam todo o tempo das pessoas. Nao sobra tempo para navegar de bobeira e cair num blog novo. Nem para divulgar um blog por email entre os amigos, que é quase um spam. Mais cômodo é divulgar como uma linha no FB. Quem quiser pode clicar, não há compromisso.
    Qual o futuro? Nao faço a menor ideia, mas ainda acho ue trabalhos como o seu sempre vão valer à pena. Trazer questões à discussão. Intrigar as pessoas. Divulgar pontos de vista autênticos e criativos, isso nos faz crescer!
    Um grande abraço!

  • Lucia,
    Sei de um monte de gente que escrevia bem no próprio blog e parou quando as redes sociais ganharam espaço na rede. Nos facebooks e twiteres da net essas mesmas pessoas deixaram de escrever para navegar nas ondas da moda. Pecado, perdemos todos. Lembro que foi num bate papo nos comentários do seu blog que nasceu o Faça a sua Parte, e perder esse tipo de iniciativa nos leva de volta ao passado.
    Beijocas e abraços.

  • Adorei sua reflexão..
    Eu também tenho saudades da blogagem moleque que a Mari Campos citou.. Hoje sou cada vez mais exigente com o conteúdo que publico,o que torna o processo de criação e produção textual cada vez mais demorado e cansativo. Além disso, na medida do possível SEMPRE procuro mencionar aqueles posts que me ajudaram no planejamento de minha viagem e mesmo daqueles que acabei descobrindo por acaso depois dela.. Mas infelizmente ultimamente a blogosfera tem ficado cada vez mais individualista e muitos blogueiros por aí acham que ao citar o post de outro blog vai acabar perdendo seu leitor.. Eu mesmo tenho deixado de citar vários outros posts daqueles blogs que eu sei que se basearam no mauoscar em alguma viagem, escrevem posts ótimos, mas mesmo assim nao se dão o trabalho de citar sua fonte de inspiração dando inicio a uma rede de troca de idéias e experiências entre leitores e blogueiros.. Eu sou da opinião que mesmo que eu faça o mesmo roteiro que você sugere num post, a experiência vista sob um outro ponto de vista pode ser extremamente enriquecedora

  • Bela reflexão, Lucia. Eu vira e mexe me pego com um saudade danada não só do Goitacá mas do começo da blogosfera (viajante ou não) brasileira, lá em 2006, 2007, em que havia muito mais alma e menos marketing em tudo. Aquela "blogagem moleque" :mrgreen: A evolução faz parte, é claro, com o bom e o ruim que derivam dela. Então que a gente saiba, ou tente, pelo menos, como você mesma diz, fazer "reverberar em rede social, mas manter a conversa fora delas de alguma forma". Linda ideia.

  • Mari, acho que estarei cada vez mais e mais tentando isso, usar as redes sociais só pra reverberar. Deixar o conteúdo livre, leve e solto fora de um local que requeira login e senha pra ser acessado.
    Robsan, meu caro, que comentário! Muito obrigada pelas palavras, mas acima de tudo pela contundente avaliação da blogosfera e da razão de tudo isso. Tendo a concordar com vc, e não acho que foi algo tão pensado. Acho que foi realmente uma questão de evolução da coisa toda, do ato de blogar. E acho q vc toca nu ponto importante, na sensação de "passado a perna" que mto jornalista ficou à época do início da blogosfera, pq eles ainda não entendiam direito o que era aquilo que começava a acontecer. Pode ter sido um fator importante no desenrolar da história.
    Allan, acho que o excesso de informação que as redes sociais, aliada à facilidade com que se compartilha coisas numa rede social, gerou uma preguiça generalizada de manter um blog como ponto de conversa. Entretanto, a preocupação que vejo é do conteúdo e a conversa que gera. No momento, ele está aos poucos sendo carregado pra dentro de sites com login/senha, e tem uma formiguinha na minha orelha que não me deixa pensar que isso seja o mais inteligente a se fazer. ;)
    Oscar, a palavra é essa mesmo: individualismo. As redes sociais, ao invés de instigarem a coletividade, terminaram instigando o individualismo mais ainda. Não deixa de ser irônico, porém triste. :/
    E tb concordo muito com vc: o relato de um mesmo lugar visitado por 2 pessoas diferentes não será a mesma coisa. E é esse conteúdo rico em diversidade que sinto que estamos perdendo - ou melhor trancando em gaiolas.

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Publicado por
Lucia Malla

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