A Mari Campos resolveu fazer uma enquete no twitter sobre qual o seu café de viagem predileto – uma questão pra lá de abrangente para viciados em cafeína como eu. Porque afinal, como não podia deixar de ser, não tenho um café apenas que considero o melhor; tenho, sim, vários cafés de viagem prediletos pelo mundo para escolher. A priori, listaria absolutamente todos que compartilhei pelas esquinas da vida com amigos, jogando conversa fora e filosofando sobre tudo e nada ao mesmo tempo. Estes, independente do gosto do café em si, foram momentos deliciosos, prediletos.

Mas, tirando a companhia, sobre café-café mesmo, tenho algumas preferências pessoais: em geral, gosto de café forte, tradicional. E sou roots: não gosto de café com “sabor” – tipo baunilha, chocolate, etc.

Consigo, apesar de tantos, escolher um que foi para mim simplesmente inesquecível.

Estávamos em Itaúnas (ES) para fotografar tartarugas. Era época de postura de ovos. Itaúnas era um deserto só: estávamos tão fora de temporada que nem o tradicional forró estava ativo. Conseguimos com um dos responsáveis pela unidade do Tamar ali que nos autorizassem a percorrer a praia junto, no dia seguinte de madrugada. Sua condição para fotografia: tínhamos que ir acompanhados de um dos monitores.

Encontramos no dia seguinte com o monitor, de nome Caboquim (provavelmente encurtamento de Caboclinho), às 4 da manhã na frente da sede do Tamar. De lá, munido de um isopor, saímos os três pela praia. À medida que andávamos, Caboquim nos contava sua história humilde. Que fora tartarugueiro, que foi coletando ovos que aprendeu a identificar os ninhos. Que as tartarugas haviam desaparecido. Que a pesca ali andava mal. Que tinha prazer em trabalhar pro Tamar e ter largado a vida de tartarugueiro. Que toda a extensão da praia era dividida pelo número de monitores da região, e que cada um tomava conta de 5 quilômetros de praia. Que tinham códigos para essa divisão de trabalho, rastros na areia que a gente não entendia. Enfim, um papo muitíssimo agradável que durou por toda a caminhada. As conversas, pontuadas de risadas e constatações, ressoavam no silêncio da manhã que ainda não chegara. A sabedoria popular de Caboquim preenchia.

Percorremos 5 quilômetros de praia e nem sentimos a distância. Achamos um ninho de tartaruga apenas – a noite fora pouco animada para as tartarugas. Caboquim fez então o ritual de mudança de lugar do ninho, já que a tartaruga tinha sido “preguiçosa” e pôs os ovos muito próximos da linha de maré. Aqueles ovos seriam simplesmente inutilizados pelo vai-e-vém do mar, se não fossem transferidos para um local seguro, explicou para nós Caboquim. Uns metros acima da linha de maré, ele os redepositou. Agora era dar tempo ao tempo.

Já havia amanhecido quando chegamos de volta à sede do Tamar em Itaúnas. Nenhuma tartaruga, mas inexplicavelmente leves. Já íamos nos despedindo de Caboquim quando ele soltou: “Vocês não querem um cafezim?” Depois de 5 km de caminhada na areia, foi como se eu visse miragem. Não podia fazer desfeita: “Ô se quero!”

“Pois minha mulher acabou de passar.” E foi me servindo numa xícara de vidro – ele tomava no copo lagoinha mesmo (que eu também prefiro, mas decidi não contar). “Aqui em casa a gente só toma café coado no pano. E já tem açúcar, viu. Se quiser pôr mais um tiquim…”

Sentei na varanda da casa de chão de cimento de Caboquim. Com um gole certeiro, provei o líquido preto. O melhor café do planeta desceu pela minha garganta. De roça, adoçado na medida certa, tomado na velocidade do vento, um pó delicioso, um cheiro forte que se misturava ao orvalho cedinho da manhã. E um dedo de prosa sincera perdida no tempo, pra pôr mais um tiquim de sorriso na vida da gente. O café que coroou com gosto de ouro negro aquele momento leve de uma viagem bacana.

Obrigada, Caboquim. Tudo de bom sempre procê.

**************

Falando em café, feliz aniversário pro Doni, grande amigo de diversos cafés! 🙂

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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  • Cafés, cafés!
    Sim, café com amigos é sempre bom. O bom papo, as brincadeiras, as curtições e gozações.
    Me lembrei do café feito por minha mãe. Café torrado em casa, moído em casa e feito em casa. Café forte, amargo (chucho açúcar no baita pra ele descer sem caretas) e forte.
    Claro, é um café medroso, sempre vem acompanhado de pães de queijo quentes e bem feitos pelas mãos daquela fada (é, minha mãe é uma fada).
    Mas não me esqueço do sabor do Capuccino. Graças a Deus aqui na minha cidade não encontro esse tipo de café, senão eu ia ser o maior consumidor de cafeína do mundo.
    É, deu vontade de bebericar um café agora. Mas por esse mês o melhor será tomar sempre Café com meu amor.

  • Eu não tomo café (podem começar a me xingar...O pior é que segundo meus amigos faço um café djilícia!) então pra mim o melhor café do mundo é aquele onde me sento em boa companhia. Claro, se ele vier com uma boa paisagem, melhor ainda!

  • Lucia, que texto delicioso (para variar, né?). Sempre gostei do seu jeito de escrever, mas agora, sabendo vendo que vc escreve tão bem e tão rápido, minha admiração só cresce! Beijão e continue nos brindando com tantas histórias boas!

  • Nossa, Cristiano!!! Q lindo seu comentário!! Adorei. :)
    Mari, deu uma sôdade...
    Marcie, a paisagem pode fazer a diferença. Mas os amigos... ah! Sempre os melhores "cafés", mesmo quando o café em si está aguado. :D
    Carla2, 'brigadim querida! :)
    Deise, fique à vontade para viajar por aqui! :)
    Beijos a todos.

  • Até os 30 não tomava café. Para não ser marginalizado no novo emprego, logo aderi ao hábito do café depois do almoço, ainda durante o período de três meses de treinamento, fechado em uma fábrica. Só não gosto de café com açúcar, mas não faço a desfeita de recusar se já estiver adoçado. Preferir, preferir mesmo, é o café expresso servido em qualquer boteco perto de casa, um pouco "lungo", que o "corto" é forte demais para o meu charuto.
    :)

  • Eu tb sou viciada em café e se não tomo fico logo com dor de cabeça...
    addicted total, ahaha.
    mas o melhor café é o da minha avó (que infelizmente já morreu). Coado no coador de pano, lógico, que dona Jeruza era avessa às modernidades da vida. Todo santo dia, religiosamente às 16h, o café tava pronto, pão com manteiga na mesa e histórias da vó Jeruza pra rechear...
    Qdo eu morei nos Everglades eu ligava pra ela sempre às 16h, pra tomar um cadim de café com ela, mesmo que via embratel!
    Bjs

  • Lucia, que delícia de texto...que vontade de café gostoso e boa prosa :-)
    Aproveito para desejar para você e o André um lindo, lindo ano novo.
    Um ótimo 2010 para vocês, meninos!

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Lucia Malla

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