Neste último sábado, embarquei numa viagem cinematográfica que nunca tinha tentado na vida. Assisti aos filmes de 1989 que compõem o decálogo do diretor polonês Krzysztof Kieslowski – o chamado Dekalog.

Maratona Dekalog

A atividade foi organizada pelo Honolulu Museum of Art, que planejou a projeção sequencial dos 10 filmes por 12 horas seguidas, começando ao meio-dia e terminando à meia-noite – e com intervalos de meia hora a cada 2 filmes, recheados de café e cookies. Uma maratona kieslowskiana, sem dúvida.

E valeu MUITO a pena esta experiência. A começar que eu nunca tinha ficado num cinema por tanto tempo. Porque não sou muito fã, por exemplo, de maratonas de seriados. Esse negócio de ficar grudado por um longo tempo no mesmo estilo, seja de enredo, cinematografia ou atuação, meio que me cansa. Então achei que lá pelo 7º filme eu já estaria totalmente de saco cheio de ver filme. Ledo engano. Os filmes que compõem o Dekalog são tão excepcionais, tão obras-primas, que quando acabou o 10º filme, minha vontade era pedir pra recomeçar tudo do início. 😀

O que me animou muito a encarar esta maratona foi ler as críticas pela internet – com o empurrãozinho extra do cinéfilo-mor Chico Fireman no twitter. Em todos os fóruns e sites, só elogios, notas 10. Além de muitas vezes a colocação de “projeto supremo da história do cinema”.

O que achei do Dekalog

Agora, depois de 10 filmes assistidos, posso cair na mesmice de todos e repetir: sim, é uma das maiores obras-primas da história do cinema.

Embora, interessantemente, ele não tenha sido feito para o cinema. Cada episódio do Decálogo era um seriado de TV. Afinal, até nisso Kieslowski foi um quê avançado para o seu tempo. Quando hoje se discute na Academia Cinematográfica Americana se documentários divididos em episódios podem ser categorizados como filme ou não, Kieslowski há tempos o fez e sem parecer se preocupar com os rótulos que suas obras teriam.

Cada filme do Dekalog corresponde a um dos 10 Mandamentos de Moisés. Mas, é claro, na versão de Kieslowski, há diversos twists and turns. Principalmente não há julgamento nem religiosidade nem espaço para maniqueísmo ou política. Há a percepção, o fato, o subtexto, o humano. Mas a balança moral e ética não pende pra um dos lados, fica permanentemente nesse estado incrível de tensão suspensa e solitária. Até no mais extremo dos mandamentos, o 5º – “Não matarás”, a versão Kieslowskiana deixa espaço para reflexões em ambos os lados, onde talvez a punição seja ambivalente.

Decálogo de histórias independentes

Cada história do Dekalog é independente, mas todas são amarradas por alguns detalhes, como se passarem todos ao redor de um condomínio em Varsóvia, ou o personagem sem nome ou fala que aparece em momentos cruciais, como a observar e apontar a moralidade dos personagens – ele é o primeiro a aparecer no primeiro filme, e sempre olha profundamente seu interlocutor. Seria ele a nossa consciência? Típica deixa de Kieslowski.

A maioria dos 10 filmes são obras-primas singulares. Pelo roteiro fabuloso, pela cinematografia incrível, pela construção dos personagens, pela atuação dos atores, pela direção impecável… Tudo no Dekalog leva um toque de Midas. No Dekalog: Oito (“Não darás falso testemunho contra o próximo”), talvez Kieslowski deixe escapar o objetivo de seu cinema:

“Everybody has a story to tell…” 

Tentei escolher o filme que mais gostei dentre os 10 – tarefa praticamente impossível. Talvez fique entre o Dekalog: Quatro (“honrar pai e mãe”), o Dekalog: Seis (“não adulterarás”) e o Dekalog: Dez (“não cobiçarás o que pertence ao próximo”). Mas aí começo a lembrar do Dekalog: Um (“amar a deus sobre todas as coisas”) que amei, ou do Dekalog: Três (“guardar domingos e festas”) que foi tão leve e tenso ao mesmo tempo e… Afe! Não dá pra escolher. Tem que ver tudo mesmo! E se preparar. Porque o filme vai te fazer ruminar por um bom tempo ainda depois de seu fim… Como raros filmes o farão.

A única certeza que você leva para casa sem precisar pensar muito: Kieslowski era um gênio.

Tudo de 10 sempre.

P.S.

“Dekalog celebrates the grandeur of not knowing.”

Lucia Malla

Uma Malla pelo mundo.

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Lucia Malla

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